Histórias de intercambistas são sempre uma surpresa

Além de conhecer outras culturas, estudar e fazer novos amigos, os intercambistas sempre voltam para casa com várias histórias para contar. Do choque cultural a peripécias vividas, as narrativas vão de muito engraçadas a outras nem tão divertidas assim.

O estudante de Direito Olavo Bernardes, que, quando adolescente, viveu por um ano em Melbourne, na Austrália, teve uma experiência bem diferente do que esperava encontrar. No lugar de uma família tradicional australiana, ele acabou na casa de uma chinesa que mal falava inglês. “Mas, foi muito bom. Acabei conhecendo toda comunidade chinesa da região”, lembra. “O problema é que eu que fui para melhorar meu inglês, acabei foi ensinando a minha mãe e a família dela. É interessante ver que muitos dos imigrantes chineses não deixaram o mandarim, mesmo morando na Austrália há 40, 50 anos”, completa.

O estudante Renan Caleffi de Oliveira (www.viagemeua.blogspot.com) fez intercâmbio para trabalhar e obter fluência no inglês. Para isso, morou em Big Sky, nos Estados Unidos. Assim como Bernardes, a sua acomodação também não foi exatamente o que esperava. “No meu primeiro dia na cidade conheci meu parceiro de quarto. Fazia menos de uma hora que estávamos dividindo o mesmo teto quando ele me mostrou um revólver. Ele era da Pensilvânia, e além daquele revólver ele guardava uma sniper (arma de alta precisão) e pólvora na sua caminhonete. Embora eu já soubesse que os americanos costumam ter armas em casa, fiquei desconfiado nos primeiros dias, mas conforme o tempo passou, me acostumei com aquilo, principalmente depois de ver armas e munições sendo vendidas em mercados, junto com comida e fraldas para bebês”, conta.

Porém, nem sempre as histórias com família são positivas e promovem a integração ou, como no caso de Oliveira, acabam com todos os personagens saudáveis e vivos. Para a gerente de produtos da CI, Luiza Vianna, alguns cuidados são necessários para garantir uma boa estadia fora do país. “A questão da acomodação é algo com que o brasileiro se preocupa bastante e por isso, o respaldo de uma agência é sempre importante. Em caso de problemas ele vai ter a quem recorrer”, explica.

Porém, para Vianna o desfecho positivo de uma situação depende muito da disponibilidade do intercambista. “Nós alertamos nossos jovens sobre as prováveis diferenças que eles encontrarão. A comida não é a mesma, a rotina da casa e a limpeza também não. Mas, se ele estiver disposto a conhecer outra cultura, a experiência será muito positiva”, garante.

Além do episódio com o revólver do colega de quarto, Oliveira lembra de outras pessoas estranhas com quem conviveu e encontrou durante sua jornada. “Uma vez vi um senhor deitado na neve, gemendo e se contorcendo. Pensei que estivesse tendo um ataque e fui até ele perguntar se estava tudo bem. Ele me explicou que sim e que ele costumava deitar na neve para tentar sarar de uma dor nas costas. Ficou feliz por eu ter parado para ver qual era o problema e começou a me falar sobre como tratar as mulheres”, lembra, sem conseguir conter o tom de esquisitice da experiência.

Viagens com amigos

A moradia adequada é também um problema a ser avaliado quando o intercambista pensa em viajar com os amigos. Bernardes foi com um outro brasileiro para a Gold Coast, famoso reduto de jovens brasileiros na Austrália, porém a cidade estava vazia e todos haviam ido para um festival de jazz em uma aldeia na cidade de Berimbay. Decididos a não ficar de fora, Bernardes e o amigo foram até o local com o objetivo de passar apenas dois dias. O saldo final foi ficar sem tomar banho e com apenas duas mudas de cuecas para uma semana inteira, além de dormir em uma barraca de um acampamento improvisado. “Foi uma loucura, mas quando encontrava outras pessoas, elas me falavam ‘ah, você só está há uma semana sem banho. Eu estou há duas’”, ri.

A estudante Élora Pattaro que também fez intercâmbio para Austrália decidiu viajar com uma amiga holandesa para a região da barreira de corais. Mesmo alertadas de um provável furacão, as duas meninas saíram para festas e passearam a noite, sentindo apenas um vento estranho. No dia seguinte, foram acordadas por um alto-falante que insistia que ninguém saísse dos quartos do albergue em que estavam hospedadas. “Corremos para a varanda e descobrimos que a cidade estava um caos pelo vento. Foi aí que descobrimos também que os australianos adoram a época dos furacões e põe todos as cadeiras na varanda para assistir o peculiar espetáculo”, lembra.

Falsos cognatos e costumes locais

Além das histórias das pessoas que conheceu, Oliveira, que trabalhou como recepcionista em um hotel, conta que a própria língua inglesa acabou lhe pregando peças. “Uma hóspede me telefonou por engano e pediu que eu desligasse o telefone. Desligar, em inglês, é Hang Up. Mas eu sempre achei que Hang Up significasse "atender o telefone", e não desligar. Ela ficou um tempão dizendo Hang Up, e eu respondia: estou tentando, não estou conseguindo! Ela ficou nervosa, depois riu e depois voltou a ficar nervosa. Perguntava qual era a dificuldade de se desligar um telefone, e eu não sabia o que lhe responder”.

Jefferson Stafusa, físico da Universidade de São Paulo (USP), morou em Austin, capital do Texas, nos Estados Unidos, para concluir uma pesquisa da pós-graduação, também teve uma experiência semelhante. Ao tentar comprar pão em um mercadinho local, ele não conseguia se fazer entender, mesmo que a palavra fosse comum no seu vocabulário. “Não sei se as atendentes estavam de má vontade ou se realmente não conseguiam entender o que eu dizia, mas, no final, tive que me virar sozinho”, conta.

Porém, a sua experiência no exterior lhe rendeu bem mais do que algumas aventuras lingüísticas e a conclusão do doutorado: Stafusa casou-se com uma colega alemã que também trabalhava no laboratório norte-americano. “No começo eu interpretei errado a nossa relação. Ela me chamou para ver um filme na sua casa e eu entendi que ela estava me paquerando, quando, na verdade era só uma atividade normal entre amigos. Mas, com o tempo nossa amizade virou paixão e casamento”, comemora.

Postado em 31/10/07


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