Mercado de eventos abre espaço para pessoas com deficência

Aos poucos, as pessoas com deficiência vão ganhando espaço num setor onde antes dificilmente eram vistos: o de eventos. A Conferência Ethos 2004, que aconteceu na semana passada, mostrou um pouco dessa abertura ao ter sua recepção feita quase que exclusivamente por esse grupo.

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Eventos, mercado para portador de deficiência

Aos poucos, os portadores de deficiência vão ganhando espaço num setor onde antes dificilmente eram vistos: o de eventos. Na Conferência Ethos 2004, que terminou na sexta-feira, 22 deles recebiam os convidados, controlavam o entra-e-sai nas salas, faziam o credenciamento. Também já são conhecidos em convenções e feiras de porte, como a Francal Calçados, a Bienal do Livro, a Escolar.

“Costumo pôr grandes expectativas nesses eventos, porque são como uma vitrine. Tanto posso começar e terminar na mesmice quanto ser descoberta e arrumar outros trabalhos”, conta Elaine Aparecida Penquis Pereira, de 34 anos. Na cadeira de rodas por uma deficiência de nascença, ela é uma das pioneiras no setor, que lhe rende cerca de R$ 600,00 a R$ 700,00 mensais. Sombra azul nos olhos, batom nos lábios e cabelo sempre arrumado, ela nunca descuida da aparência. Nem da pontualidade. Quando tem um trabalho, costuma sair horas antes de casa para driblar as dificuldades com o transporte público. “Também procuro ter boa dicção, educação e tom de voz”, explica. “Para nós, deficientes, é como se tivéssemos de provar todos os dias que estamos na Terra não para pedir, mas para oferecer.”

Modelo de uma empresa de prótese, o atleta Edson Dantas, de 38 anos, é outro que fez dos eventos uma profissão. Trabalha na área desde 2000, mesma época em que começou a participar de competições de atletismo. Sempre bem-humorado, conta que o preconceito continua existindo, mas o negócio é tirar de letra. “E quanto mais contato com a sociedade, melhor.”

Que o diga Joaquim Antônio Costa, de 39 anos. Nos anos 80, ele lembra que chegava a chorar de tristeza quando saía para procurar emprego. “Quando viam o anão aqui, sempre diziam que a vaga já tinha sido preenchida e perguntavam: por que você não procura no circo?” Hoje, acha que a situação “melhorou 70%” e, assim como o colega José Luiz da Rocha, o Zezinho, de 33, está otimista com o futuro. Além de atuarem em feiras, os dois trabalham em bares, eventos publicitários e animação de festas.

“Graças a Deus, o governo e as empresas começam a se conscientizar e há mais informação sobre os deficientes. Mas tudo tem um tempo e nós temos de nos ajudar e fazer com que as pessoas acreditem no nosso trabalho”, completa Joaquim. Ainda é preciso, conforme lembra o contador Antonio Salvia, de 39 anos, que tem problemas de coordenação no lado esquerdo do corpo, que as vagas não se restrinjam a eventos socialmente responsáveis.

“A quantidade de trabalho ainda depende muito do tipo de deficiência. Conforme o caso, acham que ‘não é bonito’.” Para Maria de Fátima Silva, gerente de Responsabilidade Social da Organização Gelre, entidade que trabalha com inclusão, o problema é que por muitos anos a sociedade foi bombardeada por atitudes assistencialistas que sempre mostraram o pior da deficiência, focando na incapacidade.

“Essa visão, porém, começa a mudar quando você tem pessoas trabalhando – e não pedindo caridade – num espaço público de alta circulação.” Por isso,a importância dos eventos. Geralmente, os deficientes do setor têm problemas físicos. Dependendo da feira, são contratados também deficientes mentais. Pela natureza do trabalho, pessoas com problemas auditivos e visuais têm menor chance. Saber quantos eles são no setor ainda é difícil, mas há algumas pistas. De todos os eventos promovidos pela Francal, que organiza cerca de 12 feiras de grande porte por ano, por exemplo, 30% da mão-de-obra já é composta por deficientes. Ligados à Gelre, há hoje cerca de 50 profissionais capacitados para a área.

Segundo Maria de Fátima, o filão foi aberto em 2002, quando o próprio Instituto Ethos solicitou o trabalho de pessoas com deficiência para sua conferência anual. Daí surgiram convites para feiras de ótica, produtos farmacêuticos, brinquedos. Não só em São Paulo, como também no Rio, Curitiba e Brasília. “A primeira experiência foi “impactante”, lembra. “Na recepção do evento, estavam uma menina com Síndrome de Down e um cadeirante (quem anda em cadeira de rodas). Mas a reação do público foi muito positiva. As pessoas perguntavam de onde eles vinham, quem os tinha capacitado, elogiavam.”

“E é bom dizer que eles não são tratados com privilégio: têm os mesmos direitos, deveres e responsabilidades, além dos mesmos horários e cachês. As orientações também são as mesmas do que as do resto da equipe: cabelo para cima, maquiagem clean, postura pessoal”, conta Rita Figueiredo, responsável pelo treinamento de pessoal em eventos da Francal. “E o resultado é muito bom, eles são ótimos.” Para Rita, no entanto, o processo de inclusão ainda está no começo, ou num estágio de “tijolinho da construção do muro”. “Ainda existe o preconceito e a coisa de só querer modelo na porta do estande”, lembra. “Mas, aos poucos, o expositor vai começando a ter uma visão diferente sobre os deficientes e isso é bom porque também começa a contratá-los.”

(O Estado de S. Paulo – 05/07/04)

   
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