Escolas se preparam para receber deficientes

Escolas públicas e privadas adaptam ensino para receber deficientes nas classes regulares.

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Os novos colegas da turma

Mais de 24 milhões de pessoas têm alguma deficiência, física ou mental, no Brasil. Elas representam 14,5% de toda a população, segundo o IBGE. Apesar dessa presença maciça, quando o assunto é educação, os números do Ministério da Educação (MEC) mostram uma realidade excludente. Dos mais de 57 milhões de alunos matriculados nas redes pública e particular, apenas 500 mil são deficientes. Isso significa que, nesse mar de estudantes, os deficientes não chegam a 1% dos brasileiros que ocupam as salas de aula.

Apesar das estatísticas desalentadoras, há alguns bons sinais de mudança. Entre 2002 e 2003, o número de matrículas de alunos deficientes em salas regulares - e não mais em classes especiais - cresceu 31%, segundo o MEC. Na comparação entre 2002 e 2003, aumentou em 27,6% o número de escolas que passaram a aceitar os estudantes que, antes, recusavam.

Neste ano, o Censo Escolar do MEC identificará, pela primeira vez na história, em que série está cada um dos alunos deficientes. ''Antes, os dados mostravam apenas quantos eles eram na escola'', diz Cláudia Pereira Dutra, secretária de Educação Especial do MEC. ''Não sabíamos em que série estavam, nem se permaneciam ou não nas salas de aula.'' O governo promete mais: até 2006, todas as escolas brasileiras terão de ser inclusivas.

Antecipando a vontade do ministério, o Estado de Goiás é o exemplo de que a educação inclusiva pode acontecer, e com qualidade, na escola pública. A revolução no ensino goiano começou em 1999. Até então, o quadro lá era semelhante ao de outras regiões do país. Apenas 52 escolas faziam o atendimento de 9 mil alunos deficientes. Hoje, eles já são mais de 30 mil entre os matriculados. O processo começou com a sensibilização dos profissionais de educação. Depois, veio a implementação de um sistema que estivesse aberto a todos os alunos - sem exceção.

Em 2001, aconteceu a expansão da inclusão e 315 escolas toparam o desafio. No ano seguinte, todas as unidades de ensino do Estado passaram a aceitar alunos deficientes. ''Foi uma reação em cadeia. As escolas municipais quiseram adotar o modelo utilizado pelo Estado e assim o ensino goiano passou a ser inclusivo'', diz o superintendente de Ensino Especial de Goiás, Dalson Borges Gomes, de 36 anos, filho de um casal de surdos. ''Quando minha mãe era adolescente, foi rejeitada pelas escolas daqui e precisou se mudar para o Rio de Janeiro para estudar. Hoje, ninguém mais vai embora do Estado por conta disso'', diz.

Em São Paulo, o governo estadual está reformando mais de 400 escolas e, há três anos, mantém um centro de apoio pedagógico que desenvolve materiais didáticos específicos para cada necessidade dos alunos deficientes. Os cegos ou aqueles que apresentam quadro de baixa visão têm direito a livros em braile ou com letras e números aumentados. Pela manhã, eles freqüentam as salas regulares e, à tarde, têm aulas de reforço em salas menores e com professores especializados.

Nos recém-inagurados Centros Educacionais Unificados (CEUs), da prefeita ä e candidata à reeleição por São Paulo, Marta Suplicy (PT), a inclusão acontece independentemente de os deficientes estarem matriculados na escola. Os que vivem nos arredores dos CEUs, geralmente localizados em áreas periféricas, podem freqüentar aulas de natação, teatro e fazer outras atividades que não envolvam a sala de aula. A unidade de São Matheus, na zona leste da capital, mudou a vida de Edilson Ferreira Oliveira, de 32 anos. Ele anda de joelhos ou em cadeira de rodas e tem dificuldades na fala, seqüelas de uma paralisia cerebral. ''Fiquei 13 anos fora da escola. Antes havia muito preconceito. Hoje, sinto que o comportamento dos professores com os deficientes mudou e isso contribuiu para que os outros alunos também nos aceitassem'', alegra-se.

