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Maioria dos professores brasileiros não
navega na internet nem usa correio eletrônico
O
computador e a internet são hoje importantes ferramentas
para auxiliar na educação de crianças e jovens.
Apesar disso, a maioria dos professores brasileiros não usa
correio eletrônico (59,6%), não navega na internet
(58,4%) nem se diverte com seu computador (53,9%).
Esses dados,
que mostram uma oportunidade de atuação para os investidores
sociais privados, foram revelados pela pesquisa O Perfil dos Professores
Brasileiros: o que fazem, o que pensam, o que almejam..., realizada
pela Unesco, em parceria com o Instituto Paulo Montenegro, o Instituto
Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) e o Ministério
da Educação, e publicada pela Editora Moderna. O levantamento
identificou que as condições de trabalho e a situação
social dos docentes devem ser urgentemente melhoradas.
Foram entrevistados
5.000 profissionais do ensino fundamental e médio de escolas
públicas e particulares dos 27 estados brasileiros. Os dados
sobre uso da internet fazem parte do item “Participação
dos professores em eventos e atividades culturais”, do capítulo
“Perfil dos Professores”, e traz também números
sobre freqüência a museus e teatros, participação
em seminários de especialização, leitura de
jornais e revistas e preferências culturais, entre outros.
A pesquisa completa pode ser comprada pelo site
da Unesco.
Para Sérgio
Mindlin, diretor-presidente da Fundação Telefônica
– que atua nas áreas de educação e inclusão
digital –, a situação poderia ser pior. “As
informações são muito alentadoras, se comparadas
com os dados da população brasileira. Sabe-se que
não mais de 10% têm acesso à internet e ao e-mail.
Portanto, se cerca de 40% dos professores usam correio eletrônico
e navegam na rede mundial de computadores, vê-se que é
um grupo diferenciado.”
Por que os outros
60% não usam? Para Mindlin, entre os principais obstáculos
estão o custo do computador para compra individual, o ainda
baixo número de escolas que têm salas de informática
e o acesso restrito a esses espaços, quando existem. Mas
o mais importante é a falta de uma capacitação
inicial para que os docentes percam o medo da tecnologia e usem
as ferramentas disponíveis.
O site
EducaRede tem como objetivo quebrar o gelo entre os professores
e a tecnologia. Iniciativa da Fundação Telefônica,
do Cenpec (Centro de Estudos e Pesquisas em Educação,
Cultura e Ação Comunitária), da Fundação
Vanzolini e do provedor Terra, ele leva os docentes que nunca utilizaram
a internet e o correio eletrônico a utilizá-los na
preparação de suas aulas.
Entre os serviços
oferecidos estão treinamentos pela internet, material de
apoio para projetos educacionais, indicações de sites
da área, fórum de debates, intercâmbio entre
escolas, notícias, dicas de utilização do computador
(glossário de termos, segurança, operação
de softwares etc.) e uma biblioteca com dezenas de títulos
eletrônicos.
“Uma oficina
de quatro horas de duração, como O EducaRede vai à
Escola, é suficiente para estimular o uso. Verificamos que
professores que passaram por essa oficina continuam usando o portal
meses após a realização. Em paralelo, as questões
de infra-estrutura devem ser resolvidas, preferencialmente, no espaço
da própria escola, com investimento público em computadores
e conexão à internet”, afirma Mindlin.
Formação
– De acordo com a pesquisa da Unesco, os professores enxergam
a educação principalmente para formar cidadãos
conscientes (72,2%) e desenvolver a criatividade e o espírito
crítico (60,5%). “O pressuposto da educação
para o desenvolvimento da cidadania se instala com muita força
a partir dos anos 80 e aparece como recomendação nas
orientações em documentos oficiais a partir dessa
época, como é o caso da Proposta Curricular para o
Ensino Fundamental, de 1985, e dos Parâmetros Curriculares
Nacionais, elaborados de 1997 a 2002”, comentam Maria do Carmo
Brant de Carvalho, coordenadora geral do Cenpec, e a pedagoga Maria
Amábile, que atuou na gestão nacional da política
de educação entre 1995 e 2003.
