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Professores aprendem a ensinar com a genética
Eles são
biólogos e químicos, mas há anos não
põem os pés em um laboratório. E, na correria
diária, mal conseguem acompanhar as novidades científicas.
Por isso, 56 professores de 1.º e 2.º graus da região
de Mogi Mirim acompanharam o 47.º Congresso Brasileiro de Genética,
encerrado no dia 5 de outubro.
Leia
mais:
- Professores aprendem a ensinar com a genética
- Peças de isopor, contas coloridas, tudo
pode ajudar
- Um círculo vicioso, que começa
na escola, vai à faculdade e volta para a sala de aula
Professores
aprendem a ensinar com a genética
Eles são
biólogos e químicos, mas há anos não
põem os pés em um laboratório. E, na correria
diária, mal conseguem acompanhar as novidades científicas.
Por isso, 56 professores de 1.º e 2.º graus da região
de Mogi Mirim agarraram a oportunidade de acompanhar o 47.º
Congresso Brasileiro de Genética, encerrado no dia 5 de outubro.
Eles participaram do projeto Genética na Praça - que,
por conta das chuvas, acabou sendo realizado mesmo numa sala fechada,
em Águas de Lindóia. Mas nem isso tirou o ânimo
dos professores, que voltaram a ser alunos por alguns dias.
"Se você
não forma alunos que aprendam a exigir e cobrar, o que você
ensina não tem qualidade", afirma Sílvia Regina
Rodrigues Silva, que há 9 anos dá aulas de biologia
para alunos de 10 a 19 anos em Mogi Mirim. "Eles vêem
as notícias na TV e chegam na classe perguntando o que é,
como se faz, se é certo ou errado clonar seres humanos. Meu
trabalho é estimular essa discussão e ensiná-los
a buscar informações", diz. E a professora dá
o exemplo. "Contei que vinha para Águas de Lindóia
para ter contato com cientistas, para aprender e levar idéias
novas para a sala de aula", conta.
E com recursos baratos e bem simples. "Hoje, nem a escola particular
tem como manter um laboratório e a gente precisa recorrer
às coisas mais simples", afirma Katia Marchi de Faria,
que dá aulas há sete anos na escola pública
e em uma particular de Serra Negra. Massa de modelar, por exemplo,
pode ser um excelente meio de explicar o que são cromossomos
e o que ocorre com eles na divisão celular.
Um tabuleiro
de madeira, no qual são inseridas hastes de metal com contas
coloridas, se transforma em uma maneira prática de entender
como um gene é seqüenciado. Um criativo modelo de ribossomo
mostra como o DNA produz RNA e como este último faz a síntese
de proteínas dentro da célula. Jogos de cartas ajudam
a entender a relação entre agentes causadores de doenças,
sintomas, tratamento e formas de prevenção. O Microwar,
em que bactérias competem para ocupar diferentes ambientes,
faz enorme sucesso e, de quebra, ensina o que é metabolismo.
Duas abelhas
de pelúcia aparentemente iguais revelam pertencer a espécies
diferentes quando são abertas e o DNA de suas mitocôndrias
é cortado e analisado. "Genética é o assunto
do momento, é difícil de entender para quem fez faculdade
há muito tempo. Aqui a gente teve essa chance", conta
Regina Aparecida de Godoy Pavan, que leciona biologia há
18 anos em Amparo, no 1.º e 2.º graus e também
em cursinhos para vestibular. Atualizar-se em uma área tão
dinâmica quanto biologia e genética custa caro. Um
livro de qualidade não custa menos de R$ 150 e, geralmente,
é importado, escrito em inglês.
As professoras
que participaram do Genética na Praça reconhecem que
o ensino tradicional, de aulas expositivas, não funciona
com seus alunos, pois é difícil motivá-los.
"A gente aprendeu aqui que é possível, por exemplo,
ensinar a classificar os seres vivos de uma forma divertida, que
tem a ver com a vida das crianças", afirma Gisele de
Cássia Rossini Carlos, que leciona em Serra Negra há
15 anos para estudantes de 5.ª a 8.ª série.
O projeto, com
apoio da Sociedade Brasileira de Genética, envolveu veteranos
e famosos professores de biologia, como José Mariano Amabis
e Oswaldo Frota Pessoa, autores de livros didáticos que acompanham
gerações de alunos de 2.º grau. Ao seu lado,
estão jovens biólogos como Ronaldo Abreu Silva, Rodrigo
Mendes da Silveira e Flora Fernandes-Matioli, todos preocupados
com os rumos que o ensino de ciências está tomando
no país. O grupo do Genética na Praça também
deu aulas e palestras voltadas especialmente para os professores,
numa tentativa de dinamizar o trabalho realizado nas escolas.
Em São
Paulo, que tem o principal pólo produtor de conhecimento
científico do Brasil, é a própria Secretaria
de Estado da Educação que vem reduzindo a carga horária
das disciplinas de ciências. No 2.º grau, prevê-se
apenas uma aula de biologia semanal e não são poucas
as escolas públicas que, até por falta de professores,
acabam fazendo uma opção entre física ou química,
entre história ou geografia.
"É
assim que começa a discriminação. O aluno da
rede pública que quer entrar numa das três universidades
estaduais - que exigem a compreensão dos processos biológicos
- já chega no vestibular com prejuízo de umas 30 questões
em relação aos que vêm de boas escolas particulares",
diz Amabis.
Para muitos deles, o cursinho, pago ou comunitário, é
o local onde ouvem pela primeira vez as palavras célula,
mol e vetor.
