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       O povo Xavante se autodenomina A'wê Uptabi, povo verdadeiro. Vive hoje entre os estados de Mato Grosso e Goiás, Centro-Oeste do Brasil, numa região de cerrado. São cerca de 9 mil pessoas, vivendo em 55 aldeias, em sete reservas diferentes: Rio das Mortes, Couto Magalhães, Marechal Rondon, Areões, São Marcos, Sangradouro e Parabuburi. A língua que falam está classificada no tronco Jê.

       Nossa aldeia é a Etêniritipa. É considerada entre os Xavantes como a aldeia mãe, por ser a última a ter contato com os brancos, há cinqüenta anos atrás. Depois disso foi denominada como Pimentel Barbosa.
Localiza-se na Reserva Rio das Mortes, próxima às cidades de Canarana e Cascalheira.
Na aldeia vivem cerca de quatrocentas pessoas, em 25 ocas dispostas num semicírculo em torno do Warã, voltadas para o rio e para a serra do Roncador.

       Esta região hoje está cercada por fazendas de criação de bois e plantação de arroz e soja. Isso significa desmatamento e determina um processo de degradação do solo, além da poluição dos rios que adentram a reserva e são fonte de água para a aldeia.
Atualmente, o projeto Brasil em Ação, do Governo Federal, está prevendo a construção de uma hidrovia que deverá passar pelo rio das Mortes, Araguaia e Tocantins, criando um corredor de exportação de soja e outros produtos para os países desenvolvidos. A construção da hidrovia vai modificar muito o rio, vai alterar o ecossistema e o fluxo das águas. Esse projeto não é bom nem para o rio, nem para as pessoas e os animais que vivem ali.
       Com isso, é clara a interfêrencia direta e indireta do branco na cultura Xavante, o que causa sérios problemas para a sobrevivência da aldeia.

       Foi exatamente por este motivo que decidimos fazer este site. Precisavamos de um espaço para mostrar nossa cultura, nossa sabedoria, nosso jeito de viver neste mundo.
É preciso que o branco entenda que não estamos contra ele, e sim a favor de uma harmonia para ambos os povos.

        "Somos guerreiros. Temos estratégias para sobreviver e seguir nossa tradição. Por isso decidimos trabalhar com o Projeto Aprendiz na construção deste site, e ter este espaço mágico do computador para que a gente possa conversar com muitas pessoas que partilham do nosso pensamento e também se preocupam com a saúde do nosso planeta. E que esta conversa traga frutos bons, mudanças na realidade de nossos povos, mais respeito e oportunidade para o futuro."


A'uwê Uptabi
"Povo Verdadeiro"


       É assim que eu vou falar. Vou falar do tempo dos ancestrais. Da tradição do povo A'uwê Uptabi, desde a origem do tempo.
       O povo A'uwê corta o cabelo deste jeito, tira a sombrancelha e o supercílio, usa dañorebzu'a (nome genérico para a gravata cerimonial feita com algodão), daporewa'u (nome genérico para brinco de madeira), faz suas cerimônias.
       O povo A'uwê de Etêñiritipa mantém a tradição.
É assim que eu vou falar. Para que nossos filhos aprendam e mantenham a tradição para as futuras gerações. Para que ela nunca acabe.

       Em Etêñiritipa existe a presença viva da força da criação. Nós somos o povo verdadeiro, nós mantemos o espírito da criação.
       Por que os brancos não respeitam o povo tradicional? Por que estão fazendo assim? É muito difícil tirar um povo do seu lugar. Por que os brancos querem fezer isso?

       Vocês dizem que gostam da terra, vocês dizem que se preocupam com a terra. Isso não é verdade. Eu não vejo isso. Seus descendentes são numerosos, mas viraram a face para a verdade da criação. Mal sabem quem são.
       É por isso que eu estou falando. Para revelar nossa tradição, a força que mantém o espírito da criação.

