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Meio
século em benefício de deficientes visuais
Ela venceu inúmeras
barreiras. Nascida na cidade de São Paulo em 1919, ficou
cega aos 17 anos, não desistiu de estudar e formou-se professora
primária numa classe onde só havia colegas com visão
normal. Em 1946, Dorina Nowill abriu uma fundação,
que leva seu nome e funciona até hoje, imprimindo e distribuindo
livros em braile para mais de 700 instituições.
Com dedicação
e persistência, Dorina conseguiu implantar uma série
de mudanças nos serviços para os deficientes visuais
no Brasil e no mundo. De 1953 a 1970, dirigiu o primeiro órgão
nacional de educação de cegos no País, período
em que desenvolveu cursos de preparação de professores
para o ensino de cegos, centros de reabilitação e
programas de prevenção à cegueira. Ela também
ocupou importantes cargos em Organizações Internacionais
de Cegos, foi um dos membros fundadores do Conselho Mundial para
o Bem-Estar dos Cegos, atual União dos Cegos, órgão
consultor da Organização das Nações
Unidas (ONU), tendo sido a única mulher eleita para assumir
a presidência desse conselho.
Como reconhecimento
pelos seus esforços no desenvolvimento e inclusão
de pessoas com deficiência visual, Dorina tem recebido inúmeros
prêmios de organizações de todo o mundo, entre
eles o "Prêmio Direitos Humanos", em 1997 e o "Prêmio
Educação", em 2001.
Cidadania-e:
Como surgiu a Fundação Dorina Nowill?
Dorina Nowill: A Fundação surgiu da necessidade
que eu tive de encontrar livros em Braille. Fiquei cega aos 17 anos
e fui convidada a fazer o Colégio Caetano de Campos, em São
Paulo, que era famoso pelo seu excelente curso Normal, que depois
veio a ser o Magistério. Eu e um grupo de colegas iniciamos
então um estágio no Instituto de Cegos Padre Chico,
onde começamos um estudo a respeito da situação
educacional das crianças cegas. Em 1946, criamos a Fundação
para o Livro do Cego do Brasil, que funcionava em uma pequena sala
do Colégio Caetano de Campos e era destinada a transcrever
para o braille livros pedagógicos e alguns títulos
clássicos da literatura mundial. A transcrição
dos livros era feita com o auxílio de um grupo de voluntários,
treinados pelos alunos do Curso de Especialização
de Professores para Cegos do próprio Colégio. No ano
seguinte, recebi uma bolsa para aperfeiçoar meus estudos
na área de educação para cegos na Universidade
de Columbia, nos Estados Unidos. Voltei em 1950 e, com a colaboração
dos Governos Municipal e Estadual, além de apoio financeiro
da American Foundation for Overseas Blind e Kellog Foundation for
the Blind, criamos a Fundação a Imprensa Braille.
Neste ano também assumi a presidência da Fundação
para o Livro do Cego do Brasil. A entidade continuou ampliando suas
atividades até que, em 1991, recebeu uma nova denominação
e se tornou Fundação Dorina Nowill Para Cegos.
Cidadania-e:
Que projetos a Fundação desenvolve?
Dorina Nowill: Dispomos de uma imprensa braille moderna,
que distribui livros gratuitamente para cerca de 800 escolas, entidades
de atendimento aos deficientes e 3 mil cegos individuais. Há
também um programa de bibliotecas - temos uma própria
e doamos livros para diversas bibliotecas municipais de São
Paulo, como forma de facilitar o acesso dos livros em braille também
na periferia. Um outro projeto é o do Livro Falado, onde
os voluntários gravam os livros em fita cassete e agora vamos
começar a gravar em cds. Oferecemos cursos para os deficientes
aprenderem a operar equipamentos modernos que auxiliam na leitura
convencional, ou seja, equipamentos que permitem ao cego, ou a pessoa
com baixa visão, ler sem que os textos estejam em braille.
Temos o serviço voluntário de transcrição
e fazemos um atendimento local de educação ou reabilitação
de bebês ou crianças na idade escolar. Esse serviço
é importantíssimo, pois além de desenvolvermos
as habilidades da criança cega, ensinamos os pais a tratar
e a estimular seus filhos, mesmo com as dificuldades provenientes
da falta total ou parcial da visão.
