-

      

















 



Dançando no escuro

Cristiana Mello, 26, tem uma agenda corrida. Formada em tradução, está concluindo seu segundo curso superior (letras com habilitação em espanhol). Além dos estudos, trabalha como professora de informática, faz traduções em espanhol, francês e inglês e dá aulas particulares da última língua. Nas horas vagas, gosta de tocar piano, falar ao telefone e ir a barzinhos com a turma de amigos. Tudo normal, não fosse uma deficiência física que tem desde que nasceu, prematura de seis meses: Cristiana é cega. Perdeu a visão por descolamento da retina e estouro dos vasos sanguíneos.

"A situação dos deficientes visuais no Brasil está melhorando muito. Nós temos muito potencial, e as pessoas estão cada vez mais abertas", diz Cristiana, que há seis meses ensina informática no CAAD (Centro Acadêmico de Apoio ao Deficiente) a pessoas com deficiência idêntica.

O CAAD surgiu há um ano, como uma iniciativa da Unicid (Universidade Cidade de São Paulo) para ajudar os alunos deficientes. A princípio, era apenas uma sala dentro do campus, que fazia a versão em braile de livros e apostilas utilizados nos cursos universitários. "Quando percebemos que aquilo era essencial não apenas para nossos estudantes, mas para a comunidade, decidimos expandir a área de atuação", conta a coordenadora Edileine Vieira Machado.

Além de oferecer, a custo zero, aulas de informática, orientação e mobilidade, educação física adaptada e atividades da vida diária, o CAAD inicia no próximo ano um projeto de empregabilidade para as pessoas que atende, com base no decreto que obriga empresas com mais de cem funcionários a contratar pelo menos 1% de deficientes.

"Muitas empresas já estão nos procurando", revela a coordenadora. "Por isso, nosso principal objetivo agora é conseguir prepará-los para o mercado de trabalho."

Wagner Rocha, 46, aposentado, está fazendo o curso há quatro meses. Em 93, quando ainda atuava na área de nutrição, levou um tiro durante um assalto. A bala entrou na têmpora esquerda e saiu pelo olho direito. Perdeu a visão nos dois olhos.

Desempregado há cinco anos, desde que descobriu-se portador de uma doença chamada stargardt (espécie de degeneração da retina), o arquiteto Ailton Cataldi, 38, frequenta o curso porque quer voltar ao mercado. "Estou me preparando para disputar uma vaga", conta.

Nos últimos seis anos, a doença vem avançando gradativamente, mas sua vista ainda não está zerada. Cataldi, que tem um filho de 9 anos, chegou ao centro pelas mãos da mulher, estudante de pedagogia na Unicid.

O engenheiro civil Jorge Ogata, 48, está matriculado para a próxima turma de informática, que começa em fevereiro. Ele perdeu a visão nos dois olhos devido a sequelas da síndrome de Steven Johnson Ägrave reação alérgica a medicamento (provavelmente dipirona).

No dia em que a reportagem conheceu as instalações do centro de apoio, a mãe de Jorge, Luiza, o levou ao local. "Ele queria saber detalhes sobre as aulas de computação e pediu que o acompanhasse", conta. Ogata ficou cinco anos afastado do trabalho ("ainda bem que a empresa segurou as pontas"). Voltou ao emprego há 18 meses. "Ainda estou em tratamento, há algumas chances de recuperar parte da visão no olho direito. Quero me aperfeiçoar."

Uma das crianças mais queridas pela equipe do CAAD é Thais Silva Esteves, 6, que brinca ali diariamente, acompanhada da mãe, Roberta Esteves, 24. "É importante ensinar aos pais que a estimulação correta de uma criança que não tem visão é completamente diferente", diz a coordenadora Edileine Vieira.

Aos 2, Thais fez uma cirurgia para retirada de um tumor no cérebro. O nervo óptico foi afetado, e ela nunca mais enxergou. "O que é isso, mãe?", ela pergunta, enquanto brinca de cozinha. Depois de alguns segundos tocando no objeto, responde à própria dúvida: "Ah, é uma colherzinha!".

Ao ser fotografada, se interessa pela câmera. "O que é isso?", indaga, tocando no equipamento. "É uma máquina fotográfica", responde em seguida.

"Um deficiente pode virar um grande profissional, pode vencer em muitas áreas", diz Ruberval José Gozzo, psicólogo do CAAD que presta apoio a deficientes e a seus familiares. "É só lembrar da última edição das Paraolimpíadas."

CAAD (Centro de Apoio Acadêmico ao Deficiente)
R. Cesário Galeno, 448 - Tatuapé- São Paulo
Tel. (0xx11) 6190-1214

(Revista da Folha)

   

 

Cota para deficientes fica só no papel

As estatísticas não são lá animadoras. O Brasil tem cerca de 16 milhões de portadores de deficiência -mais de 10% da população. Dos 9 milhões em idade de trabalhar, apenas 1 milhão está na ativa. E outro detalhe: 800 mil deles fazem parte do chamado mercado informal, sem carteira assinada.

A legislação impõe às empresas com mais de cem empregados a contratação de deficientes, em cotas que vão de 2% a 5% do total, conforme o porte da companhia. Será que contratam mesmo?