       O povo Aúwê vem do lugar onde começa o céu, da raiz do céu, onde o sol aparece.
       Eu estou aqui no Hö. O Hö é diferente das outras casas, existe para os meninos. Aqui eles vivem separados. Aqui vivem para cumprir as cerimônias. Os meninos aqui dentro se chamam wapté. Aqui somos wapté.
       Eu vou contar o início. Como vivíamos antigamente.

       Desde pequenos os meninos formam grupos da mesma idade. Os velhos observam. Quando chega o tempo, os velhos decidem a entrada do Hö, onde os meninos vão viver reclusos. Os velhos não têm pena...

       Estou contando a verdadeira história! Isto que estou falando não surgiu por acaso. Esta casa existe para que continuemos fazendo as cerimônias que vieram com os wazuriwa (vigilantes, mensageiros), o que eles escutaram e gravaram na memória e transmitiram para nós. Para que possamos manter a tradição. Este conhecimento não foi inventado. Foi transmitido pelos wazuriwa. Este ensinamento o povo antigo ouviu e aprendeu do povo Sarewa.
O povo antigo tinha muito poder. Os A'uwê só tinham a corrida de tora que foi criada há muito tempo. Não tinham outras cerimônias. Wanaridóbe foi aprendido.

       Quando os meninos furam a orelha, acontece o Wanaridóbe. Os padrinhos encerram a cerimônia com o Wanaridóbe. Os padrinhos também se preparam. Sofrem. Não dormem, não descansam. Têm que dançar e cantar o Wanaridóbe a noite toda. É uma dança muito dura. É tão bonita! O urucum, a pintura preta, a seda de buriti nos pulsos e nas pernas... É tão bonito! O wanaridóbe é a verdadeira expressão da indentidade do povo A'uwê Uptabi.         Que ninguém brinque com essas cerimônias, elas são a forma de expressão da criação.

        Antes dos meninos entrarem no Hö acontece o Oi'o. Quando o milho está crescendo é o tempo do Oi'o. Da luta com a raiz do Oi'o. Os maiores, os Ai'repudu, batem mesmo! Não ficam com dó. Os pequenos choram. É assim. Antes da entrada no Hö acontece a última luta de Oi'o. Aí os meninos todos batem mesmo, sem dó. Porque é a última luta. Assim vamos conhecendo cada menino. Sua coragem, seus medos, suas fraquezas. Na luta eles vão se revelando. O pai orienta. Essa é a antiga tradição. Transmitida de geração para geração.

        No tempo dos nossos ancestrais é que foram divididos os grupos de geração. É assim. São nomes antigos que foram transmitidos ao longo do tempo. Etêpa, Tirówa, Nozo'u, Abareú, Sadaró, Añanarówa, Hötörã e Ai'rere. Todos os nomes de geração.

        Quando os wapté saem do Hö, como ritéiwa, voltam a viver com os pais. É o tempo de casar. No warã (centro da aldeia onde acontecem todas as reuniões e cerimônias) é que nós conhecemos nossa futura esposa. A mãe leva a filha para conhecer o esposo. Essa tradição é antiga. Nós seguimos essa tradição. Não casamos pela nossa vontade, seguimos a orientação dos nossos pais. Nossa sogra faz um bolo de milho para apresentar à filha.

        Nossos ancestrais não deixaram papéis para nós. Temos a história na memória. Só na memória. É mesmo assim com a palavra, mantemos a nossa palavra viva. Contando um para o outro. A palavra, de uma geração para a outra geração. Eu sigo essa tradição de transmitir a cultura através da palavra. Mesmo sozinho, mesmo cercado pelos warazu.
        É assim que estou contando para vocês. Como vivemos.

        Que vocês possam ouvir nossas palavras enquanto eu ainda estou vivo.
        Estou aqui com a verdade, para doar o mais verdadeiro de minha tradição. Isso dói no meu coração. Me traz dúvida e dor. Por que não sei se vocês vão ser capazes de compreender o que eu trago para compartilhar.

        Eu me chamo Sereburã. É assim que eu vou falar sobre a minha tradição.
        Ãné!

Palavras de um dos índios mais velhos da aldeia Pimentel Barbosa. Leia mais no livro Wamrêmé Za' ara - Nossa palavra, Editora Senac.