Medo e despreparo são alguns dos elementos que fazem com que professores deixem de aceitar alunos deficientes em salas regulares. A pedagoga Emília Mendes Marinho, fundadora de uma escola particular na zona leste de São Paulo, evitou ao máximo essas matrículas. ''Não tinha preconceito, só não me sentia preparada para recebê-los na escola'', conta. Mas, no fim de 2002, Emília não conseguiu resistir às lágrimas de uma mãe que, desesperada com as constantes recusas de escolas, bateu a sua porta. Amanda, de 15 anos, apresentava um quadro de problemas neurológicos aliados a sérios comprometimentos motores. Indecisa, Emília pediu que a mãe voltasse no início do ano letivo. Nesse meio tempo, procurou por cursos de capacitação. E aceitou a matrícula da adolescente. ''Amanda foi uma escola para nós'', diz. O comportamento dos outros alunos também mudou. ''Tinha vontade de conversar com pessoas deficientes, mas me diziam que elas eram agressivas'', conta Carla Martins, de 16 anos. ''Mas, depois que elas entraram na escola, o mito caiu por terra. Elas são amorosas, educadas e nos ensinaram muito sobre convivência'', diz.

Amanda não aprendeu a ler. Mas já sobe escadas - coisa que não fazia antes da escola. Também ganhou amigos. ''Os profissionais da educação precisam ver que a escola inclusiva põe em xeque o modelo tradicional de sala de aula. Os alunos são diferentes entre si e apresentam diferentes tipos de inteligência. Não se pode mais medir a competência de uma pessoa só pelo lado lógico-racional'', diz Romeu Sassaki, consultor para a área de deficiência. ''Um síndrome de Down pode ser alfabetizado com música. É preciso explorar o melhor da potencialidade de cada uma das crianças. Já se conhecem vários outros tipos de inteligência'', afirma.

Mas, mesmo com essas iniciativas, a situação, dizem os especialistas, está longe de uma educação plena. ''Muita gente fala que a escola não é boa nem para quem não tem deficiência, imagine para quem tem. Quando esse discurso vem à tona, fica evidente que é a escola brasileira que está em questão, e não a educação inclusiva'', diz a diretora-executiva da ONG Escola de Gente, Claudia Werneck.

Experiências bem-sucedidas na área pública são novidades - e ainda raras. Na rede privada, a inclusão é realidade há mais tempo. ''Não é só colocar um aluno deficiente em sala de aula e pronto'', diz Kátia Martinho, fundadora da escola Criativa, que desenvolveu seis metodologias de ensino para alunos com necessidades educacionais especiais. Para cada tipo de deficiência, há um acompanhamento específico. A interação entre os alunos deficientes e os não-deficientes é grande. Nos intervalos de aula, eles brincam e fazem jogos juntos, o que inclui também molecagens comuns à idade.

Do total de matriculados na Criativa, 30% apresenta algum tipo de deficiência. ''Eles não estão aqui para competir com os outros alunos, e sim para conviver'', diz Kátia. Os pais parecem satisfeitos. ''Meus filhos conviveram, na escola, com a diferença desde pequenos e cresceram sem preconceito. Acredito que isso fez deles pessoas muito melhores'', diz a advogada Gley Volpe, mãe de Leandro, de 19 anos, e Mayara, de 14. ''Isso foi mais importante do que qualquer preparação para o vestibular ou conteúdo pedagógico'', conta.

Para quem tem um filho deficiente na escola inclusiva, os ganhos são visíveis. André estudou em instituições voltadas para crianças autistas e em escolas particulares. Em uma delas, não chegou a ficar 15 dias. Na Criativa, foi matriculado em uma sala com poucos alunos. Em três anos, já lê e escreve. ''Para acontecer a inclusão, a criança precisa se sentir parte do grupo. E tem de haver um cuidado especial para que os outros alunos não superprotejam essa criança'', diz Mônica Noto, mãe de André. Há 23 anos, quando começou a inclusão, Kátia enfrentou o preconceito de alguns pais, que não queriam que seus filhos freqüentassem a mesma escola de crianças deficientes. Hoje, o diferencial pedagógico virou marca da escola.

É para evitar esse tipo de resistência que a ONG Escola de Gente oferece oficinas inclusivas para empresas e escolas, estimulando o debate em torno da inclusão. ''A capacitação dos professores é importante, principalmente porque eles costumam ter uma idéia preconcebida de aluno'', diz Claudia Werneck.

A rejeição das escolas, e de parte da sociedade, que durante anos voltaram as costas para essa parcela da população, se traduz em números e em um enorme desafio. Um relatório sobre a Situação da Infância Brasileira, divulgado pelo Unicef, mostra que a taxa de analfabetismo entre crianças com deficiência é de 22,4% - porcentual duas vezes maior que o de meninos e meninas não-deficientes e que freqüentam a escola regularmente. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), 80% das pessoas deficientes vivem em países em desenvolvimento, como é o caso do Brasil. Barreiras arquitetônicas, prédios sem rampas são apenas a ponta do iceberg. ''Para o processo inclusivo completo, é preciso que haja acessibilidade na comunicação, quebrando os estereótipos'', diz Sassaki.

(Revista Época – 13/09/04)