Cidade Escola Aprendiz 19 de março de 2004

30-07-04   A caixa de brinquedos

09-06-04   Carta a um amigo

08-04-04   A Quaresma e a tristeza divina

02-04-04   Meu caro ladrão (ou ladra) ...

19-03-04   Quarto de Badulaques XLV

12-03-04   Quarto de Badulaques XLIII

05-03-04   Quarto de badulaques XLII

13-02-04   Quarto de Badulaques XLI

06-02-04   "Que seria de nós sem o socorro do que não existe?"

27-01-04   Sob o feitiço dos livros

26-12-03   Quarto de Badulaques XXXIX

08-12-03   Os pássaros e os urubus

01-12-03   Receita para milagre

27-11-03   Quarto de Badulaques XXXVIII

06-11-03   Quarto de badulaques XXXVI

31-10-03   Quarto de badulaques XXXV

19-09-03   Se eu pudesse viver novamente a minha vida...

12-09-03   Livros que dão alegria

29-08-03   Uma criança chora...

22-08-03   Quarto de badulaques XXX

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Quarto de Badulaques XLV

As onças estão voltando... : Tem uma emoção nova no ar de Pocinhos do Rio Verde, lugar onde planto árvores para meus amigos que partiram para o outro mundo. Agora até mudei de idéia: estou plantando árvores para amigos que ainda não partiram, como é o caso do Carlos Rodrigues Brandão, para quem plantei uma árvore rara, paineira branca. A minha própria árvore já está com mais de três metros. Pois a nova emoção é um cheiro diferente. É só ir lá para sentir. Antes era só tranqüilidade, os cheiros conhecidos do capim gordura, dos assa-peixes, dos lírios do brejo.

Pois agora tem um cheiro novo, cheiro de onça... "Eu senti o cheiro dela, quando andava na minha roça de mandioca", contou-me um amigo. É. As onças estão voltando. Confesso que fiquei feliz. De jeito nenhum quero me encontrar com uma delas nas minhas caminhadas. Eu não tenho nem a coragem e nem a força do Jeca Tatuzinho. Bem feito para mim: não tomei Biotônico Fontoura. Minha felicidade é porque estou me sentindo transportado para o passado, os lugares da minha meninice.

Naqueles tempos, sim, as onças estavam por toda parte. Jeca Tatuzinho que o diga! Pois depois de curado de suas lombrigas e de ter tomado três vidros do Biotônico, ele topou com um par de onças no mato. Ouviu o miado. "E eu aqui, sem nem mesmo uma faca...", ele pensou. Mas medo não teve. Fincou firme as botinas no chão e esperou. A onça chegou, arreganhou a dentuça e pulou com um miado de fazer pedra tremer. Jeca Tatuzinho pregou-lhe um murro nas fuças que fez com que ela rolasse pelo chão. "Conheceu papuda?!" - foi isso que ele foi dizendo enquanto a estrangulava com suas próprias mãos. A outra onça, vendo o que acontecia, tratou de por-se a salvo, e se os boatos são verdadeiros, está correndo até hoje.

Até o Pedrinho, neto da Da. Benta, do Sítio do Pica Pau Amarelo, teve uma aventura com uma delas, das pintadas, numa de suas caçadas. Antigamente quem morava na roça pensava em onça. Me lembro, lá na fazenda velha onde vivi. Todo mundo já tinha topado com onças, todo mundo contava estórias de onças. "Pois eu vinha pela trilha quando, de repente, a cara de uma onça apareceu atráis duma pedra. Peguei a espingarda, mirei no meio dos zóios e pum! - era uma veiz uma onça. Mas aí não aquerditei no que vi. A onça apareceu de novo. Imaginei que estava ruim dos zóio, que estava perdendo a pontaria. Mirei de novo. Pum! - era uma veiz uma onça! Pois não é quela apareceu de novo? E assim foi, a onça aparecendo, eu atirando, ela aparecendo de novo - seis vêis, seis vêis. Aí, ela num apareceu mais. Fui chegando, matreiro, descunfiado, prá vê atráis da pedra. E ocê num vai aquerditá nu qui eu vi: seis onça morta com um tiro no meio da testa..."

