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Down na terceira idade
Meio século
atrás, pessoas com síndrome de Down raramente sobreviviam
além da adolescência. Essa situação mudou
inteiramente. A expectativa de vida delas saltou para 56 anos, e
já não causam surpresa aquelas que ultrapassam os
60 ou mesmo os 70 anos. Vários fatores contribuíram
para que isso acontecesse – a assistência médica
específica e mais eficiente, maior oportunidade de convívio
social, o acesso à escola e ao mercado de trabalho são
os principais. Isso tudo formou uma geração de indivíduos
que nasceram com Down e estão chegando à terceira
idade. Trata-se de inesperado desafio. Como lhes proporcionar os
cuidados de que necessitam na velhice? Quando chegam a essa fase
da vida, seus pais, as pessoas que geralmente davam atenção
a eles desde pequenos, ou estão muito velhos ou morreram.
"No passado, os médicos diziam para os pais não
se preocuparem, porque os problemas físicos nunca deixariam
pessoas com Down chegar à idade adulta", diz Jô
Clemente, uma das fundadoras da Associação de Pais
e Amigos dos Excepcionais (Apae), de São Paulo. "A situação
agora é completamente outra."
Estima-se em
300.000 o número de brasileiros com Down. A síndrome
ocorre quando o cromossomo 21, em lugar de ser formado pelo par
normal, ganha um terceiro elemento. Os sinais exteriores da alteração
genética são perfeitamente visíveis. Os olhos
amendoados e o rosto arredondado lembram vagamente traços
orientais. Os músculos são flácidos, o que
dificulta a fala e aumenta a possibilidade de quedas. O metabolismo
mais lento favorece a obesidade. O desenvolvimento intelectual é
comprometido em grau variado. Problemas nos órgãos
internos e no sistema imunológico também são
freqüentes e exigem atenção médica.
Muitos desses
problemas podem ser minorados com o atendimento adequado. Em centros
especializados e nas mais de 2.000 Apaes espalhadas pelo Brasil
(quase uma para cada dois municípios), fonoaudiólogos
treinam a fala, fisioterapeutas ensinam exercícios para fortalecer
a musculatura e terapeutas estimulam o desenvolvimento cognitivo
com brincadeiras e atividades. Poucas dessas pessoas com Down que
hoje têm mais de 60 anos foram diretamente beneficiadas por
essa estrutura de apoio, criada sobretudo nas últimas duas
décadas. Alcançaram a terceira idade em grande parte
graças ao esforço dos pais e familiares para incluí-las
no convívio familiar e na sociedade.
A paulistana
Danimira Antonia Ursich, de 61 anos, freqüenta a Apae desde
1990. Lá pratica tapeçaria e outros tipos de artesanato.
Filha de eslovenos, conversa com fluência na língua
que aprendeu com os pais. O português ela praticou com os
irmãos. "Ela sempre foi incluída em todas as
atividades da família. Foi uma orientação intuitiva
dos pais na época", diz a irmã Mileni Ursich,
médica de 69 anos, que a acolheu em casa. Quando pequena,
Danimira foi alfabetizada numa escola para crianças com deficiência
mental mantida por um grupo de médicos no quintal de uma
casa. "Os principais responsáveis pela melhoria observada
nas pessoas com síndrome de Down foram os familiares, que
exigiram e forçaram os profissionais de saúde a se
preparar para lidar com seus filhos", diz o médico geneticista
e pediatra Zan Mustacchi, do Centro de Estudos e Pesquisas Clínicas
de São Paulo.
O novo desafio
dos pais agora é planejar a velhice dos filhos com Down.
Os especialistas aconselham a treinar o deficiente para uma vida
com autonomia. Isso significa ensinar a realizar sem ajuda tarefas
do cotidiano, como fazer compras no supermercado, usar o sistema
de transporte público e cozinhar. Um curso profissional pode
prepará-lo para o trabalho. Um indivíduo com síndrome
de Down pode perfeitamente fazer trabalhos repetitivos em linha
de montagem ou ser assistente de portaria. Embora nunca se possa
prever o grau de inteligência que uma pessoa com Down atingirá,
a maioria é capaz de realizar as atividades domésticas
sem supervisão. Outros conseguem avanços maiores.
