Cidade Escola Aprendiz 27 de novembro de 2003

30-07-04   A caixa de brinquedos

09-06-04   Carta a um amigo

08-04-04   A Quaresma e a tristeza divina

02-04-04   Meu caro ladrão (ou ladra) ...

19-03-04   Quarto de Badulaques XLV

12-03-04   Quarto de Badulaques XLIII

05-03-04   Quarto de badulaques XLII

13-02-04   Quarto de Badulaques XLI

06-02-04   "Que seria de nós sem o socorro do que não existe?"

27-01-04   Sob o feitiço dos livros

26-12-03   Quarto de Badulaques XXXIX

08-12-03   Os pássaros e os urubus

01-12-03   Receita para milagre

27-11-03   Quarto de Badulaques XXXVIII

06-11-03   Quarto de badulaques XXXVI

31-10-03   Quarto de badulaques XXXV

19-09-03   Se eu pudesse viver novamente a minha vida...

12-09-03   Livros que dão alegria

29-08-03   Uma criança chora...

22-08-03   Quarto de badulaques XXX

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Quarto de Badulaques XXXVIII

Sociedades se constroem quando os homens concordam sobre coisas grandes. A amizade acontece quando os homens concordam sobre coisas pequenas. Faz tempo escrevi um artigo longo sobre um tema que esqueci. O dito artigo provocou, num dos meus leitores do sul de Minas, um carta. Escreveu-me não para comentar o artigo - irrelevante - mas para dizer que ficara comovido porque, num certo lugar, eu falara sobre "o cheiro bom do capim gordura".

A partir dessa imagem a um tempo visual e nasal - pois havia a visão do campo de capim gordura e o cheiro do capim gordura - ele se pôs a descrever sua experiência diária: passava, de manhãzinha, sol ainda não nascido, por um campo coberto de capim gordura. " O silêncio verde dos campos..." E havia a névoa misteriosa que tudo envolvia. De vez em quando, o barulhinho de algum regato que corria invisível, coberto pela vegetação.. E, saindo dele, como se fosse sua respiração, seu mais profundo segredo, o perfume. Mistério.

Mistério, essa palavra misteriosa. Em inglês a palavra mistério se escreve "mystery". Pois um dia, por inspiração imediata, passei a escrevê-la de uma forma diferente: misteerie. "Mist" é neblina. "eerie" quer dizer assombroso, que provoca medo. Acho que minha grafia, inspirada na poesia, é melhor que a grafia do dicionário, derivada da etimologia. Essa é a minha contribuição para a língua inglesa. É isso que se sente de manhãzinha, sozinho, ao caminhar pelos campos de capim gordura. Não há igreja, templo ou santuário que se lhe compare. Essas caixas de tijolo e cimento que os empresários da religião constroem para engaiolar o sagrado, na maior parte das vezes provocam-me o sentimento oposto, de horror estético. Deus deve ter muito mau gosto...

Pois é: quando li aquela carta imediatamente me descobri amigo daquele homem distante. Se não me equivoco o seu nome era Gerson, e vive em Poços de Caldas. Sempre que vejo capim gordura me lembro dele. De todo o palavrório que escrevi naquele artigo, o que sobrou, o que valeu, foi uma imagem imobilizada num momento eterno: o capim gordura, com o seu cheiro bom... (Desgraça: os criadores de gado, para terem mais lucro, acabaram com o capim gordura e o substituíram por uma praga africana chamada braquiária, que é um câncer nos pastos que nem a quimioterapia mais violenta pode com ele... ).

Como aconteceu com o Pequeno Príncipe e a raposa. O Pequeno Príncipe, contra vontade, cativara a raposa, a pedido dela. Mas chegou a hora da despedida e a raposa disse: "Vou chorar". O Pequeno Príncipe retrucou: " Não é culpa minha. Eu não queria te cativar. Agora você vai chorar. Qual foi a vantagem?" Respondeu a raposa: "A vantagem? Os campos de trigo. Eu sou uma raposa. Como galinhas. O trigo me é indiferente. Mas você me cativou. Seu cabelo é louro. Os campos de trigo são dourados. Porque você me cativou sempre que o vento balançar as espigas douradas de trigo eu me lembrarei de você. E sorrirei..."

