30-07-04 A caixa de brinquedos
08-04-04 A Quaresma e a tristeza divina
02-04-04 Meu caro ladrão (ou ladra) ...
19-03-04 Quarto de Badulaques XLV
12-03-04 Quarto de Badulaques XLIII
05-03-04 Quarto de badulaques XLII
13-02-04 Quarto de Badulaques XLI
06-02-04 "Que seria de nós sem o socorro do que não existe?"
27-01-04 Sob o feitiço dos livros
26-12-03 Quarto de Badulaques XXXIX
08-12-03 Os pássaros e os urubus
27-11-03 Quarto de Badulaques XXXVIII
06-11-03 Quarto de badulaques XXXVI
31-10-03 Quarto de badulaques XXXV
19-09-03 Se eu pudesse viver novamente a minha vida...
12-09-03 Livros que dão alegria
22-08-03 Quarto de badulaques XXX
Quarto de Badulaques XXXVIII
Sociedades se constroem quando os homens
concordam sobre coisas grandes. A amizade acontece quando
os homens concordam sobre coisas pequenas. Faz tempo escrevi
um artigo longo sobre um tema que esqueci. O dito artigo
provocou, num dos meus leitores do sul de Minas, um carta.
Escreveu-me não para comentar o artigo - irrelevante - mas
para dizer que ficara comovido porque, num certo lugar,
eu falara sobre "o cheiro bom do capim gordura".
A partir dessa imagem a um tempo visual e nasal - pois havia
a visão do campo de capim gordura e o cheiro do capim gordura
- ele se pôs a descrever sua experiência diária: passava,
de manhãzinha, sol ainda não nascido, por um campo coberto
de capim gordura. " O silêncio verde dos campos..." E havia
a névoa misteriosa que tudo envolvia. De vez em quando,
o barulhinho de algum regato que corria invisível, coberto
pela vegetação.. E, saindo dele, como se fosse sua respiração,
seu mais profundo segredo, o perfume. Mistério.
Mistério, essa palavra misteriosa. Em inglês a palavra mistério
se escreve "mystery". Pois um dia, por inspiração imediata,
passei a escrevê-la de uma forma diferente: misteerie. "Mist"
é neblina. "eerie" quer dizer assombroso, que provoca medo.
Acho que minha grafia, inspirada na poesia, é melhor que
a grafia do dicionário, derivada da etimologia. Essa é a
minha contribuição para a língua inglesa. É isso que se
sente de manhãzinha, sozinho, ao caminhar pelos campos de
capim gordura. Não há igreja, templo ou santuário que se
lhe compare. Essas caixas de tijolo e cimento que os empresários
da religião constroem para engaiolar o sagrado, na maior
parte das vezes provocam-me o sentimento oposto, de horror
estético. Deus deve ter muito mau gosto...
Pois é: quando li aquela carta imediatamente me descobri
amigo daquele homem distante. Se não me equivoco o seu nome
era Gerson, e vive em Poços de Caldas. Sempre que vejo capim
gordura me lembro dele. De todo o palavrório que escrevi
naquele artigo, o que sobrou, o que valeu, foi uma imagem
imobilizada num momento eterno: o capim gordura, com o seu
cheiro bom... (Desgraça: os criadores de gado, para terem
mais lucro, acabaram com o capim gordura e o substituíram
por uma praga africana chamada braquiária, que é um câncer
nos pastos que nem a quimioterapia mais violenta pode com
ele... ).
Como aconteceu com o Pequeno Príncipe e a raposa. O Pequeno
Príncipe, contra vontade, cativara a raposa, a pedido dela.
Mas chegou a hora da despedida e a raposa disse: "Vou chorar".
O Pequeno Príncipe retrucou: " Não é culpa minha. Eu não
queria te cativar. Agora você vai chorar. Qual foi a vantagem?"
Respondeu a raposa: "A vantagem? Os campos de trigo. Eu
sou uma raposa. Como galinhas. O trigo me é indiferente.
Mas você me cativou. Seu cabelo é louro. Os campos de trigo
são dourados. Porque você me cativou sempre que o vento
balançar as espigas douradas de trigo eu me lembrarei de
você. E sorrirei..."
