30-07-04 A caixa de brinquedos
08-04-04 A Quaresma e a tristeza divina
02-04-04 Meu caro ladrão (ou ladra) ...
19-03-04 Quarto de Badulaques XLV
12-03-04 Quarto de Badulaques XLIII
05-03-04 Quarto de badulaques XLII
13-02-04 Quarto de Badulaques XLI
06-02-04 "Que seria de nós sem o socorro do que não existe?"
27-01-04 Sob o feitiço dos livros
26-12-03 Quarto de Badulaques XXXIX
08-12-03 Os pássaros e os urubus
27-11-03 Quarto de Badulaques XXXVIII
06-11-03 Quarto de badulaques XXXVI
31-10-03 Quarto de badulaques XXXV
19-09-03 Se eu pudesse viver novamente a minha vida...
12-09-03 Livros que dão alegria
22-08-03 Quarto de badulaques XXX
Receita para milagre
Tenho a impressão de já haver dito. Não
tem importância. Direi de novo. A vida não é feita com
novidades. É feita com repetições. Como na música. Há
aquele tema, refrão que se repete, se repete, se repete
- e a gente quer sempre ouvir de novo.
É sobre religião. Já me perguntaram por que escrevo tanto
sobre religião. Há duas razões. Primeiro, porque a alma
humana me fascina. Ela é um cenário fantástico, com abismos
escuros cobertos de neblina, cavernas infernais onde habitam
demônios, ao lado de picos altíssimos contra o céu azul,
onde crescem flores coloridas e pássaros cantam nas árvores
cheias de frutos. Paraíso e inferno num mesmo corpo...
Esses cenários fantásticos pertencem ao mundo da religião.
E como minha vocação é a de andarilho, eu gosto de caminhar
pelas trilhas da alma.
A outra razão é que tenho também a vocação de conversador.
Gosto de conversar com as pessoas simples, sem diploma.
De preferência na cozinha. Conversar é jogar peteca com
palavras. Acontece que as pessoas comuns jogam muito essa
peteca chamada religião. Aí eu entro no jogo... Se eu
quiser me comunicar com os russos será inútil que eu lhes
leia um poema em português. Minhas palavras lhes serão,
para usar a imagem do apóstolo Paulo, "como o bronze que
soa ou o címbalo que tine" - sons sem sentido.
Para conversar é preciso falar a linguagem daquele com
quem converso. Isso tem a ver com minha vocação de educador
e comunicador. Eu quero entender as pessoas. Eu quero
que elas me entendam. Gosto de falar a linguagem da religião
por ser esse um jogo de petecas que jogo bem, modéstia
à parte...
Então, se já disse: repito. Há dois tipos de religião.
Um deles é a religião que oferece fórmulas para manipular
o sagrado. Manipular o sagrado! Esse é o mais antigo e
o mais profundo sonho da alma humana. Atrelar os deuses
aos nossos arados! Engaiolar o Pássaro Encantado e levá-lo
por onde eu for! Engarrafar o Vento! Por sela e freio
em Pégasso, o cavalo voador, e cavalgá-lo! O homem que
fizesse isso já não seria homem! Seria um deus... E como
a Serpente, aquela do Paraíso, psicóloga conhecedora dos
desejos do coração humano, sabia desse desejo, foi bem
nesse lugar ela tentou: "... e sereis como os deuses!"
Poder é bom. Sem poder a gente morre. Saúde é poder. A
doença, ao contrário, é um declínio de poder. Fraqueza.
Fraqueza e morte andam próximas. Já imaginaram a euforia
do homem quando ele conseguiu domar o fogo? Que extraordinários
poderes novos o fogo lhe deu! A luz, na noite escura;
o calor, na noite fria; o fogão e a culinária; o poder
para derreter os metais, na fundição; o poder para endurecer
o barro, na cerâmica... Sem o fogo não haveria civilização.
Se a tecnologia nos dá poderes extraordinários, que poderes
muito mais extraordinários nos serão dados se conseguirmos
manipular o sagrado para os nossos propósitos, da mesma
forma como manipulamos o fogo! Pois Deus não é fogo? Afinal
de contas os deuses são onipotentes, podem todas as coisas!
E é isso que esse tipo de religião promete: atrelar os
deuses aos nossos desejos, para que eles façam a nossa
vontade. A oração do Pai Nosso dessa religião é meio diferente,
embora ninguém reconheça. Ela reza: "Seja feita a minha
vontade..." Pois, não é para isso que os deuses existem?
