Inglês com os cangurus

Mais barata, a Austrália atrai cada vez mais brasileiros interessados em estudar.

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Inglês com os cangurus

Na primeira semana, você pode até estranhar se alguém o convidar para ir ao Maccas. Aceite sem medo, não vai pesar no bolso. Assim como em qualquer grande cidade do mundo, há Maccas em qualquer esquina australiana a diferença é que, ali, o velho McDonalds ganhou um apelido diferente. Não é um caso único de brincadeira com a língua.

Cruzar o mundo para aprender inglês na Austrália pode parecer uma idéia meio arriscada a quem tem os sotaques britânico ou americano como referência, mas, a julgar pelos números, cada vez mais brasileiros estão deixando o preconceito de lado e encarando um dia a mais de viagem para estudar na terra dos cangurus. É fácil descobrir que uma das razões é o custo de vida mais baixo; apenas a Nova Zelândia é mais barata para quem ganha em real. Por outro lado, a Austrália oferece a possibilidade de conciliar estudo e trabalho, ao contrário do vizinho.

O bolso, porém, não é única coisa que pesa na decisão. Clima, estilo de vida, a espontaneidade do povo e as praias são constantemente comparadas ao Brasil. "Eles têm todas as coisas boas e mais a segurança. O povo é até mais aberto, talvez por causa da segurança maior. Não tenho medo de andar na rua à noite", diz Giovanna Sacchetin, 21, formada em hotelaria, que está há quatro meses em Brisbane, no sudoeste do país.

Giovanna é uma das brasileiras que descobriram a capital de Queensland quando resolveram fugir da concentração de brasileiros que invadiu Sydney nos últimos anos. "Minha primeira opção era morar na capital, mas todo mundo falou que eu iria me arrepender, até a agência de intercâmbio. Uma amiga que está morando lá diz que ouve português por todos os lados", conta a estudante.

De olho nessa insatisfação, a cidade e as escolas de Brisbane estão tentando chamar a atenção e mostrar as vantagens de sair do lugar comum. Mas o fato é que as duas cidades tem prós e contras.

Sydney, 4 milhões de habitantes, cresceu em torno de uma baía linda, com arquitetura interessante e um skyline de arranha-céus, tem praias bonitas e noites animadas. Emprego também não é difícil, mas é preciso se sujeitar ao que o nível de inglês permite, o que pode incluir lavar prato e fazer faxina.

Sydney perde nos quesitos impessoalidade, custo de vida mais alto e clima. Apesar do número de brazucas, também é muito fácil se sentir sozinho. Aluguel, comida e transporte são mais caros e nem por isso se ganha mais; venta muito e faz frio de verdade. Só durante os meses de verão é que o calorão dá as caras.

Brisbane tem 1,6 milhão de habitantes; cresceu em volta do rio, é linda, com vida noturna agitada, ótimos restaurantes e boas lojas, mas ainda conserva um clima de interior. A maioria dos estudantes nem usa transporte público (o que é uma boa economia) para sair ou ir à escola.

A cidade não tem praia, mas fica perto do litoral mais agitado da Austrália, que inclui Sunshine Coast, Gold Coast, Byron Bay e Fraiser Island, a uma hora de trem. Seu clima é de verão a maior parte do ano, e o frio é bem mais ameno.

Para compensar a falta de praia, a prefeitura construiu um parque com praia artificial à beira do rio, onde os brasileiros costumam se reunir no final de semana para comer churrasco e tomar sol. "É o nosso piscinão de Ramos, só que cheio de loiros e japas", brinca Camila Hárumi Basseto, 20, há três meses na cidade.

A maior reclamação dos estudantes é a dificuldade de arranjar emprego, mesmo que seja para lavar prato. Quem vem para ficar um ano também diz que a cidade parece ficar pequena, com os mesmos lugares para ir e as mesmas caras.

Atenção na escolha A escolha da cidade é tão importante quanto a da escola e obter antes todas as informações possíveis é fundamental para não ter nenhuma surpresa desagradável na chegada.

Não adianta contatar as escolas diretamente, pelo menos para fechar os preços. As agências de intercâmbios mantêm negociações que garantem descontos exclusivos. Isso quer dizer que um curso que custa US$ 250 por semana no site da escola pode sair por US$ 180 ou menos. Mas vale a pena dar uma boa pesquisada, principalmente para checar a infra-estrutura e os diferenciais de cada escola.

Não tenha medo de abrir o horizonte de consulta. "Meu irmão mandou e-mail para umas 20 escolas, recebemos algumas respostas e a melhor proposta era de uma agência de Sorocaba", diz Dante Luiz Fagnani, 24, que é da cidade de São Paulo.

Dante diz que, além de todo o suporte necessário, a agência ofereceu a melhor escola com um preço imbatível e deu garantia de que não iria estudar numa sala cheia de brasileiros.

Camila Schimidt, 23, formada em turismo, diz que não teve tanta sorte. "Eu acabei indo pelo caminho mais fácil, era uma agência grande, conceituada, não me dei ao trabalho de pesquisar muito. Aceitei a única escola que a agência me ofereceu, e o lugar tem uns 50 brasileiros. Há turmas que chegam a ter até cinco em cada classe", diz Camila.

