30-07-04 A caixa de brinquedos
08-04-04 A Quaresma e a tristeza divina
02-04-04 Meu caro ladrão (ou ladra) ...
19-03-04 Quarto de Badulaques XLV
12-03-04 Quarto de Badulaques XLIII
05-03-04 Quarto de badulaques XLII
13-02-04 Quarto de Badulaques XLI
06-02-04 "Que seria de nós sem o socorro do que não existe?"
27-01-04 Sob o feitiço dos livros
26-12-03 Quarto de Badulaques XXXIX
08-12-03 Os pássaros e os urubus
27-11-03 Quarto de Badulaques XXXVIII
06-11-03 Quarto de badulaques XXXVI
31-10-03 Quarto de badulaques XXXV
19-09-03 Se eu pudesse viver novamente a minha vida...
12-09-03 Livros que dão alegria
22-08-03 Quarto de badulaques XXX
Quarto de badulaques XXX
- Meus filhos, eu os abençôo: Aos pais eu
faço a sugestão de que nesse dia a eles dedicado leiam a
página de Gibran Khalil Gibran no seu livro O Profeta, com
o título "Os filhos". "Vossos filhos não são vossos filhos.
Eles vêm através de vós mas não são de vós, e apesar de
estarem convosco não vos pertencem. Sois os arcos dos quais
seus filhos, como flechas vivas, são arremessados na direção
do alvo que o arqueiro vê no infinito." Uma vez disparada,
a flecha voa para longe do arco que fica, vazio... A imagem
é linda. Mas não me parece que seja totalmente verdadeira.
E isso porque a flecha, ainda que não atinja o alvo, vai
sempre na direção do alvo que o arqueiro viu. Sugiro, então,
uma alteração: "Vossos filhos são flechas que, uma vez disparadas,
se transformam em pássaros que voam para onde querem e não
na direção do alvo que o arqueiro viu." Ser pai é alegrar-se
com o vôo do pássaro, livre, para longe, numa direção não
sonhada. Se eu tivesse voado na direção do alvo que meu
pai viu eu seria um engenheiro, talvez um médico. Pode até
ser que eu tivesse atingido sucesso profissional e tivesse
me tornado um homem rico. Mas minhas asas me levaram para
um lugar que nunca passou pelos seus sonhos, e nem mesmo
pelos meus... Nunca imaginei que seria escritor. Parece
que as asas sabem mais sobre as direções da alma que nossos
pensamentos. E estou contente. E nesse dia abençôo meus
filhos nos seus vôos.
- Sobre a coragem de mudar: Em tempos passados o normal
era que um jovem escolhesse uma carreira e permanecesse
nela até morrer, ainda que ela não lhe desse felicidade,
tal como acontecia também com os casamentos. Para sempre,
até que a morte os separe. Uma coisa boa dos tempos em que
vivemos, a despeito de todas as suas confusões, é que as
pessoas descobriram que é possível mudar a direção do vôo.
Nada as obriga a voar sempre na mesma direção até o fim.
Eu mudei minhas direções várias vezes e não me arrependo.
Meu amigo Jether era um próspero dentista na cidade do Rio
de Janeiro. Estava ficando rico. Riqueza dá segurança. Segurança
dá tranqüilidade à família. Mas enquanto ele olhava para
o mundo delimitado pelos dentes dos seus clientes, a sua
alma voava por outros mundos! E foi assim que, num belo
dia, ele resolveu voar. Chegou em casa e comunicou à esposa
Lucília: "Meu bem, vou vender o consultório". E assim, com
mais de quarenta anos, voltou para a estaca zero e foi se
preparar para o vestibular... E ele seguiu um caminho feliz!
Está com 82 anos, tem cara de 60, disposição de 40 e leveza
de criança! Cada profissão delimita um mundo: há o mundo
dos advogados, dos dentistas, dos engenheiros, dos professores,
dos médicos, dos músicos, dos artistas, dos palhaços, do
teatro. O jovem estudante do filme Sociedade dos poetas
mortos sonhava em ser artista de teatro. Mas seu pai havia
mirado seu arco para a medicina... Dezoito ou dezenove anos
é muito cedo para definir o que se vai fazer pelo resto
da vida. Esse é um tempo de procuras, indefinições, sonhos
confusos. É normal que, ao meio do curso universitário,
o jovem descubra que tomou o trem errado e se disponha a
saltar na próxima estação. É angústia para os pais. Claro,
porque o que eles mais desejam é ver o filho formado, empregado,
ganhando dinheiro. Isso lhes daria liberdade para viver
e permissão para morrer... Mas não seria terrível para ele
- ou ela - se, só para não "perder tempo", "só para não
voltar ao início", continuasse até o fim? Se não quero ir
para as montanhas, se quero ir para a praia, por que continuar
a dirigir o carro pela estrada que vai para as montanhas?
Pais, não fiquem angustiados. Sua angústia é inútil. E nem
fiquem com a ilusão de que o diploma dará emprego ao filho.
Não dará. Assim é melhor ir devagar seguindo a direção que
o coração manda. O difícil, para os pais, será se o filho,
no último ano de direito, lhes comunique: "Descobri que
não gosto de Direito. Vou estudar para ser palhaço!" Aí
posso imaginar o embaraço do pai e da mãe quando, em meio
a uma reunião social, quando se fala sobre os filhos, alguém
lhes dirija a palavra e diga: "Meu filho está no Itamarati.
Vai ser diplomata. E o seu?" Resposta: "O nosso está no
circo. Vai ser palhaço..." Cá entre nós: não sei qual profissão
dá mais felicidade, se a de diplomata ou se a de palhaço...
