30-07-04 A caixa de brinquedos
08-04-04 A Quaresma e a tristeza divina
02-04-04 Meu caro ladrão (ou ladra) ...
19-03-04 Quarto de Badulaques XLV
12-03-04 Quarto de Badulaques XLIII
05-03-04 Quarto de badulaques XLII
13-02-04 Quarto de Badulaques XLI
06-02-04 "Que seria de nós sem o socorro do que não existe?"
27-01-04 Sob o feitiço dos livros
26-12-03 Quarto de Badulaques XXXIX
08-12-03 Os pássaros e os urubus
27-11-03 Quarto de Badulaques XXXVIII
06-11-03 Quarto de badulaques XXXVI
31-10-03 Quarto de badulaques XXXV
19-09-03 Se eu pudesse viver novamente a minha vida...
12-09-03 Livros que dão alegria
22-08-03 Quarto de badulaques XXX
Quarto de badulaques XXXV
- Um amigo é uma pessoa com quem se tem
prazer em compartilhar idéias de forma tranqüila e mansa.
Não é preciso estar de acordo. O rosto do meu amigo não
é igual ao meu rosto. E essa diferença me dá alegria. Se
convivemos bem com nossos rostos diferentes, porque haveríamos
de querer que nossas idéias fossem iguais? Experimentar
a diferença de idéias mansamente é uma das evidências da
amizade. Assim, se você deseja saber se uma pessoa é sua
amiga, pergunte-se: Temos prazer e gastamos tempo compartilhando
idéias? Acho que os casais - namorados ou casados de papel
passado - deveriam se propor esse teste. Não existe amor
que sobreviva só de sentimentos, sem a conversa mansa.
- Uma das alegrias da literatura está em que ela cria a
possibilidade de estabelecer conversas mansas com pessoas
ausentes e mesmo mortas. Muitos dos meus melhores amigos,
pessoas com quem converso longamente, estão mortos há muito
tempo. É o caso de Albert Camus. Ler Camus é um exercício
de felicidade. Poderíamos até formar uma dupla... Seus pensamentos
mais pessoais não se encontram em seus livros com princípio
meio e fim. Encontram-se nos seus diários, onde registrava
os pensamentos que lhe ocorriam sem imaginar que um dia
seriam transformados em livros. Muitas das suas experiências
batem com as minhas. Num certo lugar ele escreve notas para
um romance: "Infância pobre. Eu tinha vergonha da minha
pobreza e da minha família. Só conheci essa vergonha quando
me puseram no liceu. Antes, toda a gente era como eu e a
pobreza parecia-me o próprio ar desse mundo. No liceu foi-me
dado comparar." Num outro lugar ele comenta: "Que pode um
homem desejar de melhor do que a pobreza? Não disse miséria
nem o trabalho sem esperança do proletário moderno. Mas
não vejo o que pode desejar-se a mais do que a pobreza ligada
a um ócio ativo." Foi exatamente essa a minha experiência.
Minha infância foi vivida na pobreza. A princípio, grande
pobreza. Depois, pobreza simplesmente. Desses anos não tenho
uma única memória infeliz. Tive dores, como toda criança
tem: dor de dente, dor de tombo, dor de barriga, dor de
queimadura. Mas não tive experiência de infelicidade.
Minha infelicidade começou quando a vida melhorou e nos
mudamos de uma cidade do interior de Minas para o Rio de
Janeiro. Meu pai me matriculou num colégio de cariocas ricos
que falavam no "xis", como a Malu Mader. E eu, menino de
roça, falava no "erre", o mesmo "erre" de Piracicaba e Tatuir...
Foi então que, como Camus, senti vergonha da minha pobreza
e da minha família: eu era diferente, não pertencia ao mundo
elegante dos meus colegas.. Num outro lugar do seu Diário
Camus registrou: "Atenção: Kierkegaard, a origem dos nossos
males está na comparação." Kierkegaard foi um solitário
filósofo dinamarquês. Os desbravadores são sempre solitários.
