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Deficientes visuais são excluídos de exames escolares
Karina Costa
É cada
vez maior o interesse e o empenho dos órgãos de educação,
assim como de toda a sociedade, discutir sobre a inclusão
de pessoas com deficiência nas escolas regulares do país.
Até por isto, fica mais visível as dificuldades e
falta de preparo para pôr em prática as ações
de inclusão. Exemplo disso acabou de acontecer na Escola
Estadual Caetano de Campos, no bairro da Aclimação,
em São Paulo. A escola aplicou o exame do Sistema de Avaliação
de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo (Saresp), mas
acabou tendo que dispensar os alunos com deficiência visual
do teste por não terem sido preparadas provas em braile.
Elisângelo
Souza dos Santos, 22 anos, é aluno do 3º ano e está
entre os 10 alunos da escola que não fizeram o exame. “A
escola alegou que a lista dos alunos matriculados foi pega pela
internet e, por isso, não era possível para o órgão
responsável pelo exame saber se havia ou não alunos
com deficiência na instituição,“ conta.
O curioso é que o colégio foi o primeiro preparado
para receber sala de recurso e a ter em seu quadro de funcionários
uma professora portadora de deficiência visual. “Não
sei se o erro partiu da diretoria. Nos anos anteriores realizei
o exame normalmente com a prova feita em braile. Só sei que
fui dispensado e, assim como, eu acredito que deve ter acontecido
problemas em outras escolas onde há estudantes com a mesma
deficiência”.
Segundo o estudante,
quando não há prova em braile geralmente as instituições
têm disponíveis pessoas para fazerem a leitura. “Mas
que geralmente são pessoas despreparadas. Quando fui prestar
o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) colocaram uma moça
para ler a prova para mim que não sabia nem interpretar as
questões de inglês, por exemplo. Precisamos de professores
especializados para conseguir interpretar as questões e quando
isso não acontece nosso desempenho tende a cair, pois temos
que “chutar” as respostas.”
Esta não
é primeira situação vivenciada pelo jovem.
Este ano, Santos se inscreveu num processo seletivo para um cursinho
pré-vestibular e já foi dispensado logo no teste da
bolsa. “Quando preenchi o formulário coloquei uma observação
sobre minha deficiência. Como eles não tinham recursos
de adaptação tiveram de me dispensar,” conta.
Pior do que uma vaga para cursinho foi o que ele enfrentou ao se
candidatar para o vestibular do Centro Universitário Nove
de Julho (Uninove). Santos ganhou a isenção para o
vestibular, mas foi avisado um dia antes do teste que não
tinham a prova preparada. “Pediram para eu esperar pelo próximo
processo seletivo”.
“Várias vezes temos que fazer na base do improviso,
“ diz Rodrigo Alves Antonio, 22 anos, contando que mesmo tendo
feito o pedido de uma prova em braile com antecedência fez
o vestibular da Faculdade Casper Líbero com a ajuda de um
leitor. “Também teve o concurso público do Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE). Quando minha
ficha foi preenchida foi feito o pedido de uma prova em braile.
Porém, na hora do teste não tinha prova nenhuma e
tive mais uma vez de contar com uma pessoa para ler a prova. Imagina
como foi para interpretar os gráficos?,“ reclama.
Apesar destes
problemas, os dois que estudaram juntos no mesmo colégio
lembraram que já há várias instituições
de ensino superior adaptadas a receber pessoas com deficiência.
“Porém, ainda há muita preocupação
se teremos material didático e aparelhagem de qualidade disponível.
Os livros estudamos no colégio, por exemplo, eram livros
antigos de 20 anos atrás, bastante desatualizados. Como o
sistema em braile mudou já não temos no meu colégio
livros de matemática, química e física para
apoio pedagógico,” conta Santos.
Para piorar,
professores não sabem lidar com alunos deficientes. “Os
professores se assustam e como não sabem lidar com nossa
deficiência tendem a improvisar tudo. No final acabamos aprendendo
o “básico do básico” dos conceitos,”
revela Antonio.
E quando há
inclusão ela é feita de maneira assistencialista,
segundo conta Antonio.”Nós temos limitações
sim, mas às pessoas têm que perceber que precisamos
nos desenvolver,” conta. “Temos uma lei que rege essa
questão há 52 anos, porém ainda estamos engatinhando.
Sinto que as pessoas com deficiência são “encaixadas”
na sociedade, mas que de fato ainda não participam dela,”
completa Santos.
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