Cidade e cidadãos não colaboram com portadores de deficiência

Por incrível que pareça, a maioria dos 350 mil deficientes físicos que vivem em São Paulo não sai de casa. A causa dessa reclusão não é só a falta de estrutura da cidade, mas também o desrespeito do cidadão que ainda não aprendeu a conviver com eles.

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Cidade e cidadãos não ajudam cadeirantes

Usar o saci-pererê como símbolo para deficiente físico parece brincadeira de mau gosto. Mas a idéia, empregada pela Rede Saci - Solidariedade, Apoio, Comunicação, Informação, é bastante pertinente. A maioria dos deficientes físicos - só em São Paulo, há 350 mil- não saem de casa. Vivem reclusos. É como se fossem uma lenda! Com quantos você costuma se deparar no dia-a-dia - descontados os que moram na rua ou são pedintes?

Portadores de deficiência em geral (física, mental, visual, auditiva e múltipla) representam 10% da população mundial, segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Organização das Nações Unidas (ONU).

A autora do primeiro guia para deficientes físicos ("Guia SP Adaptada", ed. O Nome da Rosa) não dá uma volta em Higienópolis, bairro onde mora, há três meses.

Andrea Schwarz, 25, que avaliou mais de 590 estabelecimentos em São Paulo a partir do critério da acessibilidade, não consegue sair sozinha de casa - a única rampa de acesso do próprio prédio, que fica na garagem, é íngreme demais para ser usada por alguém com cadeira. "O carro é a minha salvação. Se não fosse ele, provavelmente ficaria em casa."

Andrea faz parte da minoria dos cerca de 1,5% de portadores de deficiência física que são proprietários de carros adaptados. "Sem carro, a pessoa sai de casa uma, duas vezes, depois desiste, o sentimento de indignação é muito grande", diz Andrea.

"Nunca saí sozinho. Acho que, se tentar algum dia, eu me perco. Como vou pegar ônibus ou trem, tendo de subir e descer escadas?", questiona o representante comercial autônomo Robson Duarte Silva, 26, que interrompeu os estudos durante seis anos e ficou sem entrar em um cinema por mais de um ano. Hoje ele trabalha e estuda porque conta com a ajuda - e o carro- do pai.

"O transporte público é inacessível, e a cidade, intransitável", resume o presidente do Conselho Municipal da Pessoa Deficiente (SP), Gilberto Frachetta, 60, usuário de cadeira de rodas (ou cadeirante) há mais de 26 anos por conta de um acidente automobilístico.

A lei determina que 10% dos ônibus da cidade de São Paulo sejam adaptados para portadores de deficiência física. Há cerca de mil linhas circulando e somente 219 ônibus adaptados, diz Frachetta. "Quase 80% das linhas não têm nenhum ônibus adaptado; isso é um descaso muito grande."

Quanto às calçadas de São Paulo, ele estima que menos de 5% tenham guia rebaixada (a maior parte no Centro e em grandes avenidas). "Isso sem contar os buracos, os semáforos que abrem e fecham muito rapidamente, a falta de respeito dos demais cidadãos", lamenta.

"Depois de termos nosso direito de ir e vir totalmente abalado, temos de enfrentar a discriminação, o olhar do outro que incomoda", afirma Frachetta, referindo-se ao círculo vicioso e excludente, pelo qual os não-cadeirantes têm sua responsabilidade.

"As pessoas têm pouco contato com deficientes e, nas situações em que ocorre o encontro, acabam projetando sentimentos que às vezes não existem. Criam fantasias em torno do portador de deficiência física", diz a psicóloga Laila Pincelli da Mata, 27, que há cinco anos trabalha com reabilitação de portadores de deficiência.

"Os não-portadores de deficiência pensam estar diante de uma lenda", comenta a socióloga Marta Gil, 52, da Rede Saci, que há mais de 20 anos trabalha com portadores de deficiência (não só física, mas também auditiva, visual, mental e múltipla).

É comum associar a pessoa com deficiência ao paciente inválido e incapaz, o que é um engano e, mais do que isso, um perigo. "Fazemos um julgamento que pode dificultar a reinclusão social desse cidadão", afirma Laila.

O coordenador do departamento de psicologia para adultos da AACD, Luiz Antonio Manzochi, 34, completa esse raciocínio: "Na sociedade moderna e principalmente no Brasil, o portador de deficiência é visto como aquele que pede dinheiro no farol, que não produz, o que não é verdade". Nesse caso, diz Manzochi, a maioria dos pacientes tende a preferir a reclusão a enfrentar grandes mudanças e transformações. "Ele acha que é impossível ir ao cinema, ao teatro, aos parques e acaba deixando de fazer o que gosta", diz o psicólogo.

