Preço e terrorismo mudam rota de intercâmbio

Malta, África do Sul, Argentina, Cuba e Equador têm sido cada vez mais procurados por aqueles que querem fazer intercâmbio. Questões financeiras (custo do dólar e do euro) e ideológicas (dificuldade para obtenção do visto e medo de atentados terroristas), além da busca por lazer, deram fôlego a países que até então estavam fora do circuito tradicional.

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Preço e terrorismo mudam rota de intercâmbio

Malta e África do Sul caíram nas graças dos intercambistas interessados em aprender inglês, assim como Argentina, Cuba e Equador, países emergentes no catálogo das operadoras que oferecem cursos de espanhol.

Questões financeiras (custo do dólar e do euro) e ideológicas (dificuldade para obtenção do visto e medo de atentados terroristas), além da busca por lazer, deram fôlego a países que até então estavam fora do circuito tradicional.

"O atrativo de Malta é ser uma região de colonização inglesa em pleno mar Mediterrâneo, perto da costa da Itália e da Grécia", diz Alan Mintelmão, da Just Intercâmbios. O clima foi o que atraiu a economista Adriana Ribeira, 29. "Gosto de lugares exóticos. Pensei no Canadá, mas, além de achar pouco interessante, não queria passar frio", diz ela.

Os estudantes brasileiros "descobriram" a ilha de Malta há pouco tempo, e a procura tem crescido bastante. Segundo a Belta (Brazilian Educational & Language Travel Association), o número de estudantes brasileiros que foram ao país dobrou desde 2002.

A África do Sul também entrou no circuito recentemente e promete repetir o fenômeno que ocorreu com a Austrália nos anos 90, quando o país se juntou à rota de intercâmbio. A opção de fazer safáris e de visitar uma praia cheia de pingüins, programa obrigatório para quem vai à Cidade do Cabo, conta pontos a favor.

África do Sul, Malta e alguns países latino-americanos apresentam, além de estabilidade social, custos mais baixos. O pacote do curso de um mês em Malta, com passagem, hospedagem e alimentação, chega a custar a metade de um equivalente em San Diego, nos EUA.

Em baixa
Logo depois dos atentados de 11 de setembro, as agências registraram uma queda de 30% nas viagens para os Estados Unidos; atualmente, a procura pelo país ainda está 5% mais baixa que em 2001, antes dos ataques. Exigências para a obtenção do visto e o fantasma do terrorismo, que ainda ronda o país, são algumas das razões. "Não apóio a política americana nem os milhões de empecilhos que eles colocam para conceder o visto", diz Fabiana Wada, 26, que optou pela África do Sul.

Já o Canadá, que nos anos 90 se firmou como alternativa para o ensino de inglês, registrou queda de 15% no ano passado por causa dos focos de gripe asiática em Toronto. "Em 1999, com a valorização do dólar, as pessoas passaram a procurar locais com preços mais baixos e câmbio favorável", diz Cesar Bastos, da agência Integrity.

Na Espanha, o medo de novos atentados terroristas pode fazer com que o país seja preterido.

(Folha de S. Paulo – 21/03/03)

Opção por América Latina dobra em três anos

A crescente procura pelo aprendizado do espanhol, idioma que já se tornou obrigatório no currículo da maioria dos profissionais, e os altos preços da Europa pós-euro levaram à abertura de uma nova fronteira para os cursos no exterior. A Argentina, o Chile, Cuba e até mesmo o México e El Salvador têm sido mais procurados pelos brasileiros.

De acordo com dados da Belta, o número de alunos que vão para esses países dobrou nos últimos três anos, enquanto a procura pela Espanha permaneceu praticamente estável. Operadores e donos de agências destacam o preço como o grande atrativo para quem opta por aprender espanhol na América Latina.

Um mês em Buenos Aires, por exemplo, já contabilizados os preços de passagem, curso, hospedagem e alimentação, custa cerca de US$ 1.000. Viajar para a Espanha significa um gasto de cerca de US$ 700 só com passagem aérea. Quem for à Europa também vai precisar desembolsar mais se resolver sair para jantar, visitar museus e viajar nos fins de semana.

Três horas e meia de vôo
"Escolhi a Argentina Córdoba porque dispunha de apenas uma semana e tinha acumulado milhagem suficiente para uma passagem aérea para a América Latina. Gastei US$ 350 com o curso o pacote inclui também hospedagem e meia-pensão e mais US$ 100 com despesas gerais", conta o carioca Renato Martins, 49, para quem a proximidade geográfica (três horas e meia de vôo, em comparação com as dez horas para Madri) foi decisiva na hora da escolha. "Gastaria o mesmo se optasse por um final de semana caprichado em Búzios."

Outra alternativa é ir para Cuba, e os fatores que pesam não são nem o medo de atentados nem os preços mais baixos. "Quem procura as agências querendo ir para lá não tem outro destino em mente: quer Cuba e pronto", afirma Cláudia Farina, da SIP Travel.

Foi o caso da advogada Elisa Vasconcelos, 43. "Meu objetivo era visitar Cuba e resolvi aproveitar a viagem para fazer um curso de espanhol. Gosto de me misturar com as pessoas e de conhecer os seus costumes. Aprender o idioma é uma das melhores maneiras de fazer isso", diz ela, que também fez aulas de dança no período em que ficou na ilha.

(Folha de S. Paulo – 21/03/03)

Fluência conta pontos; destino escolhido não

Quem opta por destinos alternativos não precisa ter medo de ser preterido na hora de conseguir um emprego. Profissionais e consultores de recursos humanos afirmam que já se foi o tempo em que fazia diferença o país ou a escola em que o candidato estudou.

"O que importa é ele voltar falando fluentemente o inglês, o espanhol ou outro idioma", diz Osni de Lima, vice-presidente de RH da Rhodia.

A opinião é reforçada por Karin Parodi, da Career Center. "Não olhamos apenas o país de destino, mas, sim, o que a pessoa fez, os desafios que enfrentou e o que aprendeu."

O gerente de recursos humanos da DirecTV, Alberto Walter, lembra que, em alguns casos, trocar o tradicional pelo inusitado pode ser vantajoso.

"Se o trabalho exige criatividade e uma visão de mundo ampla, o profissional pode se beneficiar do fato de conhecer culturas e países exóticos."

(Folha de S. Paulo – 21/03/03)