É isso que é um sacramento: uma imagem carregada de emoções. O sacramentos são símbolos que têm o poder de invocar ausências. Poesia é isso: imagens carregadas de emoções... Quem não tem poesia é pobre nas emoções. E, necessariamente, pobre no amor. Escrevi uma crônica em elogio à calvície. Eu nunca imaginei que uma calva fosse um objeto poético. Nunca li poema algum sobre a calvície... Só se fosse um poema cômico, de fazer rir. Foi isso que aconteceu com a coleguinha da minha neta que caiu na risada ao ver-me careca, numa foto?.

Pois o Artur da Távola me enviou um e-mail... Já escrevi sobre ele várias vezes. Ele apresenta o programa "Quem tem medo de música clássica?" na TV Senado e não se cansa de repetir: "Música é vida interior. E quem tem vida interior nunca está sozinho." Emociona-me seu amor pelas crianças. Está sempre pedindo aos pais que chamem os seus filhos para ver e ouvir música clássica. Uma amiga, separada, segredou a outra amiga que nunca mais se casaria, a não ser que fosse com o Artur da Távola...

Ele me enviou um e-mail a propósito da minha crônica e fez uma confissão que me comoveu. Achei tão humana a sua confissão que lhe pedi licença para transcrevê-la. "Quando eu era criança, anos 40, não estava em moda usar barba. Meu pai, exceção, mantinha uma, a nazareno, como se chamava então. Tímido que sempre fui, morria de encabulamento. Uma tarde ele é que foi buscar-me no colégio. A garotada riu daquele homem de barba e eu, assustado, disse que era meu avô. Minha mãe, à noite achou a desculpa criativa. Mas meu pai ficou triste por rirem dele e por me haver causado o envergonhar-me. Até hoje essa mentirinha me persegue. Ele morreu quando eu tinha onze anos e nunca pude excusar-me com ele. Aceite o abraço de outro vasto careca e parabéns pela defesa."

Parece que isso é algo universal. As crianças têm medo que os outros riam dos seus pais e, consequentemente, riam deles. Todas as crianças querem ter pais bonitos e admirados. Lembro-me de que quando vivi nos Estados Unidos o diretor da "Cathedral School", onde meus filhos pequenos estudavam, convidou-me a falar para as crianças. Aceitei. Anunciou-se minha ida. Aí notei que o Sérgio e o Marcos começaram a ter um comportamento incomum, cheios de conversinhas pelos cantos. Até que eu os encantoei e pedi explicações. Aí eles me disseram, meio encabulados: "Please, Daddy, don't say anything which will embarrass us..." que, traduzido livremente em linguagem de hoje seria, "Papai, não nos faça pagar mico..."

Quem suspeitaria que o cheiro bom do capim gordura pudesse ser um sacramento de amizade? Quem suspeitaria que uma careca poderia ser um tema poético, início de uma amizade? Gostava do Artur da Távola pela música. Gostava pelo amor às crianças. Agora gosto mais, porque a careca nos faz entrar em devaneios. Como disse, a amizade cresce a partir de coisas pequenas. Quem suspeitaria que das carecas pudesse surgir a amizade? Garanto, Artur, que o seu pai ficou feliz por sua revelação afetuosa. Não precisa mais sentir-se perseguido pela mentirinha...

Estamos lendo e discutindo, nas sessões de poesia às 3as. feiras, o livro Livro sem fim, que escrevi. Chama-se livro sem fim porque não consegui terminá-lo. Fiquei cansado no meio do caminho. Parei e disse aos meus leitores: "Lamento muito mas fico por aqui. Não vou subir até o alto do pico. Deixei lá na planície um jardim que precisa dos meus cuidados. Mas vou lhes indicar as trilhas que eu havia planejado seguir. Dou-lhes a rota que iria seguir. Sigam por conta própria, se o desejarem."

