Empresas procuram deficientes para cumprir leis de cotas
No país onde um emprego formal
está entre as coisas mais desejadas do mercado, tem empresário
reclamando porque possui vagas com carteira assinada para oferecer
e não consegue profissionais para preenchê-las. A particularidade
é que os postos são destinados às pessoas deficientes,
para atender a lei que obriga as empresas com mais de 100 funcionários
a reservarem de 2% a 5% das vagas para os portadores de necessidades
especiais (PNE).
- Muitas empresas estão com
vagas abertas e não conseguem contratar, por várias
razões: é difícil encontrar portadores de necessidades
especiais qualificados, o tipo de necessidade tem que ser compatível
com a função e, muitos não querem ter emprego
formal por medo de perder benefícios do INSS. Há uma
disputa muito grande por estes profissionais e as empresas estão
fazendo leilão, oferecendo salário maior para tirar
a pessoa deficiente da outra empresa - diz Luiz Alfredo Porto, diretor
de Recursos Humanos, da Gerencial Trade Marketing.
A Gerencial, que trabalha com promotores
de vendas para locais públicos, como oferta de cartões
de créditos em shoppings e celulares de gôndolas de
outras lojas, tem cerca de 4 mil funcionários no país
e deveria empregar pelo menos 200 trabalhadores com algum tipo de
deficiência.
- Não estamos conseguindo cumprir
a cota e temos pelo menos 100 vagas abertas para deficientes. Pedimos
segundo 2º grau ou cursando faculdade e oferecemos salário
médio de R$ 400, mais benefícios como vale-transporte
e tíquete refeição - diz Porto. Quem quiser
se candidatar pode mandar um email para Rh@gerencialbrasil.com.br
Queixa semelhante faz Marcelo Vieira,
diretor de RH da Sempre Viva Mineração, Construções
e Transportes Ltda, especializada em serviços de detonação
de grutas.
- Não há mão-de-obra
adequada para cumprirmos as cotas. Nós contratamos pessoas
deficientes, mas muito aquém da cota e já fomos até
multados. Temos que considerar o risco da nossa atividade, a detonação
de explosivos, que é já elevado para quem não
tem deficiência. Temos 600 funcionários e apenas 20
na área administrativa, ou seja, nem se colocarmos 100% de
PNEs na área administrativa conseguimos cumprir a lei - diz
Vieira.
Segundo Marcelo, além da segurança
e da falta de qualificação, muitos deficientes não
querem emprego com carteira assinada para não perder benefícios
dos INSS.
- Há uma resistência em
trocar benefício do INSS por um emprego formal, porque se
perderem o emprego, o processo para retornar ao INSS é muito
difícil e burocrático. Além disso, o governo
compete com as empresas por esses profissionais ao reservar 20%
das vagas dos serviços públicos para os deficientes
- reclama Vieira.
A mineira Fernanda Magalhães
de Almeida, 41 anos, é um exemplo desta situação.
Por causa de problemas no parto, ela tem uma deficiência motora
nas pernas que exige o auxílio de uma bengala para caminhar.
- Trabalho como telefonista, recepcionista
e atendimento ao público, mas em esquema de estágio
ou contrato por prazo determinado que não assine a carteira.
Não posso aceitar nada que assine a carteira porque senão
perco a pensão vitalícia que vou receber do meu pai
quando ele morrer - conta ela.
Mesmo reconhecendo as dificuldades
das empresas para encontrar pessoas com deficiência na quantidade
necessária ao cumprimento das cotas (2% para empresas de
100 a 200 funcionários; 3% para entre 200 a 500; 3% para
as que têm entre 501 e 1000 e 5% para empresas com mais de
1000 empregados) as entidades que representam os portadores de necessidades
especiais argumentam que o maior obstáculo é a falta
de interesse das empresas em contratarem esses trabalhadores.
(Zap)
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