Déficit de profissionais é de 77 mil

Dados da DRT-SP (Delegacia Regional do Trabalho) mostram que há 132 mil profissionais com deficiência atuando no mercado de trabalho paulista. No entanto, ainda há um déficit de 76.679 vagas.

- Déficit de profissionais é de 77 mil
- Menos de 2% dos deficientes tem 12 ou mais anos de estudo
- Infra-estrutura é obstáculo dentro e fora das empresas
- Empresas estratificam deficiências

   


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Déficit de profissionais é de 77 mil

Deveria haver 132 mil profissionais com deficiência atuando no mercado de trabalho paulista. As empresas, no entanto, têm hoje em seus quadros funcionais 55.321 pessoas -ou seja, há um déficit de 76.679 vagas para deficientes.

Se a tendência que se desenha atualmente for mantida, contudo, os postos remanescentes devem ser preenchidos cada vez mais rapidamente.

É o que indicam dados da DRT-SP (Delegacia Regional do Trabalho). Um dos termômetros desse aumento é o número de contratações de maio a agosto deste ano -foram 8.277, o que demonstra um crescimento de 17,6% no período.

A chefe de fiscalização da DRT-SP, Lucíola Rodrigues Jaime, prevê que, computadas todas as vagas criadas até o fim do ano, esse índice seja ainda maior. Um dos motivos, além do acompanhamento das empresas pelo órgão, é a criação de pactos coletivos de trabalho. As empresas têm dois anos para contratar a cota mínima. Os primeiros pactos vencem ainda neste mês -o que, segundo Lucíola, deve fazer aumentar o número de deficientes contratados pelas empresas.

O país começa, aos poucos, a delinear as melhores formas de trabalhar a inserção de pessoas com deficiência em seus quadros -e há muito a ser feito.
A avaliação dos especialistas é a de que há um progresso visível na inserção de deficientes no campo profissional nos últimos dois anos. "Os avanços são claros. Há um esforço das empresas e dos órgãos oficiais para se mobilizar, só que, às vezes, não vão todos na mesma direção", aponta Ana Maria Barbosa, coordenadora da Rede Saci.

"É importante dar valor ao que aconteceu, sem se fixar no que não ocorreu", diz Ribas. "Hoje, por exemplo, é difícil encontrar universitários com deficiência desempregados."

"A empresa tem de se capacitar também", reforça Barbosa. Além disso, lembra ela, aumentou muito o número de matrículas de deficientes no ensino fundamental. "A próxima geração vai conviver com a deficiência de outra forma", prevê.

(Folha de S. Paulo)

   
 
 

 

 

 


Menos de 2% dos deficientes tem 12 ou mais anos de estudo

Formada em psicologia e cursando pós-graduação, Priscila Branca Neves, 25, trabalha na Serasa há um ano e meio, na área de cidadania empresarial. É o segundo emprego dela, que, antes, havia trabalhado por três meses em telemarketing.Neves é uma exceção em meio ao perfil das pessoas com deficiência no Brasil: dos 24,6 milhões de deficientes, 1,55% tem 12 anos de estudo ou mais -a maioria acima dos 60 anos.

Por isso inclusão e aumento de qualificação profissional devem caminhar de mãos dadas. Devido à falta de preparo dos deficientes, a curto prazo, é pouco provável que as 518 mil vagas que deveriam ser ocupadas por eles em médias e grandes firmas sejam preenchidas.

"O mercado tem uma grande dificuldade em encontrar [trabalhadores com deficiência]. As grandes empresas têm feito o possível para recrutar pessoas que se encaixem em sua atividade-fim", diz o advogado Sólon Cunha, do escritório Machado, Meyer, Sendacz e Opice. "Oferta existe. Mas é difícil encontrar pessoas qualificadas, ainda mais no interior", afirma.

Segundo levantamento feito pela consultoria i-social com base no Censo 2000, do IBGE (Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), hoje, a relação é de 2,3 vagas no mercado de trabalho por pessoa com deficiência, se levados em conta dois critérios de seleção: idade e escolaridade. Nesse universo, eles formam, ao todo, cerca de 228 mil pessoas com oito anos de estudo ou mais e idade entre 20 e 34 anos.

Para atender a uma demanda muito maior do que a vista há dois anos, associações e instituições privadas sem fins lucrativos assumem parte da responsabilidade pela qualificação de deficientes como forma de unir empresas e trabalhadores.

Na Laramara, centro de referência na qualificação de pessoas com deficiência visual, 433 dos 700 trabalhadores encaminhados neste ano para entrevistas em companhias foram admitidos.