Pois uma onça, daquelas cinzentas, suçuarana, tamanho de um cão pastor, matou a mula de um homem lá em Pocinhos. Ele chamou os amigos, reuniu a cachorrada, e lá foram em perseguição da onça. Encontraram. Mataram. Mas não adiantou. Apareceu uma outra, igual. Amigos e cachorrada encurralaram a dita. Ela subiu numa árvore. A cachorrada ficou embaixo, latindo. Aí um dos caçadores ponderou que era melhor chamar a Polícia Florestal. Veio o polícia, olhou para a onça encarapitada no galho alto da árvore, e deu o veredito: "Esse lugar é terra da onça. Vocês são invasores. A onça fica. Ninguém mata. Vocês se mudem para outro lugar." Não sei se foi isso mesmo que ele disse, mas foi o que me relataram.

Mas, como quem conta um conto aumenta um ponto, como mineiro acredito desacreditando. O fato é que as estórias rolam. Um outro me disse que não eram duas. Não se dizia a verdade para não assustar as pessoas: seis suçuaranas cinzentas, mais uma onça preta e outra pintada. Mas me contaram do jeito seguro para saber se a onça está na tocaia. Primeiro é o cheiro. Quem quiser saber qual é o cheiro da onça é só visitar o Bosque dos Jequitibás. Depois é o barulhinho. Quando a onça está tocaiando, os entendidos me informaram, ela vai mexendo as orelhas para ouvir melhor. E quando ela mexe as orelhas, as orelhas fazem um barulho característico, um "clique" seco, como se fosse um galho quebrado. Assim, quem for andar por trilhas em Pocinhos, que preste atenção nos "cliques".

E cuidado se algum mineiro convidar para pescar. Pois dizem que aconteceu de verdade. Um mineiro e um paulista estavam pescando, assentados à beira do rio, pitando um cigarrinho de palha, bebendo uma pinguinha, vida que se pediu a Deus - até que se ouviu um miado no mato. "Que miado é esse?" perguntou assustado o paulista. "Acho que é miado de onça....", respondeu o mineiro sem se mexer. Outro miado mais forte. "Parece que a onça está vindo prá cá", disse o paulista. "É, está vindo prá cá", disse calmamente o mineiro. Um outro rugido terrível. O paulista se apavorou. O mineiro calmamente abriu o embornal, tirou lá de dentro um par de tênis que se pôs a calçar. "Você está louco?", disse o paulista. "Acha que vai correr mais depressa que a onça?" "Não, não vou correr mais depressa que a onça. O que eu quero é correr mais depressa que você..."

Brinquedo: Um brinquedo me faz feliz. Passeei pelo mercado de Belo Horizonte - um lugar maravilhoso, fascinante - tanta coisa interessante. Não comprei nada. Comprei só fieiras para os meus piões. Pois essa palavra "fieira", justo agora, confirmou minha hipótese: os dicionários não são dignos de confiança. "Fieira" era a palavra que eu usava quando menino. Imaginei que aqui em S. Paulo poderia ser diferente. Assim, por via das dúvidas - eu sei que há um leitor atento que me escreve cartas corrigindo o meu português - tratei de consultar o Aurélio. E eis o que está escrito, entre outras coisas: " Fieira: (...)cordão torcido com que as crianças fazem rodar o pião".

