30-07-04 A caixa de brinquedos
08-04-04 A Quaresma e a tristeza divina
02-04-04 Meu caro ladrão (ou ladra) ...
19-03-04 Quarto de Badulaques XLV
12-03-04 Quarto de Badulaques XLIII
05-03-04 Quarto de badulaques XLII
13-02-04 Quarto de Badulaques XLI
06-02-04 "Que seria de nós sem o socorro do que não existe?"
27-01-04 Sob o feitiço dos livros
26-12-03 Quarto de Badulaques XXXIX
08-12-03 Os pássaros e os urubus
27-11-03 Quarto de Badulaques XXXVIII
06-11-03 Quarto de badulaques XXXVI
31-10-03 Quarto de badulaques XXXV
19-09-03 Se eu pudesse viver novamente a minha vida...
12-09-03 Livros que dão alegria
22-08-03 Quarto de badulaques XXX
Quarto de Badulaques XXXIX
Delicadeza: Eu estava nos Estados Unidos com a família, como Professor Visitante do Union Theological Seminary, New York. Era novembro. Um telefonema do Brasil nos deu a triste notícia: meu sogro havia morrido num acidente automobilístico. A notícia correu, mas estávamos mergulhados na dor e na solidão, no pequeno apartamento onde vivíamos. Nada podíamos fazer. Aí, por alguma razão, abrimos a porta de entrada. No chão se encontrava um buquê de flores. Devia ter estado lá por bastante tempo. A pessoa que o trouxera não apertara o botão da campainha. Simplesmente deixara o buquê ali, silenciosamente e se fora. O envelope tinha o nome da minha esposa. No cartão havia uma única frase, curtíssima: " Não quis perturbar a sua dor." Já faz 32 anos. Mas não me esqueci e não me esquecerei dessa frase. Mas delicada e sensível é impossível.
E pediram ao profeta: Fale-nos sobre a Morte. E ele disse: "A coruja, cujos olhos noturnos são cegos durante o dia, não pode revelar o mistério da luz. Se quereis realmente contemplar o espírito da morte, abri bem o vosso coração para a vida. Pois a vida e a morte são um, assim como o rio e o mar são um. Nas profundezas das vossas esperanças e desejos está vosso conhecimento silencioso do além. E como sementes sonhando embaixo da neve, vosso coração sonha com a primavera. Confiai em vossos sonhos, pois neles estão escondidas as portas para a eternidade. Pois o que é o morrer além de estar nu ao vento e derreter-se ao sol? E o que é cessar de respirar, senão livrar a respiração de suas incansáveis marés, que se elevam e expandem e buscam a Deus sem obstáculos? Só cantareis de verdade quando beberdes do rio do silêncio. E quando chegardes ao topo da montanha, só então começareis a subir. E quando a terra pedir os vossos membros, só então dançareis." ( Khalil Gibran, O Profeta ).
Oração pelos que vão morrer: "Ó tu, Senhor da eternidade, nós que estamos condenados a morrer elevamos nossas almas a ti à procura de forças, porque a Morte passou por nós na multidão dos homens e nos tocou, e sabemos que em alguma curva do nosso caminho ela estará nos esperando para nos pegar pela mão e nos levar... não sabemos para onde. Nós te louvamos porque para nós ela não é mais uma inimiga, e sim um grande anjo teu, o único a poder abrir, para alguns de nós, a prisão de dor e do sofrimento e nos levar para os espaços imensos de uma nova vida. Mas nós somos como crianças, com medo do escuro e do desconhecido, e tememos deixar esta vida que é tão boa, e os nossos amados, que nos são tão queridos. Dá-nos um coração valente para que possamos caminhar por essa estrada com a cabeça levantada e um sorriso no rosto. Que possamos trabalhar alegremente até o fim, e amar os nossos queridos com ternura ainda maior, porque os dias do amor são curtos. Sobre ti lançamos a carga mais pesada que paralisa nossa alma: o medo que temos de deixar aqueles que amamos, os quais teremos de deixar desabrigados num mundo egoista. Nós te agradecemos porque experimentamos o gosto bom da vida. Somos-te gratos por cada hora de nossas vidas, por tudo o que nos coube das alegrias e lutas dos nossos irmãos, pela sabedoria que ganhamos e será sempre nossa. Se nos sentirmos abatidos com a solidão, sustenta-nos com a tua companhia. Quando todas as vozes do amor ficarem distantes e se forem, teus braços eternos ainda estarão conosco. Tu és o Pai dos nossos espíritos. De ti viemos e para ti iremos. Regosijamo-nos porque, nas horas das nossas visões mais puras, quando o pulsar da tua eternidade é sentido forte dentro de nós, sabemos que nenhuma agonia da mortalidade poderá atingir nossa alma inconquistável e, para aqueles que em ti habitam, a morte é apenas a passagem para a vida eterna. Nas tuas mãos entregamos o nosso espírito"" ( Walter Rauschenbusch, Orações por um mundo melhor, PAULUS )
O que falar diante da Morte? As Sagradas Escrituras sugerem que o silêncio é a palavra mais significativa que se pode falar diante da morte. Porque no silêncio não dizemos nada. O silêncio é como uma taça vazia que, por ser vazia, permite que a pessoa que está sofrendo recolha nela todas as suas lágrimas, que nós não conhecemos.
