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Mais pessoas com deficiência no mercado de trabalho
Lei de Cotas amplia as possibilidades de inserção,
mas a baixa qualificação ainda é empecilho.
Criada em 1991 e regulamentada por decreto em 1999, a Lei 8.213
é um marco divisor no esforço de inserção
de pessoas com deficiência no mercado de trabalho. Ao tornar
obrigatória, para empresas com mais de cem funcionários,
a reserva de 2% a 5% das vagas para indivíduos antes marginalizados
nos processos de recrutamento e seleção, essa lei
contribuiu para acelerar o processo de inclusão social e
provocou empresas e organizações de terceiro setor
a se especializarem na capacitação profissional e
na colocação desse público. "A necessidade
de cumprir a lei de cotas alavancou a implementação
de uma rede de serviços", constata Flávia Cintra,
vice-presidente do Instituto Paradigma, organização
especializada em pessoas com deficiência.
Antes da lei, poucas empresas de recrutamento se
interessavam pelo assunto. E as organizações de terceiro
setor, por sua vez, corriam atrás de companhias dispostas
a empregar pessoas com deficiência, dependendo, quase sempre,
da boa vontade de amigos de bom coração. Com a reserva
das cotas, o movimento se inverteu: hoje são as empresas
que procuram recrutadoras especializadas e organizações
para preencher o percentual de vagas.
Na opinião de Flávia Cintra, uma lei
como essa não gera necessariamente consciência e sensibilização
para a causa. Mas constitui um primeiro passo. Embora muitas corporações,
enfatiza, acionem o Instituto Paradigma apenas por se sentirem obrigadas
a cumprir o texto legal, cresce a cada dia o número daquelas
que "reconhecem a inclusão como um valor".
A Serasa é considerada uma referência
nesse tema. Especializada em decisões de crédito e
apoio a negócios, desenvolve, desde 2001, o Processo Serasa
de Empregabilidade de Pessoas com Deficiência, pelo qual já
contratou cem funcionários deficientes. E hoje tem 15 pessoas
em atividade de capacitação. Para o coordenador do
projeto, João Baptista Ribas, esse processo de seleção
apenas reforça os valores humanistas da companhia e nada
tem de paternalista, na medida em que não distingue as pessoas
com deficiência do restante dos funcionários. "Sabemos
que essas pessoas têm mais dificuldade de ingressar no mercado
de trabalho. Por isso, adotamos outros critérios de seleção.
Mas no dia-a-dia o tratamento é igual. As metas exigidas
são as mesmas para todos", explica.
Segundo Ribas, a companhia não exige experiência
anterior. E também capacita os profissionais com deficiência
antes de contratá-los. Depois disso, técnicos de recursos
humanos realizam uma análise de perfil. Se não se
mostrar apta para trabalhar na Serasa, a pessoa é indicada
para outras empresas. Efetivados, no entanto, os deficientes contam
com um ambiente adaptado e amplamente favorável para realizar
seu trabalho: além da acessibilidade física plena,
a empresa dispõe de impressoras Braille, softwares especiais,
gravadores de voz e interpretadores de Libras, a língua brasileira
de sinais. "Procuramos oferecer às pessoas com deficiência
todos os recursos de que necessitam. Mas precisamos encontrar gente
que tenha o mínimo de escolaridade", adverte.
A baixa escolaridade das pessoas com deficiência
representa, de fato, um entrave para a efetivação
da Lei de Cotas. Recente estudo intitulado "Estratégia
Empresarial sobre Empregabilidade e Sociabilidade de Portadores
de Deficiências", da AGMKT Estratégia Empresarial,
concluiu que só 31% dos deficientes, hoje empregados, têm
entre oito a 12 anos de escolaridade. Apenas 10,4% possuem carteira
assinada. Segundo Cristiane Berti, psicóloga e analista de
RH especializada em colocação de pessoas com deficiência,
boa parte das vagas não são preenchidas em virtude
da baixa qualificação aliada ao alto nível
de exigência do mercado. "Por causa disso, temos de abrir
mão, em alguns momentos, das competências técnicas,
valorizando o comportamento que esse profissional tem para nos oferecer",
conta a especialista.
Para Cristiane, o processo de colocação
profissional da pessoa com deficiência observa três
etapas. A primeira consiste em diagnosticar a necessidade da vaga
e as habilidades esperadas do contratado. A segunda refere-se à
identificação e adaptação das condições
físicas do local de trabalho. E a terceira está relacionada
à preparação dos interessados. "Para contratar
um bom profissional e oferecer a ele qualidade de vida no local
de trabalho, tudo deve ser feito com muita cautela", prega.
Flávia Cintra, do Instituto Paradigma, lamenta que, por causa
da competitividade, o acesso à educação venha
sendo determinante na contratação dos deficientes.
Na opinião de Neuza Maria Goys, consultora
da CS4, especializada em projetos de diversidade, a inserção
profissional de pessoas com deficiência enfrenta as dificuldades
naturais de um processo muito novo no universo empresarial. "Não
vejo preconceito. Mas percebo falta de experiência em lidar
com a novidade do tema. Os RH de empresas são profissionais
normalmente formados em faculdades de primeira linha e não
têm a vivência do contexto de exclusão",
afirma a consultora, para quem o serviço de colocação
das pessoas deficientes deve ter, acima de tudo, a preocupação
de educar todas as partes envolvidas: candidatos, familiares, gestores
e funcionários. Segundo Neuza, uma das principais dificuldades
no processo é a pouca flexibilidade das empresas nos requisitos
e perfis. "Muitas vezes, a companhia quer um profissional com
diploma de faculdade de administração de ponta. Não
aceita, por exemplo, um outro com talento, vontade e disposição
para crescer", avalia.