Se tem linguagem sexista, se tem linguagem machista - deve ter também linguagem adultista. Linguagem adultista é uma linguagem que revela os preconceitos idiotas dos adultos. Nesse caso, um preconceito que faz mal a eles mesmos, tontos. Quer dizer então que só crianças podem rodar pião? Quem foi que disse? Adulto não pode rodar pião?. Uma definição sem preconceito seria: " cordão torcido com que se faz rodar o pião". Porque todo mundo, criança, adulto, velho, bispo, reitor e deputado pode e deve rodar pião como terapia para ficar sempre criança. Porque adultice é doença mortal. Bem rezou a Adélia: "Ó Deus, me cura de ser grande!"

Todo mundo sabe que os brinquedos me fazem feliz. Pois uma amiga de Vitória da Conquista me enviou dentro de uma caixa um brinquedo. Eis o que escreveu a Edméa: "Em janeiro, quando terminei de ler o seu livro "Quando eu era menino", mandei-lhe uma correspondência. Hoje volto a escrever-lhe para falar sobre um presente que estou lhe enviando. Trata-se de um linda carroça, feita por uma criança negra de 85 anos que... demonstra muito talento e meticulosidade no fazer-arte." Aí ela me conta que ao comprar uma carroça para presentear um neto ela se lembrou de uma outra criança... eu! A carroça com o cavalo está sobre a minha mesa. É um brinquedo delicioso. Só de ver eu sorrio. A Edméa conhece a minha alma. Obrigado!

Tenho dó dos adultos que assumiram a máscara de adultos, que se identificaram com isso que a sociedade fixou como normalidade para pessoas de uma certa idade. Há uns dias, lendo um livro de um educador português, dei-me conta de que Picasso nunca fez uma pintura cubista de uma criança. Todas as suas crianças são extraordinariamente belas. E ele mesmo se sentia como criança. "Nasci pintando como Rafael", ele declarou, "e custou-me a vida toda aprender a pintar como uma criança". Mas tenho uma tristeza: jogaram fora a caixa com o endereço da Edméa! E o envelope e a carta que vieram dentro da caixa não têm o endereço. Como é que vou agradecer? Se alguém souber o endereço da Edméa de Vitória da Conquista que me avise!

Vila Costa e Silva e Fazenda Santa Elisa: Dizem alguns que Deus mora em templos. Desacredito. Se Deus quisesse morar em templos, ao invés de criar o universo inteiro só para terminar num jardim, o Paraíso, ele teria terminado sua obra fazendo uma catedral gótica. Deus não gosta de espaços fechados. Diz o poema sagrado que Deus passeava pelo jardim ao vento fresco da tarde. Eu passeio pelo jardim ao vento fresco da manhã. Para mim os lugares mais sagrados são os lugares da natureza.

Aqui em Campinas o lugar que mais amo é a Fazenda Santa Elisa. Faz uns dias encontrei-me com o seu diretor, Dr. Luiz Henrique Carvalho. Contou-me coisas lindas. Que acabaram de plantar 30.000 de árvores de madeira de lei. Que está sendo criado um Jardim Botânico. (No Brasil há 29 Jardins Botânicos). Que está em andamento um programa de educação ambiental, para as escolas. E aí fiquei sabendo de algo que não sabia: há um bairro que tem a felicidade de fazer divisa com a Fazenda Santa Elisa. É a Vila Costa e Silva. Sim, felicidade, morar ao lado das árvores, dos pássaros, do silêncio.

Só uma coisa me assustou e, para isso chamo a atenção dos moradores da Vila Costa e Silva: há pessoas que estão usando a Fazenda como depósito de lixo. Jogam o lixo sobre o muro. Alguns, mais atrevidos, chegaram a fazer um enorme buraco no muro para facilitar o trânsito do lixo. Isso equivale a jogar lixo no Paraíso, na morada de Deus. Por isso peço aos moradores da Vila Costa e Silva que tomem providências porque é possível que Deus se ofenda, perca a paciência e envie uma praga de coceira.... Quem serão as pessoas que fazem tais atos? Católicos? Protestantes? Evangélicos? Espíritas? Umbandistas? Acho que os líderes espirituais deveriam falar sobre o assunto. Eu falaria...