Portadores de deficiência podem render mais que outros empregados

A lei que obriga as empresas brasileiras com mais de 100 funcionários a ter entre 2% e 5% do quadro composto de deficientes, criada há dez anos mas respeitada de fato apenas a partir de 1999, foi inicialmente recebida como uma iniciativa filantrópica.

De uns tempos para cá, tornou-se um desafio a mais - e positivo - na reestruturação de companhias que querem crescer com o máximo de aproveitamento de cada funcionário contratado. Já que são obrigadas a empregar deficientes, muitas companhias perceberam que podem tirar bom proveito disso. Descobriram que cegos, surdos ou ocupantes de cadeira de rodas são capazes de render tanto quanto outros profissionais, desde que colocados em funções certas - as que eliminam as desvantagens provocadas pela deficiência.

"A fase de tratá-los como coitadinhos já passou", diz Luiza De Paula, gerente de projetos sociais da consultoria de recursos humanos Gelre, que criou um departamento especial para recrutar pessoas com alguma deficiência.

Na distribuidora de materiais de escritório Gimba, em Barueri, na Grande São Paulo, mais de trinta deficientes auditivos selecionam e embalam os produtos encomendados pelos clientes. A experiência começou em 1998, inspirada nos resultados de uma agência dos Correios que conseguiu reduzir os índices de erro na distribuição das correspondências ao contratar surdos para a tarefa. "Eles têm grande capacidade de concentração", atesta o gerente administrativo, Augusto Dolce. No Laboratório Fleury, em São Paulo, vinte pessoas com problemas visuais foram contratadas para trabalhar na câmara escura do raio X.

Esses são bons exemplos, mas ainda limitam a atuação dos deficientes a setores específicos. Para ampliá-los, o Instituto Ethos de Responsabilidade Social, que reúne empresas, apresentou recentemente uma cartilha que detalha os passos necessários para adaptar os ambientes de trabalho à mão-de-obra de deficientes. Por causa dos gastos exigidos para adequar os prédios, os usuários de cadeira de rodas são os que mais enfrentam dificuldade para conseguir emprego. Quando a estrutura está para ser construída, no entanto, fica mais fácil prever a inclusão deles.

Na nova fábrica da Black & Decker em Uberaba, Minas Gerais, as posições no final da linha de produção foram preparadas exclusivamente para receber os chamados cadeirantes. Até outubro, pelo menos doze serão contratados com a tarefa de fazer a última limpeza dos eletrodomésticos. Na central de atendimento ao consumidor do Pão de Açúcar em São Paulo, a recém-concluída reforma permitiu a circulação de cadeiras de rodas. As baias dos atendentes do call center ganharam mais 40 centímetros de largura. Três portadores de deficiência já estão trabalhando no atendimento telefônico.

Marilene Benício, 36 anos e paraplégica desde os 9, precisa de ajuda apenas para chegar ao emprego. "Aqui eu me viro sozinha", diz a moça, que ficou um ano desempregada depois de trabalhar em uma loja de carros que não tinha as condições adequadas.

(Veja - 12/06/02)