Superando os limites

O mundo não foi feito para quem sofre de deficiências. Por várias vezes nos deparamos com pessoas que não podem pegar o metrô ou o ônibus porque os meios de transporte não são adaptados. No entanto, pelo menos o mundo tecnológico não impõe barreiras para aqueles que, mesmo limitados fisicamente, conseguem se adaptar à uma realidade que não foi pensada para eles.

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Superando os limites

O mundo não foi feito para quem sofre de deficiências. Por várias vezes nos deparamos com pessoas que não podem pegar o metrô ou o ônibus porque os meios de transporte não são adaptados, ou que não conseguem subir nas calçadas sem rampas. O que se pode perceber, no entanto, é que pelo menos o mundo tecnológico não impõe barreiras para aqueles que, mesmo limitados fisicamente, desviam dos obstáculos que lhes são impostos no caminho e conseguem se adaptar à uma realidade que não foi pensada para eles.

Algumas instituições que atendem deficientes no Rio apostam no ensino da informática como instrumento facilitador no aprendizado e rica fonte de auto-estima. As iniciativas neste sentido não eliminam preconceitos, mas pelos menos minimizam o abismo que separa os deficientes do restante da sociedade.

No Instituto Benjamim Constant (www.ibcnet.org.br), destinado à educação de deficientes visuais, a informática já é realidade. E, para isso, não foram necessárias grandes adaptações, como a criação um teclado em braile, por exemplo. Muito mais prático que isso, a direção do Instituto implantou o Dosvox, um software desenvolvido pelo Núcleo de Computação Eletrônica da Universidade Federal do Rio de Janeiro, para atender especialmente deficientes visuais.

O Dosvox lê em voz alta todos os comandos executados pelo usuário. ''Eles aprendem as técnicas normais de digitação e à medida em que vão teclando, o programa lê em voz alta letra por letra'', explica o chefe do setor de reabilitação do Benjamim Constant, José Francisco de Souza .

A única diferença em termos de equipamento é que os micros destinados aos deficientes visuais não possuem mouse. ''Todos os comandos são feitos no próprio teclado, através de combinações entre as teclas ctrl, alt, shift e letras, números e símbolos'', explica o professor, que também é deficiente visual.

Pelos computadores, os alunos do Benjamim Constant fazem trabalhos escolares, agendas pessoais e ainda acessam à internet, através do programa Webvox, que lê em voz alta os links dos sites e indica, através de sons específicos, onde estão fotos e gráficos dispostos na página. Outra possibilidade do Dosvox é o PapoVox, através do qual o internauta pode conversar por meio de um chat que lê a conversa em voz alta. A idéia pode não parecer muito agradável, mas está ajudando os deficientes no processo de ressocialização.

O Instituto ainda oferece cursos profissionalizantes de Internet e Técnico em Programação. José Francisco Souza acredita que a informática ajudou o ingresso de deficientes visuais na universidade e no mercado de trabalho. ''Há um mês encaminhamos 10 pessoas para uma grande loja de departamentos''.

Experiência parecida acontece no Instituto Nacional de Educação de Surdos (www.ines.org.br), cujo projeto de Informática Educativa é coordenado pela orientadora pedagógica Sandra Alonso. Ela explica que o objetivo do setor é desenvolver a capacidade cognitiva e as habilidades intelectuais dos alunos. ''Exploramos os recursos da informática pedagogicamente'', enfatiza.

Além de aulas de informática duas vezes por semana, os alunos dos ensinos fundamental e médio podem utilizar o laboratório para fazer trabalhos curriculares, acessar à Internet e para as aulas que utilizam recursos multimídia.

Os computadores também estão liberados para os alunos da clínica do INES, setor que atende crianças e jovens que apresentam, além da surdez, problemas de ordem psiquiátrica, neurológica e visual. ''Observamos grande evolução no quadro desses alunos. Alguns, inclusive, conseguiram passar para a turma regular das crianças que sofrem apenas de surdez.''

(Jornal do Brasil)

   


Quando a caneta é problema

A vida não é fácil para quem tem paralisia cerebral. Além de grande dificuldade na fala, as pessoas que sofrem dessa anomalia geralmente não têm boa coordenação motora, o que prejudica diretamente na escrita. É neste momento que o computador entra em ação, como instrumento facilitador na comunicação. Apesar de ser impossível teclar com desenvoltura, esses deficientes preferem o micro à caneta.

Damaris de Farias tem paralisia cerebral e diz que depois que aprendeu informática, seu trabalho ficou mais ágil. ''Faço tudo pelo computador, porque assim todo mundo entende o que escrevo,'' diz.

O computador também pode ser uma fonte de renda para o paralítico cerebral. A professora e tradutora de inglês, Heloísa Cruz, conta que faz seus trabalhos em casa. Como os movimentos de seus dois braços são descoordenados, ela utiliza a mão esquerda como apoio e digita todo o texto apenas com a direita.

Outro bom exemplo de que a informática não representa uma barreira para deficientes é o professor de informática Expedito Tadeu Bastos. Ainda no início da década de oitenta, quando a informática era um bicho de sete cabeças, ele aprendeu programação sozinho e começou a trabalhar como programador autônomo para algumas empresas. Logo depois, fundou seu próprio curso de informática. ''Com o computador eu escrevo melhor, consigo me fazer entender. Quando estou tenso não consigo pegar na caneta''.

(Jornal do Brasil)

   


Informática como alternativa

A Escola Catavento, na Gávea, atende crianças com dificuldades de aprendizado e portadoras de necessidades educativas especiais. Como complemento ao ensino ministrado dentro das salas de aula, a instituição está investindo agora na Informática Educativa como ferramenta facilitadora do aprendizado. ''Através do computador estimulamos a habilidade de leitura e escrita, a capacidade de comunicação e o crescimento pessoal. Fazemos uma troca. Em vez de só papel, usamos também o computador'', explica a pedagoga e Coordenadora de Educação Especial da Catavento, Edla Trocoli.

De acordo com ela, era preciso aplicar a informática de forma educativa, utilizando suas possibilidades como facilitadores no aprendizado e desenvolvimento pessoal dos alunos. A informática educacional possibilita que o conteúdo curricular seja desenvolvido através de jogos didáticos, leituras, criação de textos livres e conversas informais. Para isso, as turmas contam com professores de informática que são, acima de tudo, pedagogos.

A Escola Catavento recebe alunos com até 15 anos, mas é partir dos cinco que as crianças arriscam as primeiras tecladas. ''É bom que desde cedo elas tenham consciência de suas limitações, mas ao mesmo descubram e desenvolvam suas potencialidades.''

E parece que os resultados são positivos. De acordo com Marcelo Yapur, pai de Agustin, de 6 anos, seu filho evoluiu muito desde que começou a ter aulas de Informática Educativa. Ele relata que o menino apresenta bloqueios na fala devido à dificuldade em elaborar frases. ''Desde que ele descobriu a informática desenvolveu a fala e melhorou o convívio social. Até no âmbito familiar melhorou, na medida em que ele interage mais com os irmãos no revezamento do computador. E ainda está mais disposto a desenvolver atividades criativas, como colorir e brincar com jogos didáticos'', conta.

Com o manuseio do computador, Agustin aprendeu a vencer desafios. ''Ele era indiferente, tinha dificuldade de lidar com o mouse. Agora, ele executa os programas com facilidade'', diz Yapur.

(Jornal do Brasil)