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Futuro é da arquitetura para todos
Quem sofre com
calçadas esburacadas e falta de transporte adequado pode
não acreditar, mas a situação tende a melhorar
na questão da acessibilidade. O conceito que especialistas
chamam de universal design - ou projetar para todos - está
ganhando espaço graças a dois fatores. Um é
o aumento da população com mais de 60 anos em países
em desenvolvimento, como o Brasil. O outro é o crescente
número de vítimas da violência que se tornam
deficientes depois de adultas.
As normas no
País estão incorporando o universal design e sua proposta
de criar serviços, produtos e ambientes para serem usados
pelo maior número possível de pessoas. 'Na revisão
da norma 9050, no ano passado, fizemos uma pesquisa da realidade
brasileira, como a altura média da população,
o tamanho médio das mãos, o número de idosos',
diz a arquiteta Maria Beatriz Barbosa, coordenadora da Comissão
de Acessibilidade na Comunicação da Associação
Brasileira de Normas Técnicas (ABNT).
As projeções
do IBGE justificam a preocupação dos especialistas.
Estima-se que, em 2050, a população com mais de 60
anos ultrapasse 35 milhões de pessoas, num total de 249,2
milhões de habitantes. Esse número será quase
igual ao de habitantes com menos de 15 anos. 'As pessoas estão
vivendo mais por conta da medicina melhor, da engenharia, da biotecnologia',
diz Beatriz.
E a adequação,
mesmo em coisas simples como o tempo dos semáforos, é
essencial. 'A marcha de um idoso é três vezes mais
lenta que a de um jovem', diz a arquiteta Adriana de Almeida Prado,
coordenadora da Comissão de Acessibilidade de Edificações
e Meios da ABNT, que cita Itália e Estados Unidos como exemplos
de países que já convivem bem com essa realidade.
Em São
Paulo, não é preciso ser idoso ou deficiente físico
para ter dificuldades de locomoção. A enfermeira Maria
Aparecida Ribeiro Silva reclama dos degraus, buracos e desníveis
da Brigadeiro Luís Antônio, uma das principais avenidas
da cidade. 'Tenho problemas no joelho e desço com dificuldade.
Pessoas idosas não andam muito por aqui.' Considerado exemplo
por idosos e deficientes no quesito atendimento, o Metrô tem
estações sem escadas rolantes, como a Conceição.
'É uma pena, porque é uma região onde mora
muita gente', reclama a aposentada Isilda Queirós.
Na Consolação,
só há elevador numa das saídas. As demais têm
escadas rolantes que só funcionam para subir. O sentido pode
ser invertido por um funcionário. Mas como alguém
com dificuldades para descer vai chamá-lo? Especialistas
chamam a atenção para outro fato, o crescimento do
número de paraplégicos vítimas de armas de
fogo e acidentes de carro. Segundo o ortopedista Antonio Carlos
Fernandes, 45% dos casos de lesão na medula atendidos na
Associação de Assistência à Criança
Deficiente (AACD) são provocadas por tiro. 'Apesar de o Brasil
ser campeão mundial em acidentes de trânsito, arma
de fogo é a principal causa de lesão medular', diz.
'Estamos varrendo areia da praia.
' O desempregado
Ronaldo Luiz Miranda entrou para as estatísticas há
quatro anos, ao ser baleado nas costas. Católico, nunca entrou
na Catedral da Sé, no centro, porque não conseguiria
ir sozinho à igreja, apesar da rampa na lateral. 'Moro em
Pirituba e dependo dos outros para sair de casa', explica.
Especialistas
esperam que as novas construções eliminem obstáculos
para pessoas como Ronaldo. Adriana afirma, com base em estudos realizados
na Suécia e nos Estados Unidos, que uma obra nova feita dentro
dos padrões técnicos fica entre 0,5% e 1% mais cara.
'Com certeza, tornar uma construção acessível
depois de pronta aumenta muito mais os gastos.'
(O Estado
de S.Paulo – 12/09/05)
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