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Empresas investem em deficientes físicos
e mentais
Preocupadas
com a qualificação desses profissionais, as empresas
têm investido no processo de inclusão social visando
a diversidade e a valorização de talentos.
Leia
mais:
- Empresas investem em deficientes físicos e
mentais
- Incluir e não excluir é o dilema do
Senac do Rio
- Portadores de deficiência têm espaço
em todos os cursos do SENAI
- Serasa forma profissional com deficiência
Empresas
investem em deficientes físicos e mentais
Diversidade
é a palavra da vez nas corporações brasileiras
e começa a ganhar cada vez mais adeptos. Depois de investir
na contratação e qualificação de pessoas
de diferentes nichos, as empresas estão voltando os olhos
para os profissionais com deficiências física e mental.
Apesar de já se falar disso há algum tempo, parece
que as empresas estão deixando de contratar para cumprir
cotas e começando a enxergar os deficientes como profissionais
que antes de ser diferentes, podem ser competentes e muito talentosos.
Especialistas
da área dizem que as empresas estão começando
a mudar de postura e que elas têm se mostrado mais dispostas
a contratar deficientes nos últimos quatro anos. Mas equívocos
como a contratação pela limitação e
não pela competência que o profissional com deficiência
apresenta ainda é muito frequente no mundo corporativo.
"Ao selecionar,
é levado em conta onde aquela deficiência se adequa
dentro da empresa e nesse momento já começa a exclusão,
porque qualquer outro profissional é contratado pelo seu
talento", diz Claudia Werneck, diretora executiva da ONG Escola
de Gente - Comunicação em Inclusão e jornalista
e escritora especializada no conceito de sociedade inclusiva.
Claudia explica
que essa atitude não é intencional, mas o preconceito
com a diversidade é tão grande que inconscientemente
acaba-se discriminando. "Ou a empresa olha a deficiência
antes de ver a pessoa ou nega a deficiência e não cria
nenhuma diferença - o que também é muito errado".
Para ela, a inclusão está justamente no fato de que
o mundo é feito de pessoas diferentes e por isso não
pode-se negar as limitações das pessoas.
E é por
essa e outras razões que muitas companhias têm contratado
os serviços de consultorias especializadas na inserção
desses profissionais no mercado. É o caso da Gelre que faz
rescrutamento e seleção e auxilia as empresas não
só no processo de contratação, mas também
na sensibilização de todos os profissionais que fazem
parte da companhia.
Desde 2000,
a Gelre já realizou cerca de 900 contratações
de portadores de deficiência e movimenta uma média
de 35 vagas por mês. "Sem dúvida alguma, no começo
a contratação estava muito vinculada à lei,
mas acho que foi a partir dessa necessidade que as empresas começaram
a entender um pouco melhor e se preocupar com a questão",
diz a gerente da divisão de inclusão social da Gelre,
Maria de Fátima e Silva.
Mas para o professor
de Relações do Trabalho da USP, José Pastore,
apesar das empresas se mostrarem mais dispostas, o medo de que esse
tipo de contratação não dê certo ainda
é muito grande. "Muitas empresas que ainda não
estão preparadas para receber esses profissionais ficam totalmente
frustradas com o resultado", diz.
Segundo o professor,
essa frustração termina bloqueando novas contratações
por partir do princípio que todos os deficientes são
limitados. Cláudia, por sua vez, diz que o outro extremo
também pode ser perigoso: "A idéia de que todo
deficiente é eficiente é tão preconceituosa
quanto a de que todo deficiente é incompetente". Isso
porque ao se estereotipar um grupo de pessoas, corre-se o risco
de sobrecarrega-lo. "O deficiente se sente obrigado a superar
as expectativas que dele se espera", explica.
O que importa
é que muitas corporações, preocupadas com a
qualificação desses profissionais, têm investido
no processo de inclusão social visando a diversidade e a
valorização de talentos. São inúmeras
as iniciativas nesse campo, cada uma com a sua peculiaridade, mas
todas com uma única finalidade: valorizar pela competência
e não pela deficiência.
(Marina Rosenfeld
- 20/02/03)
Incluir
e não excluir é o dilema do Senac do Rio
Incluir pessoas
com deficiência no mercado de trabalho é uma luta dura
no Brasil, ainda mais quando exige-se qualificação.