- "A quem muito se lhe deu muito lhe se pedirá": Como vocês
já sabem, Albert Schweitzer é uma das pessoas que mais admiro.
Teólogo, filósofo, prêmio Goethe de literatura, concertista
de órgão, especialista em Bach, sobre quem escreveu uma
obra clássica, prêmio Nobel da Paz, aos 30 anos abandonou
tudo. Mudou a direção do seu vôo. Profundamente místico,
com grande compaixão pelos que sofriam, resolveu estudar
medicina e passar o resto de sua vida num lugarejo miserável,
no coração da África. Ele levava a sério as palavras de
Jesus. "A quem muito se lhe deu, muito se lhe pedirá". E
ele pensava: "Muito, muitíssimo me foi dado; muito, muitíssimo
eu tenho que dar". E deu a sua vida inteira. Jamais passaria
pela sua cabeça imaginar que ele, em virtude do muito que
havia recebido, deveria gozar de privilégios especiais.
Lembrei-me dele ao ler sobre aqueles que, havendo recebido
muito, argumentam que, por haverem recebido muito têm o
direito de receber mais ainda. O Brasil é o país onde o
que vale é o contrário do que diz Jesus, e isso a despeito
dos crucifixos e benzeções: Vale um outro evangelho: "A
quem muito se lhe deu, muito mais se lhe dará." Se não é
de Jesus, de quem será? Não me atrevo a sugerir. É assim
que aqueles que foram encarregados democraticamente de proteger
os fracos fazem leis em benefício próprio, leis que acrescentam
só a eles privilégios dos quais o povo comum está excluído.
Isso não é coisa nova. Os profetas já denunciavam os pastores
que engordavam com a carne das ovelhas que deveriam proteger.
Acho sim, que se há um grupo que é merecedor de leis especiais
que lhe garantam privilégios, esse grupo são as crianças.
As crianças abandonadas são uma ferida horrível numa sociedade
de classes privilegiadas e arrogantes que vivem em palácios...
Como é bem sabido, "quem semeia ventos colhe tempestades..."
- Coração de criança + inteligência de ex-presidiário =
beleza e alegria. A manchete de primeira página dizia: "Carro-bomba
em hotel mata 14 na capital da Indonésia". Horror, a presença
da Morte. Mas a última página contava do milagre da vida.
Ri de alegria. Aconteceu assim: o Diego, menino de 6 anos
perguntou ao seu pai Ideval Ribeiro dos Santos, o Boró,
se era possível "transformar uma favela feia em coisa bonita."
A pergunta do menino pôs a cabeça do pai a funcionar, o
coração move a inteligência. O Boró, ex-presidiário, começou
a trabalhar para realizar o sonho do filho que passou a
ser o seu próprio sonho. E hoje está lá, um depósito de
lixo transformado num espaço comunitário bonito pelo trabalho
de crianças, adolescentes e voluntários. As professoras
se queixam da falta de disciplina dos alunos. Isso acontece
quando eles são obrigados a fazer o que não está no seu
coração. Mas o Boró sabe que as crianças e os adolescentes
trabalham duro para realizar os seus sonhos. O Correio Popular
está publicando, às 4as. feiras, reportagens sobre projetos
semelhantes. O mundo está cheio de pessoas simples que lutam
por ideais altos.
- O poente e a orquídea: O sol estava se pondo. O pôr-de-sol
a fez lembrar-se do seu pai. Ela começou a falar. Ele estava
muito enfermo, mortalmente enfermo e sabia disso. Ela abandonou
o seu trabalho para estar com ele. E conversavam sobre a
partida que se aproximava. Tranqüilamente. Aqueles que aceitam
a chegada da morte ficam tranquilos. Disse-me que a hora
que seu pai mais amava era o crepúsculo. Desde menina ele
se assentava com ela e ia mostrando a beleza das nuvens
incendiadas, a progressiva e rápida sucessão das cores,
azul, verde, amarelo, abóbora, vermelho, roxo... À medida
em que a morte se aproximava a fraqueza aumentava. Mas,
mesmo fraco, queria ver o pôr-de-sol. Talvez pela irmandade
de um homem que morre e um sol que se põe. Numa dessas tardes
ela não conseguiu conter as lágrimas. Chorou. Ele a abraçou
e colocou seu dedo sobre os seus lábios. "Não quero que
você chore..." E apontando para o sol que se punha disse:
"Eu estarei lá..." E contou-me também de uma orquídea que
silenciosamente acompanhou esses momentos de despedida.
A orquídea, depois que seu pai partiu para o pôr-de-sol,
se recusou a parar de florir... Será que as pessoas queridas
que partem continuam a morar no perfume das flores? É possível...
Sei que não reproduzi com fidelidade o que ela me disse.
Seu relato foi imensamente mais rico, cheio de detalhes,
de saudade, de tristeza e de beleza. Por isso eu lhe peço
perdão. Mas senti que os meses que passou com seu pai lhe
deram uma profundidade e beleza que não tinha antes. A morte
cria uma intimidade que é impossível em outras situações.
- Os gatos: Gosto de ler o "Correio do Leitor". É ali que
se revela o coração do povo. Fiquei comovido com a solidariedade
aos gatos do Bosque. Não me lembro de assunto algum que
tenha provocado tantas cartas. Não sou apreciador de gatos
porque gosto mais dos pássaros e os gatos comem pássaros.
Mas não aprovo esse gatocídio generalizado. Antigamente
Campinas era a cidade das andorinhas. Quem sabe, agora,
poderá ser conhecida como a cidade que ama gatos. Só fiquei
triste por me dar conta de que nunca a população foi comovida
de forma semelhante pela condição das crianças abandonadas
que perambulam pelas ruas.