Para fazer a nossa vontade? De que me valeria um deus
que não faz o que desejo? Não seria melhor procurar um
outro? Não é por isso que as pessoas trocam de religião?
Bem dizia Dostoiévski que o que os homens desejam não
é Deus, é o milagre. Milagre é quando do meu desejo se
realiza! A jovem linda dá o seu carinho a um homem repulsivo.
Por amor? Não. Ela o beija porque ele é rico e pode fazer
as suas vontades. Não é o seu amor que ela busca. Ela
busca o seu dinheiro. Assim os homens buscam a Deus não
por amá-lo mas pelo milagre que ele pode operar.
A prostituição acontece também no mundo das religiões.
Do jeito preciso como aconteceu com o homem que achou
a lâmpada mágica onde mora um gênio. É só esfregar a lâmpada
para que ele apareça e pergunte: "Mestre, qual é o teu
desejo para que eu o realize?" Na estória do gênio o truque
é simples: basta esfregar a garrafa. Nessas religiões
o "esfregar da garrafa" assume uma variedade de formas
diferentes, dependendo da barraca, na feira das religiões,
em que se vendem e se compram as arapucas para se prender
o sagrado: fórmulas mágicas, gestos, rezas, amuletos,
livros santos (dizem que são poderosos como proteção para
os relâmpagos, em dias de tempestade), colares (pendurados
nos carros evitam acidentes), promessas (os deuses vendem
os seus serviços por favores), peregrinações a lugares
santos (pois lá o poder do sagrado está mais próximo),
exorcismos, copos de água à frente dos aparelhos de TV,
além dos despachantes sagrados de vários tipos, sendo
que um deles promete rapidez, milagres para o dia de hoje.
Alega-se, inclusive, que um adesivo num carro, dizendo
ser ele propriedade exclusiva de Jesus, afugenta os ladrões.
Um ladrão religioso jamais se arriscaria a roubar um carro
de Jesus. O castigo seria certo ... Boas relações com
Deus são garantias de sucesso. Só é pobre quem quer. Coitados
dos profetas! Certamente não tinham boas relações com
Deus. Não tiveram sucesso. Não souberam manipular o sagrado
para que ele realizasse os seus desejos!
Esse tipo de religião é o que é mais procurado porque
o que mais desejamos é a realização dos nossos desejos
- mesmo que sejam desejos tolos, embora nunca reconheçamos
que nossos desejos podem ser tolos.... O seu nome próprio
seria magia. Porque magia são as técnicas de que se lança
mão para manipular o sagrado para a realização dos nossos
desejos. Os profetas do Antigo Testamento o chamavam de
idolatria. O idólatra é a pessoa que pensa que o sagrado
está preso num objeto, qualquer objeto, um santinho, um
templo, uma relíquia, um livro, uma fórmula, uma comida,
uma bebida, um rito. Estando preso, o sagrado está sob
o seu controle: Deus está engaiolado. É possível levá-lo
para onde quero. Posso usá-lo para fazer a minha vontade.
Mas um Deus engaiolado deixou de ser um Deus!
O outro tipo de religião? Pena. O espaço chegou ao fim.
Conversaremos depois...
. Ao final da rua Joana de Gusmão, entre o restaurante
Rã-chu e a floricultura Floríssima, havia uma pequena
praça com árvores altas, completamente abandonada. A "Floríssima"
a adotou e a transformou num lindo jardim! Se empresas
e moradores se dispusessem a "adotar" praças e ruas a
cidade ficaria muito mais bonita!
. Hans e Tomiko ( foi a Tomiko que me fez comprar o blazer
vermelho...) se mudaram de São Paulo para Caldas, município
onde está Pocinhos, lugar de águas termais curativas.
Estão felizes, no processo de criar um centro cultural
para a população local. Confessaram-me: Há uma coisa de
que têm muita saudade: a Rádio Cultura de São Paulo. Música
boa o dia inteiro. Variada. Acorda-se pela manhã, liga-se
o rádio e pronto! Nunca vivi em São Paulo. Mas tive experiência
semelhante em New York. Era uma delícia. A música faz
bem à alma. Tranquiliza. Põe as ondas Alfa em funcionamento.
Já sugeri a vários prefeitos, por meio dessa coluna, que
conseguissem uma torre de retransmissão da Rádio Cultura.
Nunca obtive resposta. Nem sei se isso é possível. Gostaria
que alguém entendido me esclarecesse. E gostaria que aqueles
que aprovam a idéia escrevessem para o jornal.