Para sensibilizar empresas sobre essa questão e ajudar no
processo de capacitação desses profissionais é
que o Senac do Rio criou há três anos o projeto Sem
Limite.
Em parceria
com o IBDD (Instituto Brasileiro de Defesa dos Direitos da Pessoa
Portadora de Deficiência) e com o DRT (Delegacia Regional
do Trabalho) do Rio de Janeiro, o Senac já investiu mais
R$ 500 mil em desenvolvimento de projetos, preparação
de docentes e instrutores, cursos profissionalizantes, palestras,
seminários e um livro que recebe o nome do projeto e que
traz desde os direitos do deficiente até casos de pessoas
que se destacaram pela sua competência.
O Senac criou
um mecanismo onde as empresas levam as suas demandas e a partir
daí, os profissionais do projeto Sem Limite desenvolvem um
trabalho de acordo com as necessidades daquela organização.
Isso é, para cada empresa que procura o Senac atrás
de capacitação para os seus deficientes, um projeto
novo é montado. Como é o caso da Febraban (Federação
Brasileira dos Bancos), por exemplo, que precisava de cursos de
contabilidade e crédito. Um outro convênio, com a administradora
de cartões de crédito Credicard, resultou na formação
de operadores de telemarketing.
Muitas vezes,
a demanda não é qualificação de portadores
de deficiência, mas a sensibilização dos outros
funcionários da organização em relação
a esses profissionais.
A DRT, por sua
vez, também mudou de postura. Ela passou a incentivar as
empresas para que se associassem ao Senac neste trabalho. "A
delegacia prega que, ao invés de simplesmente pagar uma multa
pelo descumprimento da lei de cotas, de caráter meramente
punitivo, a empresa use esse dinheiro para o desenvolvimento profissional
de deficientes", disse a gerente do Centro de Educação
para o Trabalho e a Cidadania do Senac Rio, Giselle Safadi.
Segundo Giselle,
a própria DRT ao conscientizar as empresas parceiras, fez
com que elas investissem no projeto e nesses profissionais, mesmo
antes de contratar um deles. "Isso mostra que já há
um movimento espontâneo por parte das empresas e que elas
estão mudando a sua percepção diante dessa
questão".
"A idéia é capacitar para que essas pessoas possam
concorrer a uma vaga no mercado e sejam reconhecidas pela sua competência",
acredita a gerente. Segundo ela, os deficientes enfrentam discriminação
e preconceito para obter profissionalização adequada
e garantir emprego e, por isso, é que iniciativas como essa
do Senac são importantes.
Giselle diz
ainda que o próprio projeto Sem Limite surgiu porque o Senac
chegou a conclusão que não estava preparado para receber
portadores de deficiência nos seus cursos, não por
razões de estruturas físicas, mas pela falta de preparo
tanto dos docentes quanto de qualquer outro funcionário que
estivesse em contato com eles.
Outra preocupação
do Senac foi preparar docentes de programas regulares que não
conheciam ou não entendiam sobre o assunto e colocá-los
para aplicar os cursos. "Não queremos criar salas ou
então contratar professores especializados. Queremos preparar
para incluir e não excluir", afirma.
(Marina Rosenfeld
- 20/02/03)
Portadores de deficiência têm espaço
em todos os cursos do SENAI
Em meio a tantas
ações dedicadas à inclusão de portadores
de necessidades especiais em cursos de capacitação
profissional, o difícil é encontrar uma tenha na mesma
sala de aula alunos portadores e não-portadores de deficiência.
Mas esse não é o caso do Senai (Serviço Nacional
de Aprendizagem Industrial) que decidiu seguir ao pé da letra
o conceito de inclusão e abriu vagas em todos os seus cursos.
Segundo Alberto
Borges de Araújo, coordenador de educação do
Departamento Nacional do SENAI, em Brasília, desde que começou
em 1999, o projeto "Inclusão do Portador de Necessidades
Especiais nos Programas de Educação Profissional do
SENAI e no Mercado de Trabalho" já capacitou cinco mil
pessoas em todo o país.