"O enfoque dos nossos cursos é educacional. Eles vêm em busca de softwares de voz e de aceitação. Às vezes, é um profissional com muita habilidade para o mercado de trabalho, mas sem autonomia [para se locomover]", diz Érica Cristina Silva, da coordenação de cursos de capacitação. Em média, relata, os alunos têm 30 anos, ensino médio completo e experiência no currículo.

"Estamos um tanto quanto longe de atingir a cota", aponta Daniel Battistini, chefe de departamento pessoal da Accor. "Como a DRT atua hoje mais fortemente, o deficiente ficou supervalorizado no mercado de trabalho e há escassez de profissionais", salienta.

A forma encontrada pela empresa para se adequar à lei foi tornar-se parceira de ONGs em todos os Estados em que está presente. "No começo do programa, há um ano e meio, inserimos deficientes auditivos na cozinha, que era a experiência que tínhamos. Hoje, temos profissionais com deficiência em diversas áreas", destaca.

"Agora, antes de abrir uma nova unidade, já pensamos na inclusão. Ao menos estamos em um "filão" de mercado: conseguimos contratar pessoas com menos qualificação."

(Folha de S. Paulo)

   
 
 

 

 

 

 

 

Infra-estrutura é obstáculo dentro e fora das empresas

"Na cidade, em geral, falta sinalização para deficientes visuais." O responsável por testes de sistemas de informática Juliano César Ribeiro, 24, que mora em Planaltina (cidade- satélite de Brasília) e trabalha na Cast, empresa de tecnologia localizada na capital federal, cita o exemplo da rodoviária, ainda pouco acessível a cegos.

É por lá, no entanto, que tem de passar quando segue para a companhia. Há uma segunda opção de condução -um ônibus intermunicipal que segue direto para a empresa-, mas ele diz preferir a primeira, que exige que o profissional troque de linha no terminal rodoviário, quando deseja chegar um pouco mais cedo ao trabalho.

"A volta é mais rápida", garante Ribeiro, que está no primeiro semestre da graduação em informática.

Na empresa, contudo, assegura não enfrentar dificuldade. Foram investidos R$ 3.000 em um software para cegos e feitas adaptações para garantir a acessibilidade do edifício.

Para a gerente da divisão de reabilitação profissional da Avape (Associação para Valorização e Promoção de Excepcionais), Eliana Victor, além de Brasília ou Planaltina, outras cidades precisam oferecer mais infra-estrutura para deficientes. "Não há transporte suficiente e semáforos adaptados", afirma a gerente, referindo-se à capital paulista.

A gerente diz conhecer casos de profissionais que tiveram de recusar o emprego porque, mesmo a empresa sendo totalmente adaptada, a falta de acessibilidade em locais públicos os impedia de chegar ao trabalho.

A falta de estrutura, especialmente a logística, também é apontada pelo diretor da Michael Page Marcelo de Lucca como uma das barreiras que esses trabalhadores têm de superar no mercado. No ano passado, a consultoria traçou um projeto de inclusão com 820 deficientes -seus currículos foram encaminhados para o departamento de RH de grandes companhias.

"Diziam que a firma não estava arquitetonicamente capacitada", diz, acrescentando que foram contratados menos de dez profissionais.

Sandra Perito, presidente do Instituto Brasil Acessível, traça um cenário positivo, mais inclusivo -mas a longo prazo. De acordo com ela, a legislação determina que as novas construções sigam alguns padrões de acessibilidade.

"É mais rápido para o empresário fazer adaptações do que para o Estado", opina ela, acrescentando que o processo de inclusão de deficientes "é o início de uma mudança cultural".

(Folha de S. Paulo)

   
 
 

 

 

 

 

Empresas estratificam deficiências

Apesar dos números crescentes, a inclusão de pessoas com deficiência nas corporações ainda precisa exorcizar um fantasma criado por elas mesmas: um preconceito velado, que se segmenta por grau e tipo de deficiência e cria o grupo dos "excluídos dentre os incluídos".

Prova disso são os números que apontam o perfil das 55.321 pessoas com deficiência contratadas nos últimos cinco anos: 42,6% delas são deficientes físicos, contra 3,6% de deficientes mentais e 1% com deficiência múltipla.

"As empresas buscam contratar pessoas com menor grau de deficiência -e é a mental, ou intelectual, que é sempre discriminada. O complicado é perceber que o mercado ainda faz essa seleção", aponta Izabel Maior, coordenadora-geral da Corde (Coordenadoria Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiência), órgão ligado à Presidência da República.

Para Izabel Maior, um dos desafios das grandes empresas é permitir que deficientes participem de todas as vagas ofertadas, e não que se criem vagas específicas para deficientes.

"A questão do posto de trabalho ainda é quase mítica por parte dos recursos humanos, que acham que determinado tipo de deficiência se encaixa em um tipo único de vaga. Mas isso não é real", afirma.

(Folha de S. Paulo)