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Livros falados levam a literatura até os cegos
Há duas
semanas, o escritor e jornalista Luiz Ruffato surpreendeu-se ao
receber o e-mail de uma leitora que comentava o seu último
livro, "Eles Eram Muito Cavalos". Ela dizia ter percebido
uma "perfeita integração entre forma e conteúdo,
o peso e a leveza das palavras." A mensagem poderia ser apenas
mais um comentário de um leitor satisfeito não fosse
o fato dessa mulher ser portadora de deficiência visual. Ela
contou que se interessou pelo trabalho de Ruffato, comprou o livro
e encaminhou à Fundação Dorina Nowill Para
Cegos. Lá, um grupo de voluntários trabalha gravando
obras literárias em fitas cassete e transformando-as em livros
falados.
A surpresa do
escritor é a mesma da maioria das pessoas, que não
conhece esse trabalho realizado desde 1972. A Fundação
Dorina Nowill tem como missão auxiliar a inclusão
social de pessoas cegas ou com baixa visão. Desde 1946, produz
livros em braile e, anualmente, o número de publicações
chega a 100 mil, entre livros, revistas, músicas e materiais
para atender às necessidades de educação, cultura
e informação dos deficientes.
O livro falado
foi criado como uma alternativa à publicação
em braile, muitas vezes excessivamente volumosa. Obras de literatura
são gravadas em um pequeno estúdio na sede da fundação,
em São Paulo. A biblioteca já tem mais de 300 títulos,
todos reproduzidos em várias cópias que circulam emprestados
pelo Brasil. É possível encontrar obras de Machado
de Assis, Jorge Amado, Ernest Hemingway, Guimarães Rosa,
Luís Vaz de Camões, Clarice Lispector, entre outros.
Somente em 2000, foram produzidos 4,9 mil novos livros falados.
Geralmente,
os títulos que são gravados não obedecem a
um critério específico. Além de clássicos
da literatura brasileira e mundial, são selecionadas obras
recém-lançadas que estão em destaque na mídia,
best-seller ou materiais didáticos solicitados pelos usuários
da biblioteca.
O livro mais
solicitado no momento, segundo Edno Facco, gerente de produção
dos livros falados é "O Homem que Calculava", de
Malba Tahan. "Agora estamos com um projeto em andamento para
gravar todos os livros do Harry Potter disponíveis no Brasil",
diz ele. "Mas aguardamos patrocínio para poder gravar
e fazer as cópias necessárias."
Para se ter
uma idéia, um livro de cerca de 550 páginas resulta
em quase 1.700 minutos de gravação, ou 19 fitas de
90 minutos. Leva, em média, 12 dias para ser gravado com
quatro horas diárias de leitura em estúdio. "Tudo
isso é gasto para a fundação. Além das
fitas, temos de garantir a manutenção do estúdio
e pagar os funcionários que operam as máquinas",
explica Facco.
Os voluntários
que gravam as obras são chamados de ledores e são
submetidos a alguns testes para serem aceitos. Além de se
comprometerem com a leitura integral de um livro, ele deve ter boa
dicção e desenvoltura na leitura. Facco explica que
isso é necessário porque senão o trabalho fica
muito lento e mais caro.
Os ledores também
são instruídos a não interpretar o texto lido.
"Os 'leitores' de livros falados querem tirar da obra suas
próprias conclusões", explica o gerente. Luiz
Ruffato teve a oportunidade de ouvir o seu livro gravado pela fundação.
"É uma leitura simples, mas é emocionante saber
que uma pessoa se dispõe a fazer isso e divulgar a obra para
um leitor que nunca imaginei que pudesse ter."
Além
das obras literárias, os voluntários gravam também
a revista "Veja". Anselmo Denófrio é um
dos ledores da revista, que começa a ser gravada na segunda-feira
e termina no dia seguinte, pela manhã. Ele se reveza com
outras quatro pessoas que toda semana se comprometem a fazer esse
trabalho.
Uma edição
"falada" da "Veja" tem cinco fitas. São
feitas 90 cópias dessa edição, que são
enviadas para 16 estados do Brasil. Como os deficientes podem ficar
até duas semanas com as fitas, eles costumam emprestá-las
para outras pessoas antes de devolver. Com isso, a fundação
estima que o número de "leitores" da revista chega
a 450 pessoas.
A Fundação
Dorina Nowill é responsável por 80% da produção
nacional de material em braile. Toda a produção da
instituição é distribuída para 700 entidades
cadastradas em todo o país e para mais mil pessoas por mês.
Os livros falados também seguem para essas entidades, que
são, em sua maioria, casas de amparo ao deficiente visual
e bibliotecas. Atendem também a uma demanda de mais 5 mil
deficientes cadastrados.
Informações
sobre trabalho voluntário: (0xx11) 5087-0970 (de terça
a quinta-feira, das 10h às 16h).
(Valor)
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