O projeto, que
começou em Brasília mas já foi disseminado
em todas as unidades do Senai no país, busca a inclusão
de portadores de todos os tipos de deficiência: física,
mental e psicológica e também de pessoas com altas
habilidades (superdotadas). "Passamos também a solicitar
aos alunos que desenvolvessem produtos para os portadores de necessidades
especiais. Já estamos confeccionando uma prótese para
portadores de deficiência física, além de softwares
e materiais didáticos", disse Araújo.
Apesar de lidar
com a inclusão social no mercado de trabalho, os cursos do
Senai não garantem emprego. Apenas preparam e qualificam
o portador de deficiência para as exigências das novas
relações profissionais. "Além de buscarmos
sensibilizar a sociedade e os departamentos do Senai para a questão,
temos um trabalho de conscientização junto ao empresariado
brasileiro", afirmou Araújo.
Segundo ele,
o projeto do Senai surgiu antes da lei que obriga a contratação
de portadores de deficiência. Depois da lei, a demanda pelos
cursos da instituição aumentou consideravelmente.
"Mas nem por isso acredito que as empresas estejam preocupadas
apenas com o cumprimento da lei. A maioria não quer apenas
onerar sua folha de contratos. Já existem casos de empresas
que até ultrapassaram a cota exigida pela lei", conta.
(Bianca Justiniano
- 20/02/03)
Serasa forma profissional com deficiência
Desde 2001,
a Serasa, empresa de análises e informações
econômico-financeiras, tem tido resultados animadores no que
se diz respeito à contratação de pessoas com
deficiência. Já são mais de 38 profissionais
com deficiência que circulam na empresa nas mais variadas
áreas. Desses, 33 ingressaram na companhia por meio do programa
Empregabilidade de Pessoas com Deficiência.
A Serasa, que
sempre investiu em seus profissionais, começou a sentir falta
de programas que tivessem como foco a formação do
profissional com deficiência. "Percebemos que assim como
a maioria dos profissionais que está no mercado, os deficientes
também têm pouca qualificação e por isso
resolvemos investir neles", disse o coordenador do projeto,
João Baptista Ribas. Ribas, que é paraplégico,
foi contratado pela empresa para implementar e coordenar o programa.
"A Serasa queria alguém que entendesse sobre o assunto
e que também tivesse algum tipo de deficiência".
A idéia
do projeto, segundo Ribas, é fugir de qualquer atitude paternalista
ou assistencialista. "Não empregamos porque ele é
portador de deficiência, mas sim pelas competências
que ele tem ou pode vir a ter", explica. É por essa
razão, que os deficientes, sem nenhum vínculo empregatício
com a Serasa, participam do programa de estágios da empresa
durante seis meses.
No primeiro
mês, eles recebem um treinamento voltado para a sua identidade
e postura profissional e aconselhamento de carreira. Depois desse
período, eles começam a estagiar em diferentes áreas
dentro da empresa e passam por avaliações constantes.
"São seis meses de experiência em que eles têm
a oportunidade de se desenvolver profissionalmente", acredita
Ribas. A etapa seguinte é decidir quais profissionais vão
ser efetivados ou não. Os que não são absorvidos
pela organização são encaminhados para outras
empresas que fazem parte da rede de relacionamentos da Serasa.
O programa,
que recebe dois grupos de 12 deficientes duas vezes por ano, oferece
oportunidade de desenvolvimento para portadores de deficiência
física, auditiva e visual. O único requisito é
estar cursando nível superior. "Queremos prepará-lo
para o mercado e, por isso, ele deve estar capacitado para trabalhar
aqui ou em qualquer outro lugar. E hoje, como o grau de exigência
é grande, é preciso ter um certo nível de escolaridade
para que o profissional possa ser desenvolvido", explica.
De acordo com
o coordenador, o que mais se vê hoje em dia são profissionais
com deficiência que passam anos e anos no mesmo cargo, exercendo
as mesmas funções e ganhando o mesmo salário.
"Eles ficam estagnados e geralmente fazem trabalhos operacionais
e não é isso que a gente quer. Sempre digo que a maior
vontade da Serasa é um dia vê-los num cargo gerencial
pra cima", finaliza.
(Marina Rosenfeld
- 20/02/03)
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