Cidadania-e:
Quais as maiores dificuldades que a pessoa portadora de deficiência
(PPD) enfrenta?
Dorina Nowill: Tudo depende da pessoa. Se você é
um bebê e seus pais não têm o preparo necessário,
sua maior dificuldade vai ser desenvolver as suas habilidades sem
o estímulo necessário. No caso da educação
há uma falta de recursos para livros específicos,
para lentes especiais. Por exemplo - não há Atlas
para cegos disponível na maioria das escolas brasileiras.
Agora, uma das coisas mais difíceis para os deficientes é
ter acesso à boas terapias, cursos e afins, isso porque boa
parte, senão a quase totalidade das entidades que prestam
estes serviços, sofrem com a escassez de recursos financeiros.
Cidadania-e:
A sociedade civil está cumprindo o seu papel no processo
de inclusão da PPD?
Dorina Nowill: A sociedade civil está cada vez mais
organizada. O chamado terceiro setor é uma prova disso. É
ele que, em matéria de serviços, desenvolve muito
mais ações do que as próprias instituições
públicas. Fiquei sabendo outro dia que no Brasil há
aproximadamente 220 mil instituições, organizações
e fundações sem fins lucrativos. São eles que
cobrem boa parte das carências do nosso país.
Cidadania-e:
A Constituição Brasileira garante direitos e deveres
iguais a todos os cidadãos. Você acredita que isso
é regularmente aplicado no caso do portador de deficiência?
Dorina Nowill: Não faltam Leis, o que falta é
aplica-las. A inclusão, nada mais é do que a aplicação
da Lei que garante direitos e deveres iguais para todos. No caso
do portador de deficiência, a legislação não
é perfeita, mas tenta obrigar a sociedade civil a cumprir
a sua parte no mecanismo da cidadania. Um exemplo disso é
a Lei que obriga as empresas a preencherem uma porcentagem do seu
quadro de funcionários com portadores de deficiências.
Essa ainda nã o é a solução, mas é
um começo. Para garantir direitos e deveres iguais, é
preciso oferecer ao portador de deficiência oportunidades
iguais. É preciso que ele possa desenvolver suas aptidões
e ser reconhecido naquilo que é capaz de fazer. Não
basta dar emprego, é preciso que o deficiente esteja apto
a executar as suas tarefas e a progredir profissionalmente, socialmente
e economicamente como todos os outros cidadãos.
Cidadania-e:
A educação inclusiva funciona?
Dorina Nowill: A educação inclusiva evoluiu
muito nos últimos anos, mas se você observar como estrutura,
verá que há grandes falhas ainda. A especialização
do professor que trabalha com alunos deficientes ainda é
muito precária. De fato, a educação por si
só já é bastante falha, mas no caso da educação
especial essa fragilidade se torna mais evidente. No lado do estudante,
verificamos que a formação do deficiente é
muito escassa. Falta material didático, acesso a outros meios
de educação que não são limitados apenas
às escolas. Além do que, é preciso que o educador
saiba que na sua classe há pessoas deficientes, e que elas
precisam de diferentes estímulos. Vale lembrar que inclusão
é tudo. É no comércio, na indústria,
nos meios de locomoção. Tudo isso tem que ser repensado
para que o \deficiente tenha uma participação mais
ativa no mundo em que vive. Acima de tudo, a inclusão tem
que começar na própria família do portador
de deficiência.
Cidadania-e:
Você perdeu a visão ainda adolescente, continuou estudando,
se formou professora, constituiu uma família e até
hoje desenvolve projetos que mudaram a vida de milhares de deficientes.
Qual a sua maior vitória?
Dorina Nowill: Eu nunca digo que existe a maior vitória.
O que vale é a vitória de cada dia. Sou feliz, criei
cinco filhos, tenho 12 netos, um casamento de mais de 50 anos e
sinto que fiz algumas coisas importantes na minha vida. Acho mesmo
que a maior vitória é a soma das vitórias de
cada dia.
Para saber
mais sobre Dorina Nowill e a Fundação, acesse o endereço
www.fudacaodorina.org.br
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(Cidadania-e)
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