É isso que é um sacramento: uma imagem carregada de emoções.
O sacramentos são símbolos que têm o poder de invocar ausências.
Poesia é isso: imagens carregadas de emoções... Quem não
tem poesia é pobre nas emoções. E, necessariamente, pobre
no amor. Escrevi uma crônica em elogio à calvície. Eu nunca
imaginei que uma calva fosse um objeto poético. Nunca li
poema algum sobre a calvície... Só se fosse um poema cômico,
de fazer rir. Foi isso que aconteceu com a coleguinha da
minha neta que caiu na risada ao ver-me careca, numa foto?.
Pois o Artur da Távola me enviou um e-mail... Já escrevi
sobre ele várias vezes. Ele apresenta o programa "Quem tem
medo de música clássica?" na TV Senado e não se cansa de
repetir: "Música é vida interior. E quem tem vida interior
nunca está sozinho." Emociona-me seu amor pelas crianças.
Está sempre pedindo aos pais que chamem os seus filhos para
ver e ouvir música clássica. Uma amiga, separada, segredou
a outra amiga que nunca mais se casaria, a não ser que fosse
com o Artur da Távola...
Ele me enviou um e-mail a propósito da minha crônica e fez
uma confissão que me comoveu. Achei tão humana a sua confissão
que lhe pedi licença para transcrevê-la. "Quando eu era
criança, anos 40, não estava em moda usar barba. Meu pai,
exceção, mantinha uma, a nazareno, como se chamava então.
Tímido que sempre fui, morria de encabulamento. Uma tarde
ele é que foi buscar-me no colégio. A garotada riu daquele
homem de barba e eu, assustado, disse que era meu avô. Minha
mãe, à noite achou a desculpa criativa. Mas meu pai ficou
triste por rirem dele e por me haver causado o envergonhar-me.
Até hoje essa mentirinha me persegue. Ele morreu quando
eu tinha onze anos e nunca pude excusar-me com ele. Aceite
o abraço de outro vasto careca e parabéns pela defesa."
Parece que isso é algo universal. As crianças têm medo que
os outros riam dos seus pais e, consequentemente, riam deles.
Todas as crianças querem ter pais bonitos e admirados. Lembro-me
de que quando vivi nos Estados Unidos o diretor da "Cathedral
School", onde meus filhos pequenos estudavam, convidou-me
a falar para as crianças. Aceitei. Anunciou-se minha ida.
Aí notei que o Sérgio e o Marcos começaram a ter um comportamento
incomum, cheios de conversinhas pelos cantos. Até que eu
os encantoei e pedi explicações. Aí eles me disseram, meio
encabulados: "Please, Daddy, don't say anything which will
embarrass us..." que, traduzido livremente em linguagem
de hoje seria, "Papai, não nos faça pagar mico..."
Quem suspeitaria que o cheiro bom do capim gordura pudesse
ser um sacramento de amizade? Quem suspeitaria que uma careca
poderia ser um tema poético, início de uma amizade? Gostava
do Artur da Távola pela música. Gostava pelo amor às crianças.
Agora gosto mais, porque a careca nos faz entrar em devaneios.
Como disse, a amizade cresce a partir de coisas pequenas.
Quem suspeitaria que das carecas pudesse surgir a amizade?
Garanto, Artur, que o seu pai ficou feliz por sua revelação
afetuosa. Não precisa mais sentir-se perseguido pela mentirinha...
Estamos lendo e discutindo, nas sessões de poesia às 3as.
feiras, o livro Livro sem fim, que escrevi. Chama-se livro
sem fim porque não consegui terminá-lo. Fiquei cansado no
meio do caminho. Parei e disse aos meus leitores: "Lamento
muito mas fico por aqui. Não vou subir até o alto do pico.
Deixei lá na planície um jardim que precisa dos meus cuidados.
Mas vou lhes indicar as trilhas que eu havia planejado seguir.
Dou-lhes a rota que iria seguir. Sigam por conta própria,
se o desejarem."