(O Estado de
S. Paulo)
Peças
de isopor, contas coloridas, tudo pode ajudar
Além
de autor de uma série de livros didáticos conhecidíssimos
pelos alunos de 2.º grau, José Mariano Amabis é
criador de um jogo que recorre a teste de paternidade ou identidade
de um criminoso para ensinar o que é DNA e hereditariedade.
"Testei num cursinho no Espírito Santo, numa sala com
300 alunos, e foi um sucesso", diz rindo. O que o jogo de Amabis
e outros fazem é justamente aproximar ciência da vida
do estudante, sem que para isso sejam necessários laboratórios
e grandes investimentos.
O ribossomo
gigante, verde como um sapo, com um cordão de pecinhas coloridas
em seu interior fazendo as vezes de aminoácidos, foi um trabalho
de conclusão de curso de biologia molecular.
Um de seus criadores,
Jorge Oyakawa, gostou tanto da experiência que acabou cursando
artes plásticas também. "Hoje ele trabalha fazendo
modelos de fósseis, mas quando precisamos dele para algum
projeto ele nem cobra", conta Eliana Maria Beluzzo Dessen.
O material a
ser apresentado no Genética na Praça é selecionado
da mesma forma que os trabalhos científicos. Jogos e modelos
são coisa séria, tanto que servem como trabalho de
conclusão de curso. O professor Paulo Alberto Otto, especialista
em aconselhamento genético, investiu seus conhecimentos e
seu tempo para criar um programa de computador e modelos de Drosophila
em fórmica.
Se por um lado,
a universidade pública cumpre o seu papel gerando não
só conhecimento, mas meios de transmiti-lo à comunidade,
na outra ponta falta o elemento que torne essa produção
acessível para a sociedade, ou seja, investimento.
"Como recebemos
aposentadoria integral, agora podemos fazer aquilo de que realmente
gostamos", brinca Maria Lígia Coutinho Carvalhal, microbióloga
e criadora do Microwar, Micromundo e Microvilões. Foi graças
a uma amiga que Maria Lígia conseguiu transformar seus Microvilões
em um produto. Mas isso não basta. "As lojas cobram
uma fortuna para colocar um jogo desses à venda e ele acaba
custando R$ 70", conta. "Não me incomodaria em
ganhar dinheiro, mas gostaria que o jogo fosse vendido por R$ 10,
para que as escolas pudessem comprar e usar."
Boa parte do
material usado no Genética na Praça tem baixo custo
de produção. No encerramento do projeto, professoras
trocavam idéias e endereços de lojas onde poderiam
comprar contas coloridas para reproduzir a brincadeira de seqüenciar
genes e peças de isopor para transformar em cromossomos.
Outras se cotizaram para comprar alguns dos jogos que viram no Genética
na Praça.
(O Estado de
S. Paulo)
Um
círculo vicioso, que começa na escola, vai à
faculdade e volta para a sala de aula
Foi manipulando
massa de modelar, na tentativa de representar a divisão celular,
que uma professora se deu conta de que não compreendia bem
o processo que vem ensinando há anos. "Quando se muda
o enfoque, a pessoa percebe que seu aprendizado foi deficiente",
diz a professora de biologia molecular Eliana Maria Beluzzo Dessen,
do Instituto de Biociências da USP, que se aposentou, deixou
o laboratório e agora se dedica ao desenvolvimento de alternativas
na área de ensino.
"É
um absurdo culpar os professores por sua falta de criatividade,
pois eles foram formados por escolas que simplesmente vomitam informação
e por faculdades que fazem o mesmo. Esse é o modelo que eles
têm para levar para a sala de aula", diz José
Mariano Amabis. De acordo com ele, de nada adiantam as reciclagens
que os professores têm de fazer, porque esses cursos repetem
o mesmo modelo.
O que ocorre
nas salas de aula é que os professores ensinam primeiro a
solução e depois apresentam o problema - o que tem
não graça nenhuma, além de ser uma inversão
perigosa do método científico. Para Amabis, falta
para os estudantes vivência em ciência, porque a informação
que eles recebem é totalmente livresca. Para a maioria das
crianças e jovens, a biologia, que é a ciência
da vida, não passa de uma interminável decoreba de
nomes complicados como desoxirribose, ribossomo e telófase,
que nada têm a ver com a própria vida.
É por
conta dessa formação ineficiente que muita gente,
por exemplo, não consegue entender que ciência é
algo dinâmico e não produz verdades permanentes e absolutas.
Gente que costuma achar que "cientistas não entendem
de nada, pois uma hora dizem uma coisa, outra hora dizem outra completamente
diferente".
As conseqüências
aparecem também na faculdade. "Metade dos alunos que
chega à universidade está à espera de aulas
expositivas, da matéria mastigada pelo professor e simplesmente
não sabe ir atrás da informação",
diz Eliana. Um quadro bastante grave, principalmente num momento
em que o País começa a investir mais em ciência.
No Genética na Praça, por exemplo, ficou evidente
que vários professores tinham acesso à Internet, mas
não sabiam como utilizar a rede nem para atualizar conhecimentos
nem como recurso pedagógico. "Seria preciso parar de
informar e começar a formar o estudante, entender que o importante
é explicar o processo científico e não esta
ou aquela conclusão", diz a bióloga.
Amabis reconhece
que apesar de a situação ser ruim, já se detecta
alguma melhora. "Existem algumas iniciativas do Ministério
da Educação para melhorar o ensino, mas são
muito tímidas ainda", afirma.
(O Estado de
S. Paulo)
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