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Competência individual, um desafio coletivo
Num mundo de
competição profissional que exige qualificação
sem fim, os bons e os maus resultados dependem só do esforço
pessoal, certo? Em termos. Nadando contra a corrente, pensadores
e ativistas de diferentes partes do mundo defendem a idéia
de contínua evolução, sim, mas sem jogar todo
o peso do desenvolvimento de competências só sobre
as costas do profissional. Essa foi uma das questões mais
discutidas durante o 2° Fórum Mundial de Educação,
em Porto Alegre (RS).
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Competência individual, um desafio coletivo
Num mundo de
competição profissional que exige qualificação
sem fim, os bons e os maus resultados dependem só do esforço
pessoal, certo? Em termos. Nadando contra a corrente, pensadores
e ativistas de diferentes partes do mundo defendem a idéia
de contínua evolução, sim, mas sem jogar todo
o peso do desenvolvimento de competências só sobre
as costas do profissional.
A divisão
de responsabilidades entre o coletivo e o individual foi defendida
no 2º Fórum Mundial de Educação, durante
o debate temático sobre o ensino e o mundo do trabalho, realizado
há uma semana, em Porte Alegre.
Os especialistas
Jean-Marie Maillard, professor francês e vice-presidente do
Comitê Sindical Europeu para Educação, e o gaúcho
Gaudêncio Frigotto, doutor em educação pela
PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica) e coordenador
de Educação na Faperj (Fundação de Amparo
à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro) se dizem a favor
da idéia do aprendizado por toda a vida.
"Não
podemos abrir mão da competência em qualquer ramo em
que estejamos. Se você me disser que tenho de ser analisado
por um psicólogo incompetente, eu não vou, porque
ele vai estragar minha cabeça. Nada contra a capacidade humana
ser cada vez mais qualificada", diz Frigotto.
Maillard completa:
"O conhecimento não pode ser tomado como algo que está
terminado para sempre, mas algo que está sempre em transformação,
em progresso".
Mas os dois
educadores criticam o discurso usual sobre competências individuais
por mascarar, segundo afirmam, uma incompetência coletiva
-uma disfunção do Estado e da sociedade como um todo,
que não conseguem mais gerar os empregos necessários.
"O grande
problema é que se tira a responsabilidade da sociedade e
se responsabiliza apenas o indivíduo. E nós sabemos
que hoje há cada vez mais incapacidade de o sistema econômico
oferecer emprego com qualidade", avalia Frigotto.
O resultado,
segundo ele, é uma espécie de sentimento muito ampliado
de culpa pelo próprio fracasso. "Quando você lê
documentos de organizações internacionais, como OCDE
(Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento
Econômico) ou Banco Mundial, eles tentam colocar o peso, a
responsabilidade da educação contínua sobre
o indivíduo. Isso pode representar tanta pressão que
as pessoas se sentem infelizes", reforça Maillard.
O educador brasileiro
critica: "A pessoa é educada por competência individual,
contratada por competência, paga por competência. Todo
acordo coletivo vira individual. A responsabilidade de não
conseguir emprego passa a ser só do trabalhador. Isso o faz
pensar que não é contratado por falta de competência.
Não pensa que pode ser por falta de política social".
"Na concepção
liberal, o indivíduo é responsável por assegurar
a sua própria empregabilidade", lembra Maillard.
Para Frigotto,
as exigências de reciclagem permanente aliviam as pressões
sobre o Estado. "Fica muito fácil para as empresas e
os governos dizerem que não há emprego porque a pessoa
não é 'empregável'".
Para demonstrar
que a capacidade de absorção de talentos está
se reduzindo cada vez mais, ele cita uma pesquisa da Unicamp (Universidade
Estadual de Campinas), segundo a qual, quando profissionais se desempregam
e conseguem depois um novo trabalho, esse novo cargo é mais
desqualificado.
"Há
um número grande de pessoas que realizam trabalhos estúpidos
apesar da boa formação", declara.
Para o pesquisador,
isso mostra que "qualificar o trabalhador não lhe garante
o céu". Frigotto diz que é preciso discutir a
competência individual num outro contexto. "É
óbvio que no Brasil temos de elevar o patamar médio
em todos os campos de trabalho, inclusive no nível superior."
Ele propõe,
por exemplo, que a educação continuada seja transformada
em política pública, deixando de ser só iniciativa
isolada. "A qualificação permanente tem de ser
um direito de qualquer trabalhador, independentemente de qual seja
o setor em que atue."
O pesquisador
questiona a idéia de que estudar é abrir, automaticamente,
portas para as vagas cobiçadas. "Temos de acabar com
a ilusão de que curso cria emprego. Não podemos responsabilizar
o indivíduo se ele não consegue criar o seu próprio
emprego."
Maillard também
propõe algumas questões práticas, que induzam
a participação das empresas e dos empregados no processo
de requalificação. "Temos de obter novos direitos,
novas maneiras de facilitar, em acordos coletivos e leis, o acesso
do trabalhador ao desenvolvimento contínuo", afirma.
Ele dá
o exemplo de uma empresa que tenha de demitir pessoal por mudança
de tecnologia. "Normalmente, cabe ao empregado se requalificar.
Deveria haver obrigação legal de a companhia contribuir
para um fundo social que financiasse esse treinamento."
Outro estímulo
seria poder usar parte do horário nas empresas para estudar.
"O aprendizado permanente deveria ser um novo direito social,
com educação de qualidade e com direito de ampliar
o conhecimento durante a jornada de trabalho."
Como um dos
caminhos para combater o desemprego, o professor francês defende
a reciclagem, sustentada por um fundo social pago por empresas.
"O desemprego é uma situação em que você
é diminuído como pessoa, diminuído socialmente,
em outras palavras, você é excluído da vida
social. No futuro não deveria haver períodos de desemprego.
As carreiras deveriam ser garantidas durante os períodos
de reciclagem. Isso possibilitaria que as pessoas fossem preparadas
para mudar conforme a evolução do trabalho."
Mas Maillard
adverte que não se deve ir ao outro extremo, e colocar tudo
como iniciativa só das empresas. O indivíduo toma
parte ativa na busca por aprendizado continuado. Estudantes ou profissionais
em meio de carreira -não importa- todos devem mudar suas
atitudes, estando sempre dispostos a aprender -e a reaprender, porque
em pouco tempo tudo estará ultrapassado. Para quem quer continuar
sobrevivendo no mundo das competências individuais, enquanto
a competência coletiva de gerar empregos não se equilibra,
Maillard dá algumas indicações.
O Fórum
Mundial de Educação (FME), na sua segunda versão,
reuniu educadores e estudantes de cem países, segundo os
organizadores. Entre os dias 19 e 22 de janeiro, os participantes
discutiram os rumos da educação e as alternativas
aos modelos vigentes. O saldo das discussões, apresentado
na declaração final do encontro, defendeu a educação
pública, gratuita e de qualidade para todos os cidadãos.
O encontro foi uma preparação ao Fórum Social
Mundial, que termina hoje em Porto Alegre.
(Folha de
S. Paulo - 28/01/03)
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