O Estado de São de Paulo
Sábado, 1 de julho de 2000
Suplemento Feminino - Internet para Maiores
Vovós querem navegar
Quem imaginaria a cena? Um grupo de adolescentes do segundo grau
ensinado idosos a usar a internet.Isto é visto nas aulas
que duas vezes por semana no Lar Golda Meier, numa iniciativa do
Projeto Aprendiz
A idéia foi do presidente do Aprendiz, o jornalista Gilberto
Dimenstein, que desejava um projeto que levasse a informática
aos idosos e permitisse seu contato com os mais jovens. O local
escolhido foi o Lar Golda Meier. Comprados os computadores, a psicóloga
Yael Sandberg e a psiquiatra Hana Vaismans tocaram o projeto para
frente, batizado como Oldnet.
Desde setembro, elas orientam as atividades com dois grupos no
Lar. A metodologia e até os móveis usados são
específicos para idosos. Além de ensinar a navegar
pela Internet, o que se propõe é a interação
entre jovens e idosos e, ainda, de estudantes de escolas públicas
e particulares. Ao todo, oito colégios fazem parte do projeto,
com três representantes cada.
"Queremos fazer com que o jovem exerça a cidadania
e experimente uma postura ativa na comunidade", conta Yael.
"Para os idosos, a atividade traz novas formas de relação
com o mundo; eles saem mais jovens."
DESCOBRINDO A REDE - O casal Werner e Eva Dammann, ele de 79 anos
e ela de 78, freqüentam as aulas há três semanas.
Não moram no Lar, mas interessaram-se em ir uma vez por semana
aprender a `mexer' na Internet. "Era completamente inocente",
graceja Werner, sobre sua falta de experiência com a máquina.
"Acho bonitas a paciência e a boa vontade do pessoal
para ensinar o manuseio desses aparelhos; eles são bons professores."
Seu maior interesse é enviar mensagens eletrônicas
aos amigos espalhados pelo mundo inteiro. Durante as aulas, ele
já mandou e-mails para a filha e para um amigo. "É
difícil, mas quero continuar", diz ele. "Eu sentia
que precisava me inteirar nesse sistema dos computadores."
A polonesa Chana Guterman, que reside no Lar, é outra aluna
do Oldnet. Ela aproveitou cada uma de suas quatro aulas para enviar
mensagens eletrônicas à equipe do Hospital São
Paulo, que a assistiu numa delicada operação no intestino,
no final do ano passado. "Eles me trataram muito bem",
lembra ela, que não só escreveu aos médicos,
mas também para todo o time da enfermagem.
Como não tinha o endereço eletrônico dos médicos,
Chana navegou em busca do website do hospital. Encontrado o local,
foi só clicar no link para o e-mail. Fez tudo com o suporte
técnico do seu `orientador'. "Eles podem entender mais
de computadores, mas nós somos mais experientes", brinca.
"Corrigi um erro de português no texto dele".
NÓS E ELES - A aluna do segundo grau do Colégio Bandeirantes,
Camila Rocha de Oliveira, de 15 anos, colabora com o projeto há
dois meses. Por que vai até lá todas as semanas? "Sempre
quis participar de um projeto social", justifica. Mas diz que
toma lições com os mais velhos.
- Aprendemos muito com suas histórias. Dona Margherita,
por exemplo, é muito cabeça; sempre está informada.
Quando tiver a idade dela, quero ser igual.
Sobre as dificuldades do "magistério", o voluntário
Danilo Guglielmo, 14 anos, estudante do Colégio Bialik, que
já tinha experiência ensinando seu avô a usar
o computador, diz que a paciência é virtude fundamental
para quem ensina. "Às vezes, o que é óbvio
para a gente, como o mouse, precisa ser muito bem explicado para
eles", constata. "O mais legal é que aprendemos
a conviver com pessoas que vivem em uma realidade diferente."
Além das aulas sobre a Internet e programas de correio eletrônico,
os idosos também estão dando depoimentos sobre sua
história de vida aos mesmos jovens.
Em um segundo momento, essas histórias farão parte
do website do Museu da Pessoa.
Atualmente, 14 idosos estão freqüentando o curso, preenchendo
as vagas disponíveis. Com uma lista de espera de cerca de
cem pessoas, as coordenadoras pretendem ampliar o projeto e levá-lo
a outros espaços no segundo semestre. Mas não querem
apressar o processo: "É uma operação delicada,
leva tempo".
Fabiana Caso
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