Porém,
no que diz respeito às práticas pedagógicas
vivenciadas na maioria das escolas, ainda predominam modelos tradicionais,
o que evidencia uma certa contradição entre o que
se deseja e o que se realiza. Não é por acaso que
uma das recomendações da pesquisa da Unesco é
investir na valorização e na formação
continuada dos professores.
“Uma análise
crítica dos resultados do Saeb (Sistema Nacional de Avaliação
da Educação Básica), por exemplo, nos mostra
que, na média, os alunos brasileiros mal sabem ler, escrever
e fazer as quatro operações matemáticas, condições
básicas para se chegar às finalidades declaradas pelos
professores. Isto se deve à baixa qualidade do ensino, que
não só parece ser insuficiente para desenvolver as
habilidades mais básicas nos alunos, como também dificilmente
consegue desafiá-los o suficientemente para desenvolver a
consciência crítica e a criatividade”, avalia
Ilona Becskeházy, diretora executiva da Fundação
Lemann e conselheira do GIFE.
Muitas empresas,
institutos e fundações já trabalham para reverter
este quadro, promovendo reconhecimento público dos docentes
que se dedicam a criar experiências inovadoras dentro da sala
de aula, como é o caso do Prêmio Professor Nota 10,
da Fundação Victor Civita, do Prêmio Incentivo
à Educação Fundamental, da Fundação
Bunge, e do Prêmio Qualidade na Educação Infantil,
da Fundação Orsa, entre outros. Além disso,
um grande número de organizações do terceiro
setor investe em programas para formação continuada.
Na rede GIFE, por exemplo, 42% dos associados desenvolvem programas
e projetos voltados para os professores.
“É
fundamental continuar a propor políticas educacionais que
atinjam os docentes em larga escala e que promovam seu desenvolvimento
profissional, instrumentalizado-os para construírem, na prática,
aquilo que está claro na mente e no desejo de muitos”,
afirmam Maria do Carmo e Maria Amábile.
Ambiente de
trabalho – De um modo geral, os professores concordam com
as idéias de aumentar o tempo e as possibilidades de trabalho
em equipe com outros colegas, tanto em sala de aula como fora dela
(87,6%), e favorecer a concentração da carga horária
dos docentes em apenas um estabelecimento (86,7%).
Para Maria do
Carmo e Maria Amábile, as reivindicações apresentadas
são históricas e muitas delas já estão
contempladas nos planos de carreira e salário. Elas citam
o exemplo da Secretaria Municipal de Educação de São
Paulo, onde há jornadas de 36 horas semanais distribuídas
em 25 horas de trabalho com alunos e 11 horas de trabalho pedagógico
coletivo.
Elas ressaltam
a importância da integração do trabalho pedagógico
coletivo na rotina dos professores. “Muitas vezes a ausência
de propostas consistentes acabam por minar o interesse dos docentes.
Com isto, o pagamento que recebem passa a ser interpretado com um
adicional no salário e não um compromisso a ser cumprido.
Nessas condições, muitos professores assumem outras
atividades profissionais, sobrecarregando suas jornadas de trabalho”,
afirma.
Mesmo diante
de tantas dificuldades, os professores não pensam em abandonar
a carreira. Segundo a pesquisa da Unesco, apenas 10,7% declaram
ter a intenção de se dedicar a outra profissão.
Mais da metade (50,2%) declara que sua principal aspiração
profissional para os próximos anos é permanecer na
função atual, na mesma ou em outra instituição
de ensino.
Para Maria do
Carmo e Maria Amábile, isso se dá por vários
fatores. Entre eles, elas citam a estabilidade, já que a
maioria dos professores atua na rede pública de ensino e
é efetivada por meio de concursos, e o fato de grande parte
dos docentes ser formada por mulheres. “A flexibilidade na
jornada de trabalho, de três ou quatro horas diárias
que podem ser pela manhã, tarde ou noite, favorece conciliar
a vida profissional com a pessoal.”
Mas elas destacam
o fator mais importante: a formação essencialmente
humanista dos professores. “Isso os leva a cultivarem princípios
de valorização do ser humano. Valores éticos
e ideais de poderem contribuir com a formação digna
da conduta humana que, por sua vez, são princípios
e valores que estão na base da educação escolar.”
(redeGife
- www.gife.org.br) |
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