30-07-04 A caixa de brinquedos
08-04-04 A Quaresma e a tristeza divina
02-04-04 Meu caro ladrão (ou ladra) ...
19-03-04 Quarto de Badulaques XLV
12-03-04 Quarto de Badulaques XLIII
05-03-04 Quarto de badulaques XLII
13-02-04 Quarto de Badulaques XLI
06-02-04 "Que seria de nós sem o socorro do que não existe?"
27-01-04 Sob o feitiço dos livros
26-12-03 Quarto de Badulaques XXXIX
08-12-03 Os pássaros e os urubus
27-11-03 Quarto de Badulaques XXXVIII
06-11-03 Quarto de badulaques XXXVI
31-10-03 Quarto de badulaques XXXV
19-09-03 Se eu pudesse viver novamente a minha vida...
12-09-03 Livros que dão alegria
22-08-03 Quarto de badulaques XXX
Sob o feitiço dos livros
Nietzsche estava certo: "De manhã cedo,
quando o dia nasce, quando tudo está nascendo - ler um
livro é simplesmente algo depravado". É o que sinto ao
andar pelas manhãs pelos maravilhosos caminhos da fazenda
Santa Elisa, do Instituto Agronômico de Campinas. Procuro
esquecer-me de tudo que li nos livros. É preciso que a
cabeça esteja vazia de pensamentos para que os olhos possam
ver. Aprendi isso lendo Alberto Caeiro, especialista inigualável
na difícil arte de ver. Dizia ele que "pensar é estar
doente dos olhos".
Mas meus esforços são frustrados. As coisas que vejo são
como o beijo do príncipe: elas vão acordando os poemas
que aprendi de cor e que agora estão adormecidos na minha
memória. Assim, ao não pensar da visão, une-se o não-pensar
da poesia. E penso que o meu mundo seria muito pobre se
em mim não estivessem os livros que li e amei. Pois, se
não sabem, somente as coisas amadas são guardadas na memória
poética, lugar da beleza.
"Aquilo que a memória amou fica eterno", tal como o disse
a Adélia Prado, amiga querida. Os livros que amo não me
deixam. Caminham comigo. Há os livros que moram na cabeça
e vão se desgastando com o tempo. Esses, eu deixo em casa.
Mas há os livros que moram no corpo. Esses são eternamente
jovens. Como no amor, uma vez não chega. De novo, de novo,
de novo...
Um amigo me telefonou. Tinha uma casa em Cabo Frio. Convidou-me.
Gostei. Mas meu sorriso entortou quando disse: "Vão também
cinco adolescentes...". Adolescentes podem ser uma alegria.
Mas podem ser também uma perturbação para o espírito.
Assim, resolvi tomar minhas providências. Comprei uma
arma de amansar adolescentes. Um livro. Uma versão condensada
da "Odisséia", de Homero, as fantásticas viagens de Ulisses
de volta à casa, por mares traiçoeiros...
Primeiro dia: praia; almoço; sono. Lá pelas cinco, os
dorminhocos acordaram, sem ter o que fazer. E antes que
tivessem idéias próprias eu tomei a iniciativa. Com voz
autoritária, dirigi-me a eles, ainda sob o efeito do torpor:
"Ei, vocês... Venham cá na sala. Quero lhes mostrar uma
coisa". Não consultei as bases. Teria sido terrível. Uma
decisão democrática das bases optaria por ligar a televisão.
Claro. Como poderiam decidir por uma coisa que ignoravam?
Peguei o livro e comecei a leitura. Ao espanto inicial
seguiu-se silêncio e atenção. Vi, pelos seus olhos, que
já estavam sob o domínio do encantamento. Daí para frente
foi uma coisa só. Não me deixavam. Por onde quer que eu
fosse, lá vinham eles com a "Odisséia" na mão, pedindo
que eu lesse mais. Nem na praia me deram descanso.
Essa experiência me fez pensar que deve haver algo errado
na afirmação que sempre se repete de que os adolescentes
não gostam da leitura. Sei que, como regra, não gostam
de ler. O que não é a mesma coisa que não gostar da leitura.
Lembro-me da escola primária que frequentei. Havia uma
aula de leitura. Era a aula que mais amávamos. A professora
lia para que nós ouvíssemos. Leu todo o Monteiro Lobato.
E leu aqueles livros que se liam naqueles tempos: "Heidi",
"Poliana", "A Ilha do Tesouro".
Quando a aula terminava, era a tristeza. Mas o bom mesmo
é que não havia provas ou avaliações. Era prazer puro.
E estava certo. Porque esse é o objetivo da literatura:
prazer. O que os exames vestibulares tentam fazer é transformar
a literatura em informações que podem ser armazenadas
na cabeça. Mas o lugar da literatura não é a cabeça: é
o coração. A literatura é feita com as palavras que desejam
morar no corpo. Somente assim ela provoca as transformações
alquímicas que deseja realizar. Se não concordam, que
leiam João Guimarães Rosa, que dizia que literatura é
feitiçaria que se faz com o sangue do coração humano.
Quando minha filha estava sendo introduzida na literatura,
o professor lhe deu como dever de casa ler e fichar um
livro chatíssimo. Sofrimento dos adolescentes, sofrimento
para os pais. A pura visão do livro provocava uma preguiça
imensa, aquela preguiça que Roland Barthes declarou ser
essencial à experiência escolar.
Escrevi uma carta delicada ao professor, lembrando-lhe
que Jorge Luis Borges havia declarado que não havia razão
para ler um livro que não dá prazer quando há milhares
de livros que dão prazer. Sugeri-lhe começar por algo
mais próximo da condição emotiva dos jovens. Ele me respondeu
com o discurso de esquerda, que sempre teve medo do prazer:
"O meu objetivo é produzir a consciência crítica...".
Quando eu li isso, percebi que não havia esperança. O
professor não sabia o essencial. Não sabia que literatura
não é para produzir consciência crítica. O escritor não
escreve com intenções didático-pedagógicas. Ele escreve
para produzir prazer. Para fazer amor. Escrever e ler
são formas de fazer amor. É por isso que os amores pobres
em literatura ou são de vida curta, ou são de vida longa
e tediosa... Parodiando as palavras de Jesus, "nem só
de beijos e transas viverá o amor, mas de toda palavra
que sai das mãos dos escritores...".