No Brasil, atualmente há cinco pessoas com Down freqüentando
a universidade.
Na terceira
idade, todas essas habilidades começam a ser prejudicadas
pela debilidade física, mais acentuada que o normal. Um problema
então é saber onde essas pessoas com Down vão
morar e com quem poderão contar quando as manifestações
da idade e outros sintomas ligados à síndrome se acentuarem.
Como as Apaes e entidades similares não funcionam como internato,
normalmente a responsabilidade é assumida pelos irmãos.
"Com a morte de minha mãe, há seis anos, passei
a cuidar do Luiz", diz a advogada Lorene Aparecida Silva, 40
anos. Ela mora em Ribeirão Preto, a 310 quilômetros
de São Paulo, com o irmão Luiz Antonio Carlos da Silva,
61, que tem Down. Durante o dia, enquanto ela trabalha, Luiz permanece
na Apae, onde pinta e monta mosaicos. Nos fins de semana, os dois
aproveitam a piscina da casa ou saem para tomar sorvete.
Adultos com
Down exigem cuidados especiais. Por exemplo, eles têm enorme
dificuldade em lidar com situações novas. "Qualquer
coisa que saia da rotina de um indivíduo com deficiência
mental provoca grande ansiedade, que pode gerar conflitos",
diz Silvia Longhitano, geneticista da Universidade Federal de São
Paulo. A necessidade de exercícios físicos também
é maior, devido à debilidade muscular. A ocorrência
da doença de Alzheimer também se dá de forma
precoce. O quadro degenerativo que leva a rompantes agressivos e
perda progressiva de memória se manifesta a partir dos 40
anos em pessoas com Down, enquanto no restante da população
ocorre após os 60. "Meu irmão sempre foi uma
pessoa alegre e divertida, mas tem estado um pouco nervoso ultimamente",
comenta Cândida Amaral Brito, 47 anos, que vive em Anápolis,
Goiás. Filha caçula de uma família de treze
irmãos, Cândida cuida do primogênito, Dilmar,
que tem Down e 73 anos, e da mãe, de 92. Fã do Flamengo,
em meados do ano passado Dilmar apresentou os primeiros sinais de
Alzheimer. Com freqüência não reconhece os parentes.
A debilidade física o obriga a usar uma bengala de apoio.
No Brasil, há
poucos centros especializados no atendimento de idosos com Down.
Em 1998, a Apae de São Paulo abriu o Centro Zequinha, onde
idosos com deficiência mental podem passar o dia, fazer exercícios
físicos e praticar jogos de atenção e memorização,
uma forma de combater o Alzheimer. No condomínio Aldeia da
Esperança, em Franco da Rocha, cidade da Grande São
Paulo, 63 pessoas com deficiência mental moram em pequenos
apartamentos, trabalham e são assistidas por fisioterapeutas,
nutricionistas e médicos. Quatro dos moradores têm
a síndrome de Down. David Maiberg Neto, de 59 anos, é
um deles. Órfão de pai e filho de uma senhora de 97
anos, David tem uma vida bem integrada na Aldeia. Nos últimos
anos, com a visão e a audição comprometidas,
passou a contar com a ajuda da namorada, Sheila Falkas, 36, também
moradora do condomínio. "Ela é tudo para mim
e eu sou tudo para ela", diz David.
A Aldeia da
Esperança não está ao alcance de qualquer cidadão.
O custo inicial de ingresso equivale à compra de um pequeno
apartamento e a mensalidade é de 3.500 reais. Por outro lado,
30% dos moradores não pagam nada. No momento, há uma
fila de trinta candidatos à espera de uma dessas vagas gratuitas.
"Infelizmente, nada foi feito pelo setor público. Tudo
o que existe para o atendimento de idosos com Down é por
iniciativa privada", diz Jô Clemente, da Apae. Esse é
um assunto que os órgãos públicos não
podem continuar a ignorar. Existe grande possibilidade de o número
de pessoas com Down aumentar proporcionalmente em relação
ao total da população, uma vez que as mulheres engravidam
cada vez mais tarde. Entre as gestantes de 30 anos, a probabilidade
de nascer uma criança com Down é de uma a cada 895
nascimentos. Aos 40, o risco sobe para uma a cada 97.
(Veja)
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