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Título de doutor perde força
na rede privada
Apenas 15% dos
educadores das universidades privadas possuem o título de
doutor. Segundo Wilson Brinkmann, um dos diretores do Sindicato
dos Professores de São Paulo, afirma que isso acontece porque
eles custam mais caro para a Universidade.
Leia
mais:
- Título de doutor perde
força na rede privada
- Públicas ainda têm
mais graduados
- Instituições
reconhecem problema
Título de doutor perde força
na rede privada
Ao fazer na
semana passada o exame demissional em uma universidade particular
na qual dava aula, o professor José Carlos Abrão percebeu
que ele e seus colegas na fila de espera tinham algo em comum: eram
docentes com a mais alta titulação acadêmica,
o doutorado. A alta qualificação, porém, de
nada adiantou. A instituição, em Ribeirão Preto,
decidiu cortar gastos e não poupou nem os professores mais
titulados.
Doutor em educação
pela USP, Abrão acredita que, a exemplo de outros colegas
doutores, foi dispensado por custar mais caro à universidade.
Isso porque muitas universidades têm plano de carreiras em
que prevêem um salário maior a quem tem título
de doutorado. Em alguns Estados, acordos coletivos também
garantem esse adicional por titulação.
"O doutor
custa mais caro à universidade. Em várias faculdades
e centros universitários está acontecendo esse mesmo
processo de dispensa de doutores", diz. Wilson Brinkmann, um
dos diretores do Sindicato dos Professores de São Paulo,
concorda. Ele estava na semana passada de plantão no sindicato
homologando demissões e diz que presenciou vários
casos parecidos. Para ele, a situação é causada
em parte por causa da legislação educacional.
"Muitas
universidades contrataram doutores para se adequar à legislação,
mas os colocaram para dar aulas. Como eles custam mais caro, muitas
vezes são demitidos. Isso acontece porque a lei não
determina o percentual de mestres e de doutores que a universidade
precisa ter. Diz só que é preciso ter um terço
do corpo docente com titulação, podendo ser mestrado
ou doutorado", diz Brinkmann, citando o artigo 52 da Lei de
Diretrizes e Bases da Educação.As estatísticas
do Censo da Educação Superior do MEC confirmam que
na rede privada o interesse por professores com alta titulação
é muito menor.
Em 2003 (ano
do último censo divulgado pelo MEC), a proporção
de doutores nas universidades públicas era de 41% do total
de docentes, quase o triplo do encontrado nas universidades privadas
- apenas 15%. Os dados mostram ainda que, de 2000 para 2003, houve
pouca variação nesse percentual nas universidades
privadas, nas quais a proporção de doutores passou
de 14% para 15%. Nas públicas, passou de 34% para 41%.
Também
fica claro pelas estatísticas do censo que as universidades
particulares têm preferência pelos professores com título
de mestrado, já que eles são 40% do total nessas instituições.
Na rede pública, esse percentual é de 29%.
O reitor do
centro universitário UniCarioca, Celso Niskier, diz que o
aproveitamento de doutores depende do tipo de instituição:
"Nas instituições particulares que não
estão apostando na transformação em universidade
e que não querem investir em pesquisa, o doutor é
visto só como custo e está perdendo mercado".
Para ele, nessas
instituições a preocupação é
cumprir o percentual mínimo exigido de mestres e doutores,
que, no caso das universidades, é de um terço do corpo
docente. "Esse percentual mínimo acaba virando o máximo."
A falta de interesse
na melhoria da titulação do corpo docente é
sentida ainda por quem já tem o título de mestrado
e que procuram conciliar a atividade de professor com o curso de
doutorado. É o caso de Antônio Agenor de Melo Barbosa,
que já deu aulas em universidades particulares do Rio. Ele
é mestre em urbanismo e doutorando no curso de ciências
da arquitetura da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRJ.
"O que essas instituições buscam é mostrar
ao MEC que o professor já tem qualificação
de mestre, mas elas não ajudam nem investem para que seu
corpo docente possa se qualificar em instâncias acadêmicas
superiores."
