|
Sou eu o deficiente?
Porque sou tetraplégico,
preso a uma cadeira de rodas, chamavam-me de "aleijado".
Por sofrer de cegueira, fui considerado "deficiente físico".
Psicótico,
trataram-me como um bicho de sete cabeças. Agora, por ter
perdido um braço num acidente, cuja pancada me deixou leso,
sou qualificado de "portador de deficiências física
e mental".
Mudam os termos,
mas não a cultura que ponha fim aos preconceitos que me cercam.
Antes, diziam que sou mongolóide; agora, sofro de síndrome
de Down.
Era leproso; agora, tenho hanseníase.
Nesta sociedade
contaminada pela síndrome de Damme, e que cultua a idolatria
dos corpos - ainda que a cabeça se assemelhe à do
camarão -, sou confinado, léxica e socialmente, às
limitações que carrego.
Se saio à
rua, pouco encontro rampas, em calçadas e prédios,
para passar com a minha cadeira de rodas. Com freqüência,
há um carro estacionado na vaga a mim reservada. Temo um
novo atropelamento ao cruzar a rua, pois o tempo do semáforo
e a fúria dos motoristas não respeitam a lentidão
deste corpo que se apóia na bengala.
Muitas vezes,
na rua, dependo da solidariedade anônima para subir no ônibus
ou poder sentar-me no metrô. À noite, sonho com fantasmas
gritando em meus ouvidos: "Fique em casa! Sua debilidade é
o seu cárcere! Não se atreva a imiscuir-se neste mundo
de corpos esbeltos e saudáveis, sarados e curados, lindos
e louros. Não se manca que esta nação cultua
heróis que ousaram desafiar os limites do corpo? O Brasil
não tem nenhum santo canonizado, embora o Peru tenha um casal,
Rosa de Lima e Martinho de Porres. Nunca o Prêmio Nobel chegou
a estas terras. Só em poesia, o Chile ostenta dois, Gabriela
Mistral e Pablo Neruda. Em compensação, chutamos a
bola como ninguém (embora não estejamos em nossos
melhores dias), corremos na Fórmula 1 a uma velocidade que
nenhum outro mamífero alcança, erguemos os braços
vitoriosos em quadras de tênis e vôlei. Você nem
herói nacional pode ser! Se ao menos pudesse requebrar sobre
o gargalo de uma garrafa, haveria de merecer o seu minuto de fama.
Fique em casa!"
Não fico.
Nem aceito que minhas limitações permaneçam
estigmatizadas por expressões equívocas. Não
sou um portador de deficiência. Sou um portador de inteligência,
aptidões e talentos. De dignidade e cidadania. Por que não
qualificam de deficientes visuais aqueles que usam óculos?
Sou um Pode
- portador de direitos especiais. Todos temos direitos universais.
Tenho direito também aos especiais: equipamentos sociais,
prioridade no atendimento público, estacionar em local proibido,
etc. Quero ser definido não pela carência que atinge
a minha saúde, mas pelo direito que a sociedade está
obrigada a me assegurar.
Neste mês
de agosto, é a mim que o Ano Internacional do Voluntariado
dedica sua atenção. O Comitê Brasileiro de Voluntariado
e o Centro de Voluntariado de São Paulo esperam que a campanha
deste mês sirva para mobilizar todos aqueles que podem ajudar-me
a ser reconhecido como cidadão.
Como qualquer
pessoa, preciso trabalhar. Sei que não tenho aptidão
para certas tarefas, em razão do meu descontrole motor. Mas
de quantas coisas sou capaz, graças à minha inteligência
e cultura, habilidade e talento! Sei pintar com a boca ou com os
dedos dos pés; posso ensinar idiomas ou computação
sem me erguer da cadeira; sou bom no controle de qualidade dos produtos.
O que seria
de nós se Beethoven fosse discriminado como surdo e Stephen
Hawking, como aleijado? E se Van Gogh permanecesse internado após
cortar a própria orelha? E se Lars Grael ficasse em casa
lamentando a perda de uma perna?
Deficiente é
quem traz na vida um déficit com quem depende de solidariedade:
o pai que ignora o filho doente; a mãe que se envergonha
da filha excepcional; o empresário que exige "boa aparência"
de seus funcionários; o poder público que não
constrói equipamentos, nem põe na cadeia quem discrimina
um portador de direitos especiais.
Vontade de fazer
as coisas eu tenho. Capacidade, também. Sei que posso, sou
um Pode. Só faltam oportunidades e quem reconheça
que, aquém dos direitos especiais, tenho também direitos
universais.
Frei Betto,
escritor, é autor do romance O Vencedor (Ática), entre
outros livros
(O Estado de
S. Paulo)
|