É o caso da radialista Márcia Penteado, de 46 anos. Hemiplégica (portadora de paralisia de um lado) devido ao rompimento de um aneurisma cerebral, Márcia não movimenta a metade esquerda do corpo. Cadeirante há três anos, diz que vive trancada em casa. "Deixei de fazer tudo o que fazia antes. Meu passeio hoje se resume à fisioterapia", lamenta.

Ela conta que costumava andar sempre no parque Ibirapuera, mas nunca mais foi. "Fazer o que lá? Você tem noção de quantos buracos existem? Vou andar de cadeira sobre a grama?", diz, indignada, Márcia, que queria fazer um curso de astronomia no planetário, mas desistiu por causa das escadas. "Liguei e disseram que não há rampa. Não vou."

Faz quatro meses que a estudante de psicologia Carla Elisabete Pinto, 25, não vai visitar suas amigas no bairro vizinho, onde morava. Tetraplégica em decorrência de um acidente de automóvel, Carla diz que, sem carro, não consegue ir até a esquina. "A possibilidade de eu tomar um tombo me causa medo. Prefiro não arriscar. E, com os ônibus adaptados, não podemos contar mesmo. Já cheguei a ficar três horas esperando por um", afirma a estudante.

Na pág. 11, cadeirantes enumeram comportamentos comuns da população que contribuem para mantê-los reclusos dentro de casa.

Frases

"Não nego que fico constrangida em encontrar uma pessoa com deficiência física no elevador. A gente não sabe o que faz. Eu procuro ficar na minha para não magoá-la"
Suely Okino,
36, comerciante

"Eu trato os deficientes melhor do que as pessoas normais. Se você se sente constrangido perante um, ele também se sente"
Gabriela Campos,
28, economista

"Quando encontro uma pessoa com deficiência, eu fico na minha. Tenho medo de que ela ache que eu estou debochando dela ou rindo"
Francisca Ferreira Alexandre,
25, vendedora

"Eu me sinto constrangido. Tenho medo de que eles achem que estamos olhando por mal, e não é bem assim"
Tiago Kaufmann,
33, empresário

"A gente sempre procura não dar bandeira, mas acaba sempre olhando diferente para o deficiente"
Ana Cristina Bueno,
34, publicitária

Personagens

Nome: Robson Duarte Silva
Idade: 26 anos
Profissão: representante comercial autônomo
Condição física: paraplégico (possui movimentos da cintura para cima) desde 1994
Causa: levou um tiro no pescoço de uma pessoa embriagada na padaria onde trabalhava

Reclusão:
*há mais de um ano não vai a uma danceteria
*o último filme a que assistiu no cinema foi há quase dois anos
*há mais de dois anos não vai a um parque
Inclusão:
*começou a trabalhar em novembro do ano passado
*termina o ensino médio neste ano

Nome: Carla Elisabete Pinto
Idade: 25 anos
Profissão: estudante de psicologia
Condição física: tetraplégica (possui movimentos do pescoço para cima e um pouco nos braços) desde 1995
Causa: acidente de carro
Inclusão:
iniciou faculdade de psicologia neste ano faz aulas de dança duas vezes por semana
Reclusão:
há um ano e meio não vai ao parque Ibirapuera, programa que sempre gostou de fazer último show a que assistiu foi há mais de quatro meses há um ano e meio experimentou fazer uma aula de natação, adorou, mas não deu continuidade pela dificuldade de acesso há quatro meses não visita as amigas no bairro vizinho

Nome: Paulo Scarpelli Cássia
Idade: 26 anos
Profissão: operador de telemarketing (atualmente desempregado)
Condição física: paraplégico (possui movimentos do umbigo para cima) desde 1998
Causa: subindo uma escada, tropeçou no degrau e caiu de um mezanino que não possuía proteção
Inclusão:
* terminou o ensino médio no ano passado
* faz parte da Cia. de Dança Arte sem Barreiras, formada por cadeirantes (vai apresentar-se no dia 24 de março na Reatech)
Reclusão:
há quatro anos, não vai a cinema, teatro, parques nem a estádio, o que mais lamenta

Nome: Márcia Penteado
Idade: 46 anos
Profissão: radialista
Condição física: hemiplégica (possui movimento apenas na metade direita do corpo) desde 1999
Causa:
*rompimento de aneurisma
Reclusão
*só sai de casa para ir à fisioterapia e à psicanálise
*há um ano e meio não participa de atividades culturais

(Folha de S. Paulo)

Revistas e eventos especiais

"A liberdade de movimento é um direito civil fundamental. Veículos, infra-estrutura e leis não são o bastante. É necessária uma nova postura cultural diante das necessidade dos portadores de deficiência." Esse é o inspirador tema do seminário Mobilidade para Todos, que acontece no dia 18 de março com especialistas de diferentes áreas.