E publiquei um livro que não terminei, sem fim. Não me apoquento porque Schubert não conseguiu terminar uma de suas sinfonias e Bach não chegou ao fim da "Arte de Fuga". Pois é, estamos começando a escalada e estávamos numa parte que fala de aforismos. Nietzsche tinha paixão por eles:" Quem quer que escreva com sangue e aforismos não deseja ser lido mas ser sabido de cor. Nas montanhas o caminho mais curto é de pico a pico: mas, para isso, é preciso ter pernas longas. Aforismos deveriam ser picos - e aqueles a quem são dirigidos também deveriam ser altos e elevados.

O ar é puro, o perigo está próximo e o espírito está cheio de um sarcasmo jovial: esses dois vão bem, juntos..." Aforismos são relâmpagos: caem do céu com um estampido e racham pedras. Suas origens são irrelevantes. Dispensam razões. Se riem dos que tentam explicá-los. Valem por eles mesmos, como se fosse estrelas. "Um bom aforismo não é consumido pelos milênios, muito embora ele seja alimento a cada momento: esse é o grande paradoxo da literatura, o permanente no meio das mudanças, a comida que permanece sempre gostosa, como sal, ela não perde o sabor... "

Aí, para ilustrar, pus-me a ler alguns das centenas de aforismos que Oscar Wilde escreveu. Esse, em especial, de aparência inocente, produziu uma infinidade de faíscas. "É triste mas é verdade: perdemos a capacidade de dar nomes suaves às coisas. Os nomes são tudo. Eu nunca me queixo das coisas. Queixo-me das palavras. É por este motivo que odeio o vulgar naturalismo na literatura. O homem que chama a enxada de enxada deveria ser forçado a usá-la. É a única coisa que ele sabe fazer."

Lido o aforismo há um momento de silêncio. É preciso pensar, observar o que o aforismo faz conosco, que associações ele provoca. Aí o pensamento da Lenir deu um pulo. Lembrou-se de algo que o Guido lhe dissera, rindo: "O fim de uma possível noite de amor acontece quando a mulher diz ao namorado: Dá licença, benzinho, preciso mijar..." Ah! Palavra terrível essa! Destruidora de romances! Tudo teria sido diferente se ela tivesse dito: "Benzinho, licença, preciso fazer um xixizinho..." Xixizinho, que bonitinho, poético, as menininhas fazem xixizinho, a fantasia da mulher amada fazendo xixizinho, tão íntimo, tão excitante..."

Mas alto lá! O dicionário diz que fazer xixi, mijar e urinar são sinônimos. Se são sinônimos referem-se à mesma coisa. São nada. As coisas são os nomes que pomos nelas. Por isso que Oscar Wilde disse que não se queixava das coisas. Queixava-se dos nomes. É preciso dar nomes suaves às coisas para que elas, as coisas, fiquem suaves. Urinar não é um nome suave para a dita coisa. Urinar era aquilo que se fazia no penico, com todos os seus ruidos metálico-espumantes.

Lembro-me, em Minas, eu tinha uns 7 anos. Estavam hospedados em nossa casa o Sigismundo e a Leonina. Haviam vindo da roça para consultas médicas. Fazia parte das gentilezas da hospitalidade que os hóspedes fossem providos de penicos. Pois estou vendo a cena: a Leonina, saindo do quarto pela manhã portando, um penico cheio do líquido amarelo, e explicando a todos: " O Sigismundo urinou muito de noite..." Urinar é também aquilo que se faz no laboratório de análises. "Despreze o primeiro jato da urina", diz a enfermeira.

A palavra mijar, por sua vez, é moradora dos mictórios ou, como dizem os portugueses, dos urinois. Xixi, como a palavra está onomatopaicamente indicando, é parente dos sons musicais dos violinos. Quem faz xixi está tocando violino. Aprendam então a usar a palavra certa. Sinônimos não dão certo. Muitas promissoras relações amorosas acabam por causa de um nome aparentemente inocente. Cuidado com os nomes!

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