· Tristeza e comunhão: Os que bebem juntos da mesma fonte de tristeza descobrem, surpresos, que a tristeza partilhada se transmuta em comunhão.
· Quem leu O Pequeno Príncipe entenderá: "Naquela noite não o vi partir. Saiu sem fazer barulho. Quando consegui alcançá-lo ele caminhava decidido, num passo rápido. Disse-me apenas: 'Ah! aí estás...' E segurou a minha mão. Mas preocupou-se de novo: 'Fizeste mal. Tu sofrerás. Eu parecerei estar morto e isso não será verdade...' Eu me calara. 'Tu compreendes. É muito longe. Eu não posso carregar este corpo. É muito pesado.' E continuava calado. 'Mas será como uma velha concha abandonada. Não tem nada de triste numa velha concha... Será lindo, sabes? Eu também olharei as estrelas. Todas as estrelas serão como poços com um roldana enferrujada. Todas as estrelas me darão de beber...As pessoas vêem as estrelas de maneira diferente. Para aqueles que viajam as estrelas são guias. Para outros, elas não passam de pequenas luzes. Para os sábios, elas são problemas... Mas todas essas estrelas se calam. Tu, porém, terás estrelas como ninguém nunca as teve... Quando olhares o céu de noite, eu estarei habitando uma delas, e de lá estarei rindo ; então será, para ti, como se todas as estrelas rissem! Dessa forma, tu, somente tu, terás estrelas que sabem rir!"
· Médicos de antigamente: O quadro que ilustra essa crônica tem o nome de "O Médico" e o artista foi Sir Samuel Luke Fildes (1844-1927). Encontra-se na Tate Gallery, em Londres. Assim eram os médicos de antigamente. Eles visitavam os seus pacientes e se, por acaso, morriam, sua presença amiga era certa no sepultamento. Porque o médico era, a um tempo, um cientista, um xamã e um amigo. Mas os tempos são outros. Quem tem tempo para ficar contemplando, inutilmente, uma menina enferma ou um ancião moribundo? Felizmente ainda há médicos que poderiam estar dentro da cena do quadro.
· Quebra-cabeças: Pensei que a vida se parece com um quebra-cabeças. Quebra-cabeças: milhares de peças espalhadas sobre a mesa, uma bagunça enorme, que não faz sentido. Mas as caixas dos quebra-cabeças que se compram nas lojas dizem que a bagunça pode se transformar em beleza: elas trazem impresso o modelo, que pode ser um lago, um castelo, um menina lendo um livro, um jardim, um anjo tocando bandolim... Gastamos então horas e horas ( eu já gastei meses...) pacientemente trabalhando para transformar o caos em sentido. Pois eu pensei que a vida é um quebra-cabeças com milhares, milhões de peças. Mas acontece que o quebra-cabeças da vida não vem acompanhado de um modelo. Não sabemos o seu sentido. Não sabemos como é a sua beleza. O modelo precisa ser inventado. E é somente o coração, ajudado pela inteligência, que pode fazer isto. Os dois se põem, então, a trabalhar. Observam as peças, conferem as cores, examinam as formas e, repentinamente, aparece um modelo, produzido pela magia da imaginação. O modelo não foi visto, porque ele não está em lugar algum. Ele é um sonho! Mas, se é que não sabem, que aprendam: a vida é feita com sonhos! Se o sonho nos parecer belo, começaremos a organizar as peças fragmentárias da nossa vida para que o sonho se torne realidade porque desejamos que a vida seja bela. Certezas não há. Mas se o sonho nos seduzir por sua beleza, teremos coragem para apostar nele a nossa vida inteira. Apostar a nossa vida num sonho, sem certeza alguma, é isso que se chama fé. A essa beleza invisível, sonhada que nos seduz e chama, eu dou o nome de Deus... Como disse Fernando Pessoa: " Deus quer. O homem sonha. A obra nasce."
· Folhas de outono: Achei bonito o que fez uma conhecida, nos Estados Unidos. Mandou fazer, para o seu marido morto, a urna mortuária mais simples e rústica, de pinho. E a mandou cobrir com um lençol branco onde fez costurar centenas de folhas de outono, aquelas folhas vermelhas e amarelas...
· Dietrich Bonhoeffer foi um teólogo protestante enforcado por ordens diretas de Hitler. Seus escritos teológicos mais comoventes e perturbadores foram aqueles que escreveu do campo de concentração, sob a forma de cartas. Numa de suas cartas ele conta que o prisioneiro que antes dele ocupara a sua cela (que ele não chegou a conhecer) escrevera na parede: " Daqui a cem anos tudo isso terá passado." Bonhoeffer sugeriu uma estranha idéia, a de que Deus é fraco...Foi a maneira que ele encontrou de continuar a amar a Deus. Pois se Deus é forte como diz a teologia ortodoxa, e permite que milhões de pessoas inocentes sejam mortas em câmaras de gás e nos campos de batalha, como perdoá-lo? Mas se Deus é fraco, então poderemos dizer: "Que pena! Se fosses forte isso não teria acontecido..." Aí torna-se possível não só continuar a amar a Deus como também emprestar-lhe o pouco poder de que dispomos. O apóstolo Paulo, na epístola aos Romanos, diz que o universo é como uma mulher grávida, em dores de parto. Não será possível imaginar que Deus ainda não nasceu, que ele ( ou ela ) está nascendo?