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Ensino a distância sem monitoramento
é questionado por especialistas
Cursos on-line são cada vez mais comuns e
tem levado professores da Índia a lecionar nos Estados Unidos
sem sair de seu país. Porém, especialistas contestam
a falta de fiscalização ou monitoramento para a qualidade
do ensino.
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Alguns minutos antes das 7h de uma manhã
recente, Greeshma Salin girou sua cadeira, encarou o computador,
colocou os fones de ouvido e microfone e disse, em inglês
com leve sotaque: "Alô, Daniela". Segundos mais
tarde, ouviu a resposta: "Alô, Greeshma". As duas
começaram a conversar animadamente, até que Salin
disse: "Vamos trabalhar com os pronomes, hoje". A seguir,
digitou: "Daniela acredita que Daniela deveria dar Scarlet,
o cavalo de Daniela, para a irmã de Daniela". "A
sentença lhe parece desajeitada?", perguntou. "O
que você faria para melhorá-la?" Não há
nada de incomum nesse diálogo, se não levarmos em
conta que Salin, 22, está em Cochin, na costa sul da Índia,
e sua aluna, Daniela Marinaro, 13, está em casa, em Malibu,
Califórnia.
Salin é parte da nova leva de trabalhadores
indianos terceirizados: os professores particulares para alunos
norte-americanos. Duas vezes por semana, já há um
mês, Salin, que cresceu usando o idioma malayalam, um dos
muitos idiomas indianos, está ensinando gramática
inglesa, redação e compreensão de texto a Daniela.
Usando uma lousa simulada em seus computadores, conectados pela
internet, e uma cópia do manual empregado por Daniela, ela
orienta a adolescente quanto às complexas regras dos substantivos,
adjetivos e verbos.
Daniela, aluna de oitava série na Malibu
Middle School, disse que tira "C em inglês" e quer
"tirar A", e acrescentou que nunca havia pensado muito
sobre o fato de que sua professora estava a 30 mil quilômetros
de distância, ainda que no começo a situação
lhe parecesse "um pouco estranha".
Ela e sua irmã, Serena, 10, aluna de quarta
série na Malibu Elementary, são apenas duas dos 350
norte-americanos matriculados no Growing Stars, um serviço
de aulas particulares on-line sediado em Fremont, Califórnia,
mas que tem todos os seus 38 professores instalados em Cochin. O
serviço oferece aulas particulares de matemática e
de ciências e recentemente acrescentou um curso de inglês,
para estudantes da terceira à 12ª série.
Cinco dias por semana, às 4h30, horário
de Cochin, os professores se conectam, no momento em que seus alunos
norte-americanos abrem os livros para sua lição de
casa, no começo da noite. A Growing Stars é uma das
pelo menos meia dúzia de empresas, em toda a Índia,
que estão ajudando as crianças dos Estados Unidos
com suas tarefas de casa e estudos.
Como em outros setores terceirizados, o fator que
estimula as "lições de casa terceirizadas",
como a prática se tornou conhecida, é o custo. Empresas
como a Growing Stars e a Career Launcher Índia, de Nova Delhi,
cobram US$ 20 por hora de um aluno norte-americano que precise de
aulas particulares, ante os US$ 50 ou mais que um professor particular
norte-americano cobraria.
A Growing Stars paga um salário mensal de
10 mil rúpias (cerca de US$ 230, ou R$ 531) aos seus professores,
duas vezes o que eles ganhariam como recém-contratados em
uma escola local. Os críticos expressaram preocupação
quanto à qualidade dessas aulas oferecidas.
"Aulas particulares on-line não são
fiscalizadas ou monitoradas de perto; há poucos padrões
de referência setoriais", disse Rob Weil, diretor-assistente
do departamento de questões educacionais da Federação
Norte-Americana de Professores. "A qualidade se torna uma questão
mais difícil no caso das aulas particulares dadas por estrangeiros,
porque a monitoração é mais difícil",
disse Boria Sax, diretor de pesquisa, desenvolvimento e treinamento
on-line no Mercy College, de Dobbs Ferry, Nova York.
A Growing Stars está se expandindo rapidamente
para acomodar estudantes da costa leste norte-americana, Canadá,
Reino Unido e Austrália. Seus professores, a maioria portadores
de diplomas de pós-graduação em pedagogia,
têm profundo conhecimento dos temas. Passam por duas semanas
de treinamento técnico, cultural e de sotaque, que inclui
familiarização com as diferenças entre o inglês
britânico, amplamente usado na Índia, e o norte-americano.
"Eles aprendem a usar "eraser" (apagador),
em lugar do equivalente indiano, "rubber" (borracha),
e a compreender que "preciso tirar água do joelho"
quer dizer que a pessoa precisa ir ao banheiro", disse Saji
Philip, empresário de software de origem indiana, presidente
do conselho e co-fundador da empresa, que trabalha em Nova Jersey.
Ainda assim, a disparidade cultural é real.
Em Cochin, Leela Bai Nair, 48, ex-professora com 23 anos de experiência
e treinadora dos professores da Growing Stars, disse que ficou "chocada
quando alunos norte-americanos de 10 anos me chamaram de Leela.
Em toda a minha carreira como professora na Índia, os alunos
me chamavam de "senhora'", diz.
(Folha de S. Paulo - 11/09/05)
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