Além dele, acontece em São Paulo a Reatech 2000, primeira feira internacional de equipamentos e serviços especializados para esse público, com debates sobre esportes adaptados e sexualidade, entre outros temas.

De revistas especializadas a empresas de diversos segmentos, passando por sites e associações, cresce o número de produtos e serviços voltados para o portador de deficiência física.

Há cinco meses, foi lançada a versão impressa da revista "Sentidos", que já existia na Internet (www.sentidos.com.br), com informações sobre turismo, tecnologia e educação. "Queremos evidenciar os portadores de deficiência como protagonistas de atividades que são comuns a qualquer pessoa capaz", diz o diretor, Dirceu Pereira Junior.

A pioneira chama-se "Reabilitação", há cinco anos no mercado. De acordo com seu diretor editorial, Rodrigo Antonio Rosso, no começo, a empresa que não fosse fabricante de cadeiras ou de próteses, por exemplo, tinha muito receio em anunciar para a pessoa com deficiência. Hoje isso mudou.

Onde encontrar

Revista "Reabilitação": bimestral, venda só por assinatura (R$ 70, anual), portadores de deficiência podem solicitar exemplares gratuitamente, tel. 0800 7726612

Revista "Sentidos": mensal, em SP, é vendida em banca (R$ 6,50); em outros Estados, só por assinatura (R$ 53, anual), tel. 0800 100418

Reatech 2001: de 21 a 24/ 3, no Centro de Exposições Imigrantes (Rodovia Imigrantes, km 1,5, SP)

Seminário Mobilidade para Todos: 18/3, no Clube Monte Líbano (av. República do Líbano, 2.267, Ibirapuera), tel. 080030-0605

"Guia SP Adaptada": à venda nas lojas Pão de Açúcar (R$ 10)

(Folha de S. Paulo)

Atitudes comuns que constrangem os cadeirantes

Caras e bocas
Olhares de canto de olho incomodam muito. Comentários em tom de fofoca, mais ainda. O portador de deficiência física costuma estar atento a tais atitudes e as percebe com facilidade. "É terrível quando a pessoa fica entre a vontade imensa de olhar para a gente e o medo de encarar. Ela dá uma olhadinha e desvia. Isso é muito ruim", diz o estudante de direito Cleverton Audrey Nicaretta, 22, tetraplégico. "No começo, eu partia para cima das pessoas quando elas começavam a cochichar e dizia: Se tem algum comentário, pode falar, eu não mordo", conta Tatiana Rolim, 25, psicóloga tetraplégica. Demonstrar espanto diante de ações corriqueiras realizadas por um cadeirante indica preconceito. "Se vemos uma pessoa com deficiência namorando ficamos espantados. Por que motivo?", questiona a psicóloga Laila Pincelli da Mata. Pessoas com deficiência física têm atitudes comuns a todo ser humano.

Falta de respeito com a cadeira
A cadeira de rodas é uma parte do corpo da pessoa com deficiência física. "Ela não está presa a uma cadeira de rodas. Ela está solta graças a ela", diz a socióloga Marta Gil, 52, da ONG Saci-Solidariedade, Apoio, Comunicação, Informação. Por isso a orientação que Andrea Schwarz dá em seu "Guia SP Adaptada": "Imagine uma pessoa mais alta que você, apoiando-se em seu ombro para descansar. Ou um amigo espertinho que está com preguiça de carregar suas sacolas e as pendura em você. Essas situações são desagradáveis, por isso procure não tocar, ficar mexendo e, principalmente, não se apóie ou apóie objetos na cadeira". O espaço que a cadeira ocupa às vezes causa transtorno em volta e profundo mal-estar e constrangimento no cadeirante. "Uma vez, na farmácia, uma mulher ficou fazendo cara feia e me pressionando porque não conseguia pegar um produto. Fiquei indignada. Ainda bem que a vendedora percebeu e saiu em minha defesa", conta Márcia Penteado, 46, hemiplégica. Parece óbvio, mas vale lembrar que é preciso ter cautela ao cruzar com um cadeirante. Há quem passe atabalhoadamente pela cadeira, causando transtornos. "Fiquei bastante tempo sem sair de casa por medo de as pessoas esbarrarem na cadeira e eu cair", diz Paulo Scarpelli Cássia, 26, paraplégico.

Educação das crianças
Elas são curiosas mesmo. Por isso é preciso educá-las para essa realidade para que reajam com menos espanto que muitos pais. Cutucar a criança para que ela desvie os olhos do cadeirante é desagradável para todos. Muitas vezes, isso indica que o adulto não quer que ela estabeleça nenhum contato com o portador de deficiência. "O pior é quando a criança pergunta: "Mamãe, o que aquela moça tem?". E a mãe responde: "Ela é doente, minha filha". Fico furiosa", diz Tatiana Rolim.

(Folha de S. Paulo)