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Turistas brasileiros são humilhados e deportados dos
EUA
Nenhum estrangeiro, de qualquer parte do mundo,
deve acreditar que ter um visto para os Estados Unidos é
garantia de que vai entrar no país. Após ataques
de 11 de setembro de 2001, os americanos endureceram as leis
de segurança interna, principalmente as de imigração.
No fim de semana passado, alguns brasileiros puderam sentir
isso: eles foram embarcados de volta, antes mesmo de sair
do Aeroporto de Dallas (Texas), após passarem por situações
de constrangimento.
No domingo,
o avião que levaria a médica mineira Márcia
Barbosa, de 49 anos, para Chicago, onde faria um curso de
três dias no American College of Cardiology, fez escala
em Dallas. Com o visto da categoria B2, para turistas, ela
achou que não teria problemas, como nunca teve em 20
anos de viagens aos Estados Unidos para participar de congressos.
“Fiquei
surpresa quando fui informada que precisava de um visto de
trabalho, o B1. Fui então encaminhada para uma sala,
da qual só podia sair para beber água ou ir
ao banheiro, acompanhada por um policial. Nesta sala, eu e
mais três brasileiros um médico que também
ia para um congresso e dois executivos, fomos interrogados
como criminosos”, conta Márcia.
Após
longas discussões entre o pessoal da imigração,
decidiu-se que os quatro seriam mandados de volta, sem direito
a falar com um advogado. “Só depois de muita
insistência nos deixaram telefonar a cobrar para casa.
Durante as 13 horas que permanecemos no aeroporto, a American
Airlines nos mandou um sanduíche.” Márcia
lembra que ela e os outros brasileiros foram embarcados com
escolta. “Nunca me senti tão humilhada”,
lamenta.
Jornalistas
A médica não sabia, mas dois jornalistas brasileiros
haviam passado exatamente pelo mesmo drama no dia anterior.
Luís Antonio Giron, da revista “Época”,
Alexandre Maron, da “Monet”, e Rodrigo Salem,
da “Set”, estavam a caminho de Los Angeles para
assistir ao filme “Matrix 3”, a convite da Warner,
quando fizeram uma escala em Dallas. Salem foi logo dispensado,
mas Giron e Maron não. O jornalista da “Época”
conta que foi interrogado por mais de seis horas, revistado
e colocado numa cela. “Passei por um verdadeiro inferno
das 6h30 às 7h45, quando nos mandaram de volta sob
escolta, e ainda cancelaram nossos vistos.”
No avião,
segundo Giron, seus documentos foram entregues a um comissário
de bordo, que não queria devolvê-los durante
o vôo. “Aí eu exigi, e me deram os documentos.
O pior é que, quando desembarcamos em Guarulhos, uma
funcionária de terra da American Airlines nos levou
até o guichê da Polícia Federal. Para
que, não sei até agora.”
Maron
disse que seus problemas começaram quando ele disse
que era jornalista. “Eles disseram que, se eu fora para
ver o filme, então não era turismo e que meu
visto devia ser o de jornalista. E não há argumento
contrário que os convença. Eles são truculentos,
não dão bola para o que você fala.”
O jornalista
da “Set” diz que o processo já parece “institucionalizado”.
“O pessoal da American Airlines é conivente com
eles”, acredita.
Giron
e Maron não pensaram ainda se vão tomar providência.
“A única coisa que vou fazer por enquanto é
escrever sobre o assunto”, diz Giron.
(Diário
de S. Paulo – 24/10/03)
Revista atinge 10%
dos passageiros, diz consulado
O consulado do Brasil em Houston (em Dallas não há
representação do país) não foi
informado do que aconteceu com os brasileiros, segundo a vice-cônsul,
Flávia Passos. “Mesmo que soubéssemos,
não havia muito o que fazer”, diz ela. “Depois
dos ataques, eles ficaram muito rigorosos. Selecionam 10%
dos passageiros dos vôos internacionais para interrogatório
e, se decidirem que a pessoa não pode entrar no país,
mesmo se estiver com os documentos em ordem, não entra
mesmo. Visto de turista não serve para quem vai participar
de feiras e congressos, por exemplo”, explica.
A cônsul-adjunto
do Brasil em Los Angeles, Marisol Romans, acrescenta que “visto
não é direito de entrada, mas expectativa”.
“É uma prerrogativa do país de não
permitir a entrada de um cidadão. E não adianta
acionar judicialmente o Governo americano. Não há
instância do Governo brasileiro que possa fazer isso.”
Marisol acha que é preciso conscientizar o brasileiro
de que, na hora de tirar o visto, deve-se colher o maior número
de dados sobre as exigências.
O Itamaraty
também diz que não há nada que se possa
fazer e que casos como esses já são rotina.
“O Brasil só pode usar o princípio da
reciprocidade, nada mais”, adverte o secretário
de imprensa do órgão, Marcos Campos.
(Diário de S. Paulo – 24/10/03)
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