E publiquei um livro que não terminei, sem fim. Não me apoquento
porque Schubert não conseguiu terminar uma de suas sinfonias
e Bach não chegou ao fim da "Arte de Fuga". Pois é, estamos
começando a escalada e estávamos numa parte que fala de
aforismos. Nietzsche tinha paixão por eles:" Quem quer que
escreva com sangue e aforismos não deseja ser lido mas ser
sabido de cor. Nas montanhas o caminho mais curto é de pico
a pico: mas, para isso, é preciso ter pernas longas. Aforismos
deveriam ser picos - e aqueles a quem são dirigidos também
deveriam ser altos e elevados.
O ar é puro, o perigo está próximo e o espírito está cheio
de um sarcasmo jovial: esses dois vão bem, juntos..." Aforismos
são relâmpagos: caem do céu com um estampido e racham pedras.
Suas origens são irrelevantes. Dispensam razões. Se riem
dos que tentam explicá-los. Valem por eles mesmos, como
se fosse estrelas. "Um bom aforismo não é consumido pelos
milênios, muito embora ele seja alimento a cada momento:
esse é o grande paradoxo da literatura, o permanente no
meio das mudanças, a comida que permanece sempre gostosa,
como sal, ela não perde o sabor... "
Aí, para ilustrar, pus-me a ler alguns das centenas de aforismos
que Oscar Wilde escreveu. Esse, em especial, de aparência
inocente, produziu uma infinidade de faíscas. "É triste
mas é verdade: perdemos a capacidade de dar nomes suaves
às coisas. Os nomes são tudo. Eu nunca me queixo das coisas.
Queixo-me das palavras. É por este motivo que odeio o vulgar
naturalismo na literatura. O homem que chama a enxada de
enxada deveria ser forçado a usá-la. É a única coisa que
ele sabe fazer."
Lido o aforismo há um momento de silêncio. É preciso pensar,
observar o que o aforismo faz conosco, que associações ele
provoca. Aí o pensamento da Lenir deu um pulo. Lembrou-se
de algo que o Guido lhe dissera, rindo: "O fim de uma possível
noite de amor acontece quando a mulher diz ao namorado:
Dá licença, benzinho, preciso mijar..." Ah! Palavra terrível
essa! Destruidora de romances! Tudo teria sido diferente
se ela tivesse dito: "Benzinho, licença, preciso fazer um
xixizinho..." Xixizinho, que bonitinho, poético, as menininhas
fazem xixizinho, a fantasia da mulher amada fazendo xixizinho,
tão íntimo, tão excitante..."
Mas alto lá! O dicionário diz que fazer xixi, mijar e urinar
são sinônimos. Se são sinônimos referem-se à mesma coisa.
São nada. As coisas são os nomes que pomos nelas. Por isso
que Oscar Wilde disse que não se queixava das coisas. Queixava-se
dos nomes. É preciso dar nomes suaves às coisas para que
elas, as coisas, fiquem suaves. Urinar não é um nome suave
para a dita coisa. Urinar era aquilo que se fazia no penico,
com todos os seus ruidos metálico-espumantes.
Lembro-me, em Minas, eu tinha uns 7 anos. Estavam hospedados
em nossa casa o Sigismundo e a Leonina. Haviam vindo da
roça para consultas médicas. Fazia parte das gentilezas
da hospitalidade que os hóspedes fossem providos de penicos.
Pois estou vendo a cena: a Leonina, saindo do quarto pela
manhã portando, um penico cheio do líquido amarelo, e explicando
a todos: " O Sigismundo urinou muito de noite..." Urinar
é também aquilo que se faz no laboratório de análises. "Despreze
o primeiro jato da urina", diz a enfermeira.
A palavra mijar, por sua vez, é moradora dos mictórios ou,
como dizem os portugueses, dos urinois. Xixi, como a palavra
está onomatopaicamente indicando, é parente dos sons musicais
dos violinos. Quem faz xixi está tocando violino. Aprendam
então a usar a palavra certa. Sinônimos não dão certo. Muitas
promissoras relações amorosas acabam por causa de um nome
aparentemente inocente. Cuidado com os nomes!
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