O mercado brasileiro ainda é microscópico se comparado ao de países como Japão e Coréia, mas as escolas têm interesse em garantir uma grande diversidade de origens na sala de aula. Muitas têm preços mais baixos para países da América Latina e do Leste Europeu e não poupam esforços para atrair brasileiros.

"Eles são desinibidos, não têm vergonha de falar dentro da sala de aula, de cometer erros, fazem perguntas, questionam, levantam o nível de aprendizado e beneficiam a turma toda. Os professores adoram ter esse tipo de aluno dentro da sala de aula", diz Ron Porep, da Russo Institute of Technology, em Brisbane. Por outro lado, continua, chegam atrasados à aula, principalmente às sextas-feiras, porque às quintas a bebida custa a metade do preço no Friday's (boate) -e eles não perdem nunca.

Algumas escolas estão tentando se diferenciar na prestação de serviço, oferecendo, por exemplo, ajuda na hora de procurar emprego. Quem estuda por um mínimo de 12 semanas, tem auxílio na montagem do currículo, orientação e garantia de entrevistas em até quatro semanas. Não significa que o emprego seja garantido, mas é uma boa ajuda para começar, até porque a iniciativa é gratuita.

A jornalista Mariliz Pereira Jorge estudou inglês por duas semanas na Russo Institute of Technology a convite da Just intercâmbios.

(Revista da Folha de S. Paulo - 04/01/04)

Fala rápida e difícil

O forte sotaque australiano não é lenda, e são comuns as piadas (de ingleses e americanos) com a pronúncia de australianos e neozelandeses -apesar de os dois vizinhos, cuja rivalidade é semelhante à de Brasil e Argentina, fazerem questão de se declarar bem diferentes.

A verdade é que as primeiras semanas na terra dos cangurus podem deixar perdido até quem já não é mais estreante na língua de Shakespeare. Os australianos falam rápido, engolem as últimas letras, encurtam as palavras, emendam uma na outra e ainda inventam novidades que acabam se incorporando à linguagem e que provavelmente não serão encontradas em nenhum dicionário britânico ou americano.

"Às vezes, eu não entendo o que eles falam e acho que eles também não me entendem. No telefone, tenho que soletrar algumas palavras", diz a americana Mercedes Duff, 22, que está no país pela terceira vez. "Mas é interessante e eu percebo como eles se divertem com a língua", diz.

A dificuldade no primeiro mês é normal e poderia acontecer também nos EUA ou na Inglaterra, dizem os australianos. Além disso, as boas escolas também têm professores ingleses, americanos e neozelandeses. "Essa diversidade é importante e ajuda o aluno a aprimorar a capacidade de compreensão, treinar o ouvido", analisa Ron Porep, coordenador de inglês da Russo Institute of Technology, em Brisbane.

A preocupação em "pegar" o sotaque australiano não tem fundamento, segundo os professores. "Leva-se tempo para que uma pessoa assimile e incorpore um sotaque específico, seja ele qual for. Os alunos têm um jeito próprio e o ritmo tradicional da língua nativa e conservam isso sempre. Por isso é fácil reconhecer o inglês-japonês, o inglês-espanhol e o inglês-brasileiro", analisa Vincent Bastick, da Universal SGV Sydney.

Os estudantes brasileiros concordam. "Antes de falar como um australiano, eu teria de perder o meu sotaque brasileiro", diz Ricardo Fiot, 27, engenheiro de telecomunicações de São Caetano, no ABC, há cinco meses em Brisbane. "Tenho colegas que já estudaram na Inglaterra ou no Canadá e nem por isso falam diferente de mim."

(Revista da Folha de S. Paulo - 04/01/04)

Mazelas do bico

A legislação australiana permite até 20 horas de trabalho por semana para quem tem visto de estudante. Como muitas empresas preferem contratar quem tem mais flexibilidade de horários, não é difícil topar com um asiático de inglês capenga num emprego melhor que o seu. Eles levam vantagem porque a Austrália mantém um acordo de "working holiday" com países como Japão, Coréia e Alemanha, o que permite que seus cidadãos passem até um ano no país apenas trabalhando, com a única obrigação de mudar de emprego a cada três meses.

Para os brasileiros, resta se contentar com as 20 horas semanais e as vagas que não atrapalhem o curso. Quem tem visto de estudante tem de manter presença superior a 80%, ou corre o risco de ser mandado de volta para casa.

Os estudantes que recebem ajuda dos pais e arranjam trabalho conseguem aproveitar mais. Os que vêm com os reais contados e querem ficar mais tempo -a grande maioria têm que dar duro para estender o visto. A pretensão implica pagar um novo curso (para manter o visto de estudante e o direito de trabalhar) e uma taxa de 400 dólares australianos para a Imigração.

A maioria dos que chegam com visto de estudante acaba descobrindo depois que devem procurar a Imigração para mudar sua condição e trabalhar. Ou seja, além dos 771 dólares australianos cobrados no Brasil, deve pagar mais uma taxa de 55 dólares pela mudança. Leva cinco minutos, mas quase nenhuma agência de intercâmbios avisa na hora de vender os cursos.

Prepare-se também para dar uma "maquiada" no currículo. "Tive que tirar coisas legais do meu currículo e mentir que já havia feito serviços domésticos ou de garçonete. Tudo para me 'adaptar' ao mercado, não é incrível?", diz Ana Paula Gastaldo, 22, administradora de empresas.

(Revista da Folha de S. Paulo – 04/01/04)