30-07-04 A caixa de brinquedos
08-04-04 A Quaresma e a tristeza divina
02-04-04 Meu caro ladrão (ou ladra) ...
19-03-04 Quarto de Badulaques XLV
12-03-04 Quarto de Badulaques XLIII
05-03-04 Quarto de badulaques XLII
13-02-04 Quarto de Badulaques XLI
06-02-04 "Que seria de nós sem o socorro do que não existe?"
27-01-04 Sob o feitiço dos livros
26-12-03 Quarto de Badulaques XXXIX
08-12-03 Os pássaros e os urubus
27-11-03 Quarto de Badulaques XXXVIII
06-11-03 Quarto de badulaques XXXVI
31-10-03 Quarto de badulaques XXXV
19-09-03 Se eu pudesse viver novamente a minha vida...
12-09-03 Livros que dão alegria
22-08-03 Quarto de badulaques XXX
A caixa de brinquedos
A idéia de que o corpo carrega duas caixas
-uma caixa de ferramentas, na mão direita, e uma caixa
de brinquedos, na mão esquerda- apareceu enquanto eu me
dedicava a mastigar, ruminar e digerir santo Agostinho.
Como você deve saber, eu leio antropofagicamente. Porque
os livros são feitos com a carne e o sangue daqueles que
os escrevem. Dos livros, pode-se dizer o que os sacerdotes
dizem da eucaristia: "Isso é o meu corpo; isso é a minha
carne".
Santo Agostinho não disse como eu digo. O que digo é o
que ele disse depois de passado pelos meus processos digestivos.
A diferença é que ele disse na grave linguagem dos teólogos
e filósofos. E eu digo a mesma coisa na leve linguagem
dos bufões e do riso.
Pois santo Agostinho, resumindo o seu pensamento, disse
que todas as coisas que existem se dividem em duas ordens
distintas. A ordem do "uti" (ele escrevia em latim ) e
a ordem do "frui". "Uti" significa o que é útil, utilizável,
utensílio. Usar uma coisa é utilizá-la para obter uma
outra coisa. "Frui" significa fruir, usufruir, desfrutar,
amar uma coisa por causa dela mesma.
A ordem do "uti" é o lugar do poder. Todos os utensílios,
ferramentas, são inventados para aumentar o poder do corpo.
A ordem do "frui" é a ordem do amor -coisas que não são
utilizadas, que não são ferramentas, que não servem para
nada. Elas não são úteis; são inúteis. Porque não são
para serem usadas, mas para serem gozadas. Aí você me
pergunta: quem seria tolo de gastar tempo com coisas que
não servem para nada? Aquilo que não tem utilidade é jogado
no lixo: lâmpada queimada, tubo de pasta dental vazio,
caneta sem tinta...
Faz tempo, preguei uma peça num grupo de cidadãos da terceira
idade. Velhos aposentados. "Inúteis" -comecei a minha
fala solenemente. "Então os senhores e as senhoras finalmente
chegaram à idade em que são totalmente inúteis..." Foi
um pandemônio. Ficaram bravos, me interromperam e trataram
de apresentar as provas de que ainda eram úteis. Da sua
utilidade dependia o sentido de suas vidas.
Minha provocação dera o resultado esperado. Comecei, mansamente,
a argumentar. "Então vocês encontram sentido para suas
vidas na sua utilidade. Vocês são ferramentas. Não serão
jogados no lixo. Vassouras, mesmo velhas, são úteis. Uma
música do Tom Jobim é inútil. Não há o que fazer com ela.
Os senhores e as senhoras estão me dizendo que se parecem
mais com as vassouras que com a música do Tom... Papel
higiênico é muito útil. Não é preciso explicar. Mas um
poema da Cecília Meireles é inútil. Não é ferramenta.
Não há o que fazer com ele. Os senhores e as senhoras
estão me dizendo que preferem a companhia do papel higiênico
à do poema da Cecília..." E assim fui acrescentando exemplos.
De repente os seus rostos se modificaram e compreenderam...
A vida não se justifica pela utilidade, mas pelo prazer
e pela alegria -moradores da ordem da fruição. Por isso
Oswald de Andrade, no "Manifesto Antropofágico", repetiu
várias vezes: "A alegria é a prova dos nove, a alegria
é a prova dos nove...".
E foi precisamente isso o que disse santo Agostinho. As
coisas da caixa de ferramentas, do poder, são meios de
vida, necessários para a sobrevivência (saúde é uma das
coisas que moram na caixa de ferramentas. Saúde é poder.
Mas há muitas pessoas que gozam de perfeita saúde física
e, a despeito disso, se matam de tédio). As ferramentas
não nos dão razões para viver; são chaves para a caixa
dos brinquedos.
Santo Agostinho não usou a palavra "brinquedo". Sou eu
quem a usa porque não encontro outra mais apropriada.
Armar quebra-cabeças, empinar pipa, rodar pião, jogar
xadrez ou bilboquê, jogar sinuca, dançar, ler um conto,
ver caleidoscópio: tudo isso não leva a nada. Essas coisas
não existem para levar a coisa alguma. Quem está brincando
já chegou. Comparem a intensidade das crianças ao brincar
com o seu sofrimento ao fazer fichas de leitura! Afinal
de contas, para que servem as fichas de leitura? São úteis?
Dão prazer? Livros podem ser brinquedos? O inglês e o
alemão têm uma felicidade que não temos. Têm uma única
palavra para se referir ao brinquedo e à arte. No inglês,
"play". No alemão, "spielen". Arte e brinquedo são a mesma
coisa: atividades inúteis que dão prazer e alegria. Poesia,
música, pintura, escultura, dança, teatro, culinária:
são brincadeiras que inventamos para que o corpo encontre
a felicidade, ainda que em breves momentos de distração,
como diria Guimarães Rosa.
Esse é o resumo da minha filosofia da educação. Resta
perguntar: os saberes que se ensinam em nossas escolas
são ferramentas? Tornam os alunos mais competentes para
executar as tarefas práticas do cotidiano? E eles, alunos,
aprendem a ver os objetos do mundo como se fossem brinquedos?
Têm mais alegria? Infelizmente, não há avaliações de múltipla
escolha para medir alegria...