Vêem coisas que os outros não vêem. Como foi o caso de Nietzsche.
Kierkegaard foi meu primeiro amigo filósofo. Com ele tive
longas e mansas conversas. Sua filosofia é construída em
meio a uma teia de sutis percepções psicológicas. O sofrimento
da pobreza, quando não é miséria, se encontra na comparação.
A miséria é diferente da pobreza. A pobreza está muito próxima
da simplicidade. Simplicidade tem a ver com as coisas que
são essenciais. Por isso Jesus dizia que os pobres são bem-aventurados.
Simplicidade é caminhar com uma mochila leve. A riqueza,
ao contrário, é caminhar arrastando muitas malas pesadas,
sem alças... A pobreza simples é uma pobreza feliz.
Feliz porque leve. É a comparação, origem da inveja, que
a torna infeliz. Camus e eu experimentamos a infelicidade
da comparação na escola. Mas hoje não é preciso ir à escola
para sentir a sua maldição. Basta ligar a televisão. A televisão
é uma máquina de infelicidade na medida em que ela nos obriga
a comparar. Os pobres, nos lugares mais distantes, ligam
as novelas, e sentem a sua desgraça. A comparação é um exercício
dos olhos: vejo-me; estou feliz. Vejo o outro. Vejo-me nos
olhos do outro. Ele tem mais do que eu. Ele é mais do que
eu. Vendo-me nos olhos dos outros eu me sinto humilhado.
Tenho menos. Sou menos. Para me livrar da dor da comparação
eu fujo dos seus olhos. Retiro-me do seu espaço. Como no
mito da Queda. O homem e a mulher sentiram vergonha e coseram
para si mesmos tangas. Para que o outro não visse. O sofrimento
das pessoas que são portadoras de diferenças, quaisquer
que sejam, é idêntico. Foi a minha inclusão numa comunidade
religiosa, com todos os seus absurdos, que me salvou. A
experiência de sentir-se aceito por uma comunidade tem o
poder de dissolver todos os absurdos. Outro período de sofrimento
semelhante foram os anos em que fui professor do Instituto
de Filosofia e Ciências Humanas, na Unicamp. Por razões
semelhantes. Sobre isso escreverei numa outra ocasião.
- Outro dos meus amigos mortos é Dietrich Bonhoeffer. Bonhoeffer
foi um teólogo protestante que, por ter participado num
complô para assassinar Hitler, foi preso num campo de concentração
e enforcado. As cartas que ele escreveu da prisão são um
monumento de simplicidade e clarividência teológicas. Numa
delas, datada de dezembro de 1943, ele diz o seguinte: "Estou
certo de que devemos amar a Deus nas nossas vidas e nas
bênçãos que ele nos envia.
Falando francamente, ansiar pelo transcendente quando se
está nos braços da pessoa amada é, para colocá-lo de forma
delicada, uma falta de gosto e isso não é, certamente, aquilo
que Deus espera de nós. Devemos encontrar Deus e amá-lo
nas bênçãos que ele nos envia. Se ele tem prazer em nos
dar uma maravilhosa felicidade terrena não devemos ser mais
religiosos que o próprio Deus." Isso é tão óbvio! Quando
dou um presente para uma de minhas netas o que desejo é
ver o seu rosto de felicidade ao ver o presente. Ficarei
frustrado se ela, ignorando o presente, ficar me olhando
e dizendo:
Como você é bom, como você é bom. Eu não quero que ela diga
que eu sou bom. Quero mesmo é que ela brinque com o presente.
A propósito da falta de gosto em se ansiar pelo transcendente
quando se está nos braços da pessoa amada, lembrei-me de
que num desses cursos religiosos de preparação para o casamento
aconselhava-se os noivos a sempre rezar um "padre nosso"
antes de transar. As pessoas que falam sobre Deus o tempo
todo são como as crianças que não brincam com o brinquedo
e ficam bajulando o avô...