A baixa qualificação e o desconhecimento
das exigências do mercado são, segundo Neuza, dois
grandes entraves à colocação profissional dos
deficientes. Mas não os únicos. Para ela, a insegurança
da família e a baixa auto-estima também atrapalham.
"Alguns chegam procurando um cargo operacional, de baixo salário,
porque não acreditam estar preparados para nada melhor ou
porque suas famílias têm receio de expô-los.
Cuidamos para que se sintam valorizados e busquem algo melhor",
explica.
Para Ribas, da Serasa, profissionais com ou sem
deficiência apresentam as mesmas carências: baixa escolaridade,
pouco conhecimento sobre o funcionamento de uma grande empresa e
dificuldades com instrumentos de trabalho comuns, como o computador.
"Uma coisa é treinar, outra é ter de suprir o
básico que eles já deveriam chegar aqui sabendo",
afirma. "Se a pessoa não possui um conhecimento específico,
mas tem capacidade de aprender, ela fica por aqui."
Graças a uma cultura de respeito à
diversidade valorizada na empresa, Ribas avalia como "a melhor
possível" a convivência entre os funcionários.
Segundo ele, são muitas as pessoas com deficiência
circulando pela companhia. Lidar com a diferença é,
portanto, um aprendizado cotidiano e permanente. Não existe
na Serasa, acredita, nenhum tipo de preconceito, muito menos o receio
que ele já observou em outras companhias, principalmente
em relação à comunicação.
Nem todas as empresas realizam sozinhas, como a
Serasa, o processo de recrutamento e seleção. Muitas
preferem recorrer aos serviços especializados de organizações
de terceiro setor, como o Instituto Paradigma, que faz um trabalho
de educação corporativa e desenvolve projetos adequados
à realidade de cada organização. "Nossa
tarefa é instrumentalizar as corporações com
vistas a acelerar o processo de inclusão. Para isso, fazemos
a capacitação da equipe de gestores, envolvendo também
a área de responsabilidade social, de comunicação
e de engenharia", explica Flávia. Montar grupos internos
de discussão ou contratar arquitetos para tornar os ambientes
de trabalho mais acessíveis são algumas das soluções
que podem nascer do apoio de especialistas no tema.
"Tem muita gente que não sabe como se
comportar, por isso é importante criar estratégias
para que as pessoas tirem suas dúvidas e se sintam menos
inseguras", diz.
Outra organização especializada, a
Carpe Diem, adota estratégia de atuação diferente.
Lá, é a pessoa deficiente que escolhe com o que deseja
trabalhar. A entidade então diagnostica as habilidades do
candidato e faz a mediação com a empresa, passando
pelo processo de seleção, contratação,
sensibilização da companhia e acompanhamento profissional.
"Fazemos com que a empresa se adapte ao funcionário
e vice-versa", afirma Glória.
Já a Sorri-Brasil, que atua desde 1972 com
a inclusão social e profissional de deficientes, procura
estabelecer parcerias com o poder público, empresas, universidades
e outras ONGs. "Nossa meta hoje é transferir o know-how
desenvolvido nesses trinta anos de trabalho para quem precisa",
destaca a superintendente Carmen Bueno.
Além de serviços de consultoria e
palestras, a Sorri-Brasil dirige suas ações tanto
para os parceiros, com capacitações para equipes de
RH e outros funcionários, quanto para os deficientes atendidos
por meio de oficinas profissionalizantes (em artes, computação,
corte e costura, teatro, dança e artesanato, por exemplo),
colocação no mercado de trabalho e projetos de empreendedorismo
que visam a geração de renda. Os participantes dos
programas também recebem assistência médica,
psicológica e social. "Queremos que as pessoas sejam
contratadas pela sua competência", afirma Carmen.
Ainda segundo a mesma pesquisa da AGMKT, os funcionários
deficientes tendem a permanecer nas empresas por mais tempo. O desemprego,
por seu turno, atinge mais pessoas sem (7%) do que com deficiência
(6,2%). O tipo de deficiência afeta diretamente o nível
de dificuldade de inserção no mercado de trabalho.
O estudo demonstra que, dos 14,5% deficientes na ativa, 58% são
visuais, 54%, físicos e 38%, auditivos.
Para a Carpe Diem, as pessoas com deficiência
mental são as que têm menos espaço nas empresas.
De acordo com Glória, a diferença das companhias envolvidas
com a causa da inclusão para aquelas que só cumprem
a Lei de Cotas é que estas últimas tendem a contratar
apenas pessoas com deficiência física. Mas o problema
não se encontra apenas na escassa oferta de postos de trabalho.
Há outros três obstáculos. O mais comum é
a resistência das famílias. Mas pesam também
a capacitação e o preconceito. "As empresas querem
formação, mas se mudarem seu olhar e passarem a acreditar
nos deficientes, entenderão que existem muitas funções
nas quais eles podem trabalhar", diz. "Um dos papéis
mais importantes das ONGs é pressionar para que haja mudanças."
Ana Paula Martins, 22 anos, é um exemplo
de inclusão bem-sucedida. Com Síndrome de Down, ela
ingressou na Carpe Diem há dois anos. Desde então
começou a trabalhar e a estudar em curso supletivo de quinta
à oitava séries. Durante a semana, passa as manhãs
na organização, onde recebe acompanhamento e apoio
para lidar com o dinheiro, o trabalho, os estudos, a família,
o próprio comportamento e o namorado, com quem está
há um ano e já planeja morar junto. Na Matec Engenharia,
Ana Paula organiza notas fiscais e tira fotocópias. "Gosto
de trabalhar porque me sinto satisfeita com o meu trabalho e totalmente
incluída. Na minha família todos também me
aceitam como eu sou, com Síndrome de Down", conta.
(Gazeta
Mercantil)
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