"A lei não avançou no sentido de ajudar a preparar os portadores com estímulos concretos e as empresas a remover barreiras", afirma José Pastore, professor de relações do trabalho da USP (Universidade de São Paulo), que lançou o livro "Oportunidades de Trabalho Para Portadores de Deficiência" (editora LTR).

A pergunta é: como ampliar as chances desses profissionais no mercado? Pastore dá uma pista: reserva de mercado pode até funcionar, mas só se for um pouco mais flexível. Entenda como na entrevista que segue.

Folha - Quais as principais barreiras na criação de empregos para portadores de deficiência?
Pastore -
Na verdade, as barreiras não são apenas referentes à criação de postos de trabalho. Referem-se a três áreas. Em primeiro lugar, à precária educação e profissionalização da maioria dos portadores de deficiência. Em segundo, à pouca compreensão e informação dos empregadores. Em terceiro, estão as barreiras físicas: é a falta de rampa, é a falta de um banheiro adequado, de um mobiliário ajustado às pessoas.

Folha - Os deficientes ainda costumam ser vistos como geradores de custos quando passam a integrar a mão-de-obra das empresas. Como isso pode ser mudado?
Pastore -
No mundo inteiro, as pessoas se preocupam com esses custos, por menores que sejam. Mas, nos países avançados, as empresas contam com apoios, às vezes créditos subsidiados e recursos a fundo perdido, para remover essas barreiras, que, na maioria dos casos, não são tão grandes.

Folha - A legislação brasileira é eficiente para garantir oportunidades e impedir discriminações?
Pastore -
O instrumental legal no Brasil é muito grande, é farto. Acho que há leis suficientes, mas é preciso melhorar um pouco a sua qualidade. Por exemplo: o Brasil possui uma legislação que obriga as empresas com mais de cem empregados a contratar portadores de deficiência, mas a lei pára aí, não avançou no sentido de ajudar a preparar os portadores com estímulos concretos e as empresas a remover barreiras.

Folha - Sobre essa reserva de mercado, o sr. aprova a imposição legal de contratação sem considerar a capacidade profissional?
Pastore -
Há países que adotam as cotas e outros que as rejeitam. O Brasil está entre os que adotam. O que pude verificar na pesquisa é que em nenhum país do mundo a cota funciona quando é uma medida isolada. Só funciona combinada com outros mecanismos.

Folha - Por exemplo...
Pastore -
Em muitos países, existem os sistemas de cota-contribuição e cota-terceirizada. A primeira é o seguinte: uma empresa que tem de contratar, digamos, 500 portadores e preencheu só 200 vagas, recolhe o dinheiro pela não-contratação dos outros 300 a uma rede de instituições que qualificam o portador e ajudam empresas a remover barreiras.
O mesmo acontece com a cota-terceirizada. No caso, a empresa do exemplo contrata o trabalho de portadores treinados por uma entidade, embora eles tenham vínculo empregatício só com essa instituição. A companhia pode empregá-los na forma de subcontratação, temporária, terceirizada, o que for. E essas pessoas contam na cota da empresa contratante. Isso amplia muito o mercado.

Folha - Sem contratação formal...
Pastore -
Hoje até os não-portadores de deficiência atuam muito nas formas atípicas de trabalho, como a subcontratação, a terceirização, o teletrabalho, em domicílio, por projeto. Esse é o mundo moderno. E, infelizmente para o portador, a lei exige que a única maneira de contar na cota da empresa é quando há um contrato por prazo indeterminado, com vínculo empregatício, que é justamente a modalidade mais difícil. Isso conspira contra a intenção de ampliar o mercado.

Folha - Como o sr. vê a idéia adotada em alguns países de permitir que a empresa pague menos ao deficiente para criar mais vagas?
Pastore -
Os países que fazem isso remuneram menos quando a produtividade é mais baixa, mas pagam mais quando é mais alta. Há ainda casos mais interessantes, nos quais, para estimular o emprego, o Estado "banca" o salário dos primeiros meses. Na Nova Zelândia, há um recurso oficial usado para a empresa contratar um portador e ter todo o salário e os encargos pagos pelo governo por seis meses. Depois disso, o governo paga 80% e, após um ano, 50%. Depois de 18 meses, não paga nada. É para o empresário se familiarizar com o portador e descobrir seu potencial.

(Folha de S. Paulo)

   

 

 

Exigências do MEC para atender deficientes

No início do ano letivo, o Ministério da Educação determinou que a abertura e renovação de credenciamento de cursos superiores só seria possível se a escola cumprisse as seguintes exigências:

Deficientes físicos:
- rampas de acesso;
- vagas marcadas no estacionamento;
- adaptação de portas de banheiros;
- barras de apoio.

Deficientes visuais:
- máquina, impressora e computador em braile;
- sistema de síntese de voz;
- gravador e foto-copiadora que amplie textos;
- plano de aquisição de acervo bibliográfico.

Deficientes auditivos:
- compromisso da instituição de proporcionar, até o fim do curso, intérpretes de língua de sinais;
- flexibilidade na correção das provas escritas, valorizando o conteúdo semântico.

(O Dia)