- As igrejas cristãs são responsáveis por haverem estragado
um dos mais deliciosos brinquedos que Deus nos deu: o sexo.
Primeiro ela estragou o brinquedo afirmando que o sexo era
um artifício do demônio para a perdição das nossas almas.
O que explica o voto de castidade imposto aos religiosos.
Quem é religioso, quem ama a Deus, não brinca com brinquedos
do demônio. Quem primeiro expressou essa teoria de forma
sistemática foi Santo Agostinho. Foi através do prazer sexual
que o pecado entrou no mundo. O desejo sexual, segundo ele,
era uma das evidências da desordem que o pecado provocou
no corpo. Explicando as razões por que o homem fez para
si mesmo uma tanga de folhas para cobrir a sua nudez, ele
diz que foi por vergonha, para esconder um membro que se
movimentava por vontade própria, contrariando os imperativos
da razão. Sexo certo é sexo sem prazer, mas por dever. Para
a reprodução. Para completar a população dos céus e dos
infernos. Os órgão sexuais, em especial o órgão masculino,
deveriam se comportar como o dedo que só se movimenta quando
a razão manda, sem a interferência do desejo carnal e do
prazer. Havendo fracassado essa tentativa de estragar os
prazeres do brinquedo sexo, as igrejas inventaram um outro
artifício: divinizaram-no. Sendo coisa divina, o sexo deixa
de ser brinquedo para ser coisa séria. Transar, tudo bem.
Desde que se cantem litanias enquanto se transa.
- Faz anos a TV Globo anunciou uma coisa extraordinária,
através do rosto piedoso e a voz paternal do Cid Moreira:
os moralistas da cúria romana haviam descoberto uma forma
de tornar a inseminação artificial eticamente correta! Entenda-se,
é claro, inseminação com o sêmen do marido. Anteriormente
até com o sêmen do marido ela era considerada pecado. Porque
o sêmen só podia ser obtido de forma imoral. A primeira
das imoralidade é masturbação. Que é pecado, por frustrar
a natureza. A segunda das imoralidades é a relação sexual
com camisinha - que frustra a natureza da mesma forma: os
espermatozóides estão impedidos, fisicamente, de entrar
no útero.
Mas aí os ortodoxos teólogos moralistas pensaram: "Se se
fizer um pequeno furo na camisinha a natureza não estará
sendo frustrada porque existe sempre a possibilidade de
que um espermatozóide passe pelo buraquinho... Assim, se
o sêmen for colhido com uma camisinha furada a inseminação
artificial pode ser realizada sem pecado..." Aí eu fiquei
imaginando um departamento, nos céus, encarregado de classificar
as camisinhas. Camisinhas sem furo são pecado. Levam ao
inferno. Camisinhas com furo revelam uma alma piedosa, obediente
à sabedoria moral da igreja... Meu Deus: Eu gostaria de
ter o humor do Macaco Simão para falar sobre essas coisas!
Como é que Deus agüenta?
- Não conheço nenhum santo feliz. Estão todos com uma cara
de sofrimento, feridas, espadas, espinhos, punhais. Quero
um santo que seja uma pessoa normal, exuberante, brincante,
feliz nesse mundo onde Deus plantou o Paraíso! Deus sonhou
com um lugar maravilhoso, de delícias e beleza, e o plantou.
Tão bonito que ele deixou os céus (lá não havia nem árvores,
nem riachos, nem pássaros. Se houvesse, ele não teria criado
o Paraíso...) e ficou andando pelo jardim. Pelo menos é
isso que dizem os textos sagrados. Para mim um santo seria
uma pessoa que planta jardins e vive neles. Mas os olhos
dos santos canonizados não sorriem para os jardins. Para
eles esse mundo é um vale de lágrimas onde perambulam os
degregados filhos de Eva, como diz uma reza do rosário.
Por isso olham languidamente para os céus. Deus olha para
baixo e sorri. Eles olham para cima, chorando. São mais
espirituais do que Deus...