Blogs transformam-se em diários de bordo

Julia Dietrich

Nos últimos anos, os antigos diários de bordo vêm ganhando dimensão virtual. Com o advento da tecnologia, blogs e sites de relatos e dicas de viagem são cada vez mais populares entre os internautas. Ora como prestação de serviço à comunidade de viajantes, ora como acervo de memórias, esses instrumentos reúnem uma característica comum: a vontade de narrar as proezas, alegrias e dificuldades presentes nas jornadas dos intercambistas pelo mundo.

O advogado e “mochileiro” Geraldo Vidigal Neto montou um blog para contar as peripécias da viagem que tem feito desde 23 de maio e terminará no começo de agosto. Ele já percorreu Portugal, Espanha, Holanda e boa parte do Leste Europeu. “Eu criei o blog na cidade do Porto, em Portugal, primeiro local que visitei, e o nome acabou meio intuitivo: Impressões Transatlânticas. Nele, tento fugir do óbvio, da foto do cartão postal, do comentário saído de uma assessoria de imprensa ou de um professor de atualidades. Quero dar uma marca pessoal, onde se reconheça uma pessoa de verdade”, conta.

Vidigal busca também escrever sobre aquilo que não está tão bem mapeado para os viajantes. “Durante a viagem, principalmente durantes a hospedagem em albergues, acabo conhecendo várias pessoas que trocam informações sobre lugares, experiências de vida pessoal e prováveis dificuldades a serem enfrentadas durante o percurso”, conta.

Para gerente de produtos da CI, Suzana Negrão, os blogs de viajantes funcionam inclusive como material para a própria agência. “Nós consultamos sempre o que os turistas narram para melhor organizar nossas propostas e projetos. É um instrumento super importante para partilhar informações sobre viagens e características de diferentes localidades que nem sempre são divulgadas pela mídia”, conta.

Nesta perspectiva, a CI montou um concurso no qual os participantes narravam suas histórias de viagem. O premiado, Eber Guni do Nascimento Santos, que viajou por 31 dias para Inglaterra, Escócia, Irlanda do Norte, Irlanda e País de Gales, narrou em detalhes todo seu percurso, lugares que visitou e pessoas que conheceu. “Cheguei a ter 18 comentários por postagem, além de vários recados no Orkut das pessoas que comentavam o que eu contava, inclusive gente que eu não conhecia”, celebra, pontuando que falhas do servidor impediram que o número de comentários fosse ainda maior.

Para ele, além do caráter informativo para outros viajantes, o blog virou um registro pessoal, um álbum de memórias. “As pessoas me perguntam da viagem e eu dou o endereço do blog. Depois elas vêm e comentam o que acharam. É diferente de contar, pois com o tempo vamos esquecendo detalhes”, explica, Santos, que pretende aproveitar o material para transformá-lo em livro.

Sem condições financeiras de empreender viagens de luxo, Santos, que é técnico de manutenção de máquinas de inspeção de vidro, sempre fez o maior esforço para viajar e é um grande adepto de experiências do tipo “mochilão”. Inclusive, a redação que lhe rendeu a ida à Grã-Bretanha foi sobre uma enorme expedição que empreendeu com uma amiga por nove países, entre eles Grécia, Alemanha, e até passeios pelo Saara e por Marrocos. “Porém, nessa época nós acampávamos em barracas ou ficávamos nos albergues. Percorremos boa parte de carona e comíamos pouco. Tudo para fazer o dinheiro render e viajar mais”, conta, lembrando que nessa época os cybercafés eram dispensados. “Não dava para alimentar um blog porque custaria dinheiro que poderia ser gasto em outras coisas”, lembra.

Também com a perspectiva de viajar sem gastar muito, Vidigal alimenta pelo menos uma vez por semana seus relatos de viagem, sempre comentados pelos seus amigos e parentes que o acompanham daqui do Brasil. Segundo ele, a idéia de empreender viagens desse tipo é bastante comum entre os jovens do exterior. “O que no Brasil parece uma aventura fantástica, passar alguns meses com uma mochila nas costas, é uma experiência corriqueira nos países do Norte Europeu. Essa pressão de que você tem que entrar no mercado de trabalho o mais rápido possível e que esse mercado vai lhe abandonar na sarjeta se por um instante você tirar um tempo para viver a vida, é uma coisa bastante brasileira”, explica Vidigal.

A experiência de viajar o mundo fomentou no jovem o desejo de estudar Relações Internacionais na Espanha. “Conhecer o outro é fundamental para desfazermos preconceitos e construirmos nossos próprios caminhos”, conclui.

Postado em 25/07/07


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