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Deficientes rejeitam estatuto
Prestes a ser
aprovado pela Câmara dos Deputados, documento é alvo
de ataques. Entre as críticas, a principal é a de
que o estatuto não traz nenhuma inovação à
legislação que já existe.
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Deficientes rejeitam estatuto
No ano 2000,
começou a tramitar no Congresso Nacional um projeto de lei
para a criação do Estatuto do Portador de Necessidades
Especiais, um código com o objetivo de garantir aos quase
25 milhões de deficientes brasileiros (14,5% da população,
segundo o Censo de 2000) "integração social"
e "pleno exercício de seus direitos". Hoje, cinco
anos depois, quando finalmente está prestes a ser votado
pelo plenário da Câmara dos Deputados, o estatuto virou
alvo de ataques. E, aparente contradição, os mais
fortes partem justamente daqueles que deveriam ser os beneficiários
da nova lei: os deficientes.
Entre muitas
críticas, a principal é a de que o estatuto não
traz nenhuma inovação à legislação
que já existe. Pelo contrário, chega-se a apontar
no texto retrocesso nos direitos conquistados pelos deficientes
físicos, mentais, visuais, auditivos ou múltiplos.
"Já temos leis muito avançadas. Por que debater
uma legislação que já existe? Precisamos discutir
formas para que ela seja cumprida", diz a fonoaudióloga
Naira Rodrigues Gaspar, que é deficiente visual e cuida do
setor de reabilitação do Hospital Guilherme Álvaro,
de Santos (SP).
Entre as normas
a que ela se refere está um decreto do final do ano passado,
que obriga cidades, prédios e meios públicos de transporte
a terem adaptações para os deficientes. O prazo para
que as exigências entrem em vigor ainda não se esgotou,
mas o governo federal parece não fazer questão de
se adiantar. No mês passado, o Banco Nacional de Desenvolvimento
Econômico e Social (BNDES) concedeu um financiamento de mais
de R$ 4 milhões a uma fábrica de ônibus sem
exigir que os veículos fossem adaptados.
Se depender
do estatuto que tramita no Congresso, a situação não
deve mudar. Em mais de dez páginas, não há
nenhuma referência a "penalidade", "advertência"
ou "multa". Ao contrário do Estatuto do Idoso,
em vigor desde 2003, que prevê até o fechamento de
instituições que descumprirem a lei no atendimento
dos idosos.
O texto é
pontuado por expressões genéricas. Na parte dedicada
à saúde, diz que os deficientes terão "tratamento
adequado e especializado" e "acesso garantido aos estabelecimentos
de saúde públicos e privados". Na educação,
afirma que o ensino especial é um processo "flexível,
dinâmico e individualizado, oferecido principalmente nos níveis
de ensino considerados obrigatórios". Há detalhamentos
isolados, como a reserva de "2% das vagas de estacionamento"
e "pelo menos um dos acessos ao interior da edificação
livre de barreiras arquitetônicas".
Um dos parlamentares
mais preocupados com o código que vai sair do Congresso é
o deputado Leonardo Mattos (PV-MG), presidente da comissão
especial que trata do projeto. Ele sofreu um acidente em 1977, quando
tinha 22 anos. Desde então, precisa de cadeira de rodas para
se locomover.
Sua principal
queixa é em relação ao lazer: "Deficiente
pode trabalhar, mas não pode se divertir. O acesso aos clubes
é terrível. Às praias, pior ainda. Aviões
e ônibus ignoram os deficientes. É uma desconsideração
imensa."
Ele lembra
que o texto não dá destaque a essa questão.
Separa um capítulo só para a saúde, outro para
a educação e um para o trabalho. Cultura, esporte,
turismo e lazer, por sua vez, estão todos sob um capítulo
de três artigos.
Os problemas
devem ser corrigidos só depois de muita discussão,
sugere a procuradora da República Eugênia Fávero.
"Não é como o Estatuto do Idoso, que partiu do
zero. Os deficientes já têm leis. Temos de ir devagar
para que direitos não sejam perdidos", afirma ela, mãe
de uma criança com Síndrome de Down.
Apesar de serem
consideradas avançadíssimas, as normas brasileiras
estão esparsas. A que concede impostos mais baixos na compra
de carros adaptados, por exemplo, está na lei da renegociação
das dívidas de Estados e municípios. "Precisamos
ter uma consolidação das leis. O estatuto deve se
prestar a isso", diz Ednir Alves Veludo, que coordena a área
do PT dedicada aos deficientes.
Nem mesmo o
nome do estatuto é poupado. Segundo a jornalista Regina Atalla,
membro do Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa Portadora de
Deficiência (Conade), vinculado à Presidência
da República, "portador de necessidades especiais"
é uma expressão usada em educação para
designar os deficientes mentais. "O conselho é contra
esse estatuto. Ele inteiro, a começar pelo título,
é execrável."
(O Estado
de S.Paulo -19/05/05)
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