O arquiteto
reclama que muitas instituições, além de não
respeitarem a legislação trabalhista, contratam professores
- mesmo os com titulação acadêmica - principalmente
como horistas, ou seja, profissionais que recebem de acordo com
a hora de aula dada. Dados do censo do MEC confirmam isso: em 2003,
na rede privada, 56% dos professores eram contratados como horistas.
Na pública, eram 5%.
(Folha de
S. Paulo – 10/01/05)
Públicas ainda têm mais graduados
O Censo da Educação
Superior do MEC mostra que a tão temida "fuga de cérebros"
da universidade pública para a privada não aconteceu
com a intensidade esperada por alguns. Apesar de um aumento no número
absoluto de doutores nas universidades privadas de 1995 a 2003,
a imensa maioria dos docentes (75% do total) com essa titulação
continuam trabalhando nas públicas.
Essa proporção
era um pouco maior em 1995 (85% do total), o que significa que as
universidades privadas conseguiram aumentar seu quadro de doutores
num ritmo maior do que o da rede pública. Nessa comparação,
no entanto, é preciso levar em conta que o número
de doutores nas particulares em 1995 era muito pequeno: 3.174 de
um total de 33.727.
Quando se compara
apenas o número absoluto de novos doutores contratados (ou
professores que ganharam essa titulação ao longo desse
período), a análise é mais favorável
à universidade pública. Enquanto nessas instituições
o número de doutores aumentou em 17.344, nas particulares
o aumento foi de 8.050.
Quando se especulou
que aconteceria essa "fuga de cérebros", levou-se
em conta que o ritmo de expansão de matrículas no
setor privado era muito maior e que as condições salariais
e de trabalho nas instituições públicas estavam
piorando. Muitos docentes da rede pública poderiam, portanto,
se aposentar no serviço e desenvolver pesquisas na rede privada.
O que não
se previu no período é que as instituições
privadas de ensino superior, salvo algumas exceções,
não dariam as mesmas condições para que os
melhores quadros vindos da rede pública pudessem desenvolver
pesquisas.
Tanto que, segundo o censo, em 2003, 77% dos docentes nas universidades
públicas trabalhavam em regime integral, ou seja, ficavam
metade do tempo em sala de aula e metade em atividades de pesquisa
ou extensão.
(Folha de
S. Paulo – 10/01/05)
Instituições reconhecem problema
O diretor-executivo
da Associação Nacional das Universidades Particulares
(Anup), José Walter Pereira dos Santos, reconhece que há
a necessidade de aumentar a proporção de doutores
nas instituições privadas. Santos afirma, no entanto,
que as instituições têm feito esforços
para melhorar a titulação de seu corpo docente e cobra
do governo federal mais apoio.
"A formação
de doutores interessa demais às universidades privadas. Você
pode avaliar uma universidade pela biblioteca que ela tem e pela
quantidade de doutores e mestres. Por aí dá para ter
uma idéia da força que ela tem para funcionar e produzir
ciência."
Segundo o diretor-executivo
da Anup, uma prova da preocupação por parte das instituições
privadas com a titulação de seus professores foi a
criação, em 1998, da Funadesp (Fundação
Nacional de Desenvolvimento do Ensino Superior Particular). A entidade
possui um programa de bolsas com objetivo de fomentar a pesquisa
e capacitar recursos humanos.
"Estamos
fazendo esse esforço porque sabemos que é necessário
que as universidades privadas tenham o maior número possível
de doutores e mestres, mas acho que está na hora de o Estado
olhar mais para essas instituições", diz.
Satos afirma
que tem percebido "uma mudança tímida" nessa
postura no atual governo, mas reclama que, historicamente, o pode
público tem discriminado as instituições privadas.
"Existe
uma política discriminatória do governo federal no
financiamento de bolsas de pesquisa. A Capes (Coordenação
de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) e
a Finep (Financiadora de Estudos e Projetos) são órgãos
que se destinam quase que exclusivamente ao financiamento de bolsas
para o sistema público federal", afirmou.
(Folha de
S. Paulo – 10/01/05)
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