Obstáculos na paisagem do Rio

Atividades do dia-a-dia, como caminhar na rua, usar um telefone público ou ir à praia, o mais típico dos programas cariocas, tornam-se um desafio para os portadores de necessidades especiais. Usuários de cadeiras de rodas ou pessoas com dificuldade de locomoção enfrentam, em um pequeno desnível na calçada, um obstáculo praticamente intransponível. Participantes da 3ª Conferência Internacional sobre Desenho Universal, realizado esta semana no Hotel Sofitel, em Copacabana, visitaram ontem alguns pontos de grande movimento do Rio e constataram que a cidade, a despeito de suas belas paisagens, não é acessível para uma parcela significativa de seus habitantes.

“Por todos os lugares que andamos encontramos dificuldades para seguir em frente. Infelizmente, o Rio é uma cidade belíssima que ainda não tem estrutura para receber portadores de necessidades especiais. Fica difícil até conhecer os cartões-postais da cidade”, lamentou o arquiteto americano Stephen Spinetto, deficiente físico e coordenador de um dos grupos de estudo do congresso, em visita às estações das barcas do Rio e de Niterói.

Segundo Stephen, que trabalha em um órgão especial da Prefeitura de Boston, nos Estados Unidos, dedicado ao estudo de melhorias de acessibilidade para deficientes, o transporte é um dos grandes problemas da cidade. Ônibus, barcas e táxis não são adequados para portadores de deficiências. Nas barcas, por exemplo, a dificuldade começa na entrada da estação.

- Os usuários de cadeiras de rodas não conseguem passar pelas estreitas roletas e não há orientação para deficientes visuais e auditivos. Na entrada dos barcos, a dificuldade se acentua. A plataforma de embarque e desembarque é flutuante e com as oscilações da maré, o desnível entre a rampa e a barca aumenta. Já no interior da embarcação, falta continuidade no piso e apoios para os deficientes - explicou o arquiteto, que ficou espantado com as deficiências básicas da cidade.

Para a empresária Jani Nayar, integrante da organização Society for Accessible Travel e Hospitality (Sath) e dona de uma agência de turismo que faz roteiros especiais para portadores de necessidades especiais, o Rio é uma das grandes cidades brasileiras que mais precisam de melhorias.

“Até para ir à Praia de Ipanema está difícil. As poucas rampas do bairro ficam ocupadas com plantas e outros objetos colocados por comerciantes. Em São Paulo, por exemplo, existe sinalização para surdos e mudos e os prédios públicos estão todos adaptados para receber deficientes”, disse a empresária, que participa pela primeira vez do congresso que está na terceira edição, a primeira no Brasil.

Promovido pela ONG Centro de Vida Independente (CVI), que atua em todo o mundo, a conferência reúne 800 arquitetos, engenheiros e designers de 64 países, que trocam experiências e apresentam casos e soluções para tornar as cidades universais, eliminando barreiras e reconhecendo a diversidade de moradores e turistas.

Além das estações das Barcas, os grupos visitaram o Pão de Açúcar, o Sambódromo e o Hospital da Lagoa. Apesar da má impressão dos visitantes, a arquiteta Verônica Camisão, integrante do CVI, aponta a cidade como uma das que mais avançam em termos de acessibilidade.

“O transporte ainda não é bom. É preciso um grande investimento para tornar ônibus, metrô e barcas mais acessíveis”, afirmou.

A presidente da Funlar, fundação ligada à Secretaria Municipal de Assistência Social e responsável pelo atendimento a pessoas com deficiência, Leda de Azevedo, reconhece que ainda existem dificuldades para locomoção na cidade mas afirma que o Rio Cidade, projeto urbanístico da Prefeitura, proporcionou melhorias na acessibilidade.

“Com o Rio Cidade estamos melhorando cada vez mais os acessos visando a atender as necessidades especiais dos deficientes. No próximo ano, instalaremos em Copacabana um projeto piloto de acessibilidade global dentro dos padrões do desenho universal. Essa proposta deverá ser levada para todos os bairros da cidade”, revelou Leda.

A conferência continua até domingo com debates e palestras de especialistas. Ao final do encontro, será elaborado um relatório sobre o Rio de Janeiro para ser entregue à Prefeitura do Rio e ao governo do Estado.

Ontem na Alerj os deputados da Comissão Permanente de Defesa da Pessoa Portadora de Deficiência (PPD) discutiram em audiência pública a situação da acessibilidade urbana e das edificações de um modo geral.

Durante a reunião, foram relatadas as novas medidas que a Prefeitura e o Metrô do Rio estão tomando para adequar a área urbana da cidade e as estações ao livre acesso de portadores de deficiência e idosos. Uma reunião realizada há alguns dias determinou que as estações do Largo do Machado e Botafogo do metrô serão as próximas a ter elevador.

(Jornal do Brasil – 09/12/04)

   
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