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Diálogo desencontrado dificulta
entendimento entre empresas e pessoas com deficiência
A grande dificuldade
de diálogo entre as empresas e as pessoas com deficiência
mostra que não basta apenas que sejam criadas vagas para
cumprimento de cotas obrigatórias por lei. Esta questao foi
tema de discussão da Feira Internacional de Tecnologia em
Reabilitação e Inclusão (Reatech 2005), que
aconteceu na última semana, em São Paulo.
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mais:
Diálogo desencontrado dificulta
inclusão
Há deficiências
gritantes no diálogo entre empresas e portadores de necessidades
especiais. Enquanto empregadores se queixam de não localizar
mão-de-obra qualificada para o preenchimento das cotas obrigatórias,
profissionais em busca de oportunidade dizem não encontrar
brechas de entrada no mercado de trabalho.
A discussão
esteve nas entrelinhas da Reatech 2005 (Feira Internacional de Tecnologia
em Reabilitação e Inclusão), que aconteceu
na última semana, em São Paulo.
Por lei federal,
firmas com mais de cem empregados têm de contratar deficientes,
em cotas de 2% a 5%, de acordo com seu tamanho. Segundo o Censo
2000, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística),
14,5% da população.
"O descompasso
em torno do preenchimento dessas vagas se origina num problema cultural",
comenta Sylvia Cury, superintendente da Avape (Associação
para a Valorização e Promoção de Excepcionais).
"As instituições que apóiam o deficiente
estão despreparadas para capacitar, mantêm um enfoque
assistencialista", diz.
Na tentativa
de romper essa conduta, a associação oferece hoje
cerca de 40 programas de qualificação profissional
que focalizam a eficiência dos candidatos. "Enfatizamos
o que ele pode fazer. Da forma como a inclusão acontece hoje,
ela mesma é exclusiva. As empresas não contratam porque
querem cegos que enxerguem, surdos que ouçam. É preciso
mudar muita coisa", completa o presidente da instituição,
Marcos Antonio Gonçalves.
A opinião
é compartilhada por José de Araújo Neto, presidente
da AME (Amigos Metroviários dos Excepcionais). "As empresas
devem flexibilizar as condições de entrada e participar
do processo de capacitação desses candidatos",
afirma. "É possível vencer a desculpa da falta
de qualificação."
A AME mantém
um banco virtual de currículos e faz o encaminhamento a postos
de trabalho. Em seis anos, já foram inseridos no mercado
cerca de 10 mil profissionais, segundo dados da própria instituição.
"Os currículos do banco são da Grande São
Paulo, mas o encaminhamento também existe em outros Estados
graças a parcerias com instituições regionais",
diz Araújo Neto.
Estudante de
ciência da computação, Marcelo Fernandes, 29,
pode ser considerado uma exceção à regra. Ele
passou a andar de cadeira de rodas há cinco meses, após
ter sofrido acidente de moto. "Trabalhei com comunicação
via satélite antes do acidente e sou universitário.
Tenho mais qualificação que a maioria. De certa forma,
as portas se abrem para mim", comenta ele, que está
em busca de uma vaga de estagiário.
Na trajetória
de Emerson Gañas, 34, atual presidente do Conselho Estadual
da Pessoa Portadora de Deficiência, que tem formação
mista de secretarias estaduais e organizações civis-,
a chegada da cadeira de rodas, após um acidente de moto a
caminho do trabalho, resultou no seu afastamento da companhia.
"O curioso
é que eu era desenhista, não fazia diferença
estar em pé ou numa cadeira de rodas. Mas a empresa achou
complicado e me aposentei por invalidez aos 19 anos", conta
ele. "Depois dei baixa na aposentadoria e voltei para o mercado.
Mas é difícil se encaixar porque só oferecem
ao portador dessa deficiência vagas de digitador. Não
é minha praia."
Hoje o conselho
reúne dez secretarias e 30 entidades da sociedade civil e
realiza o encaminhamento de profissionais a empresas. A escolaridade
é o grande "nó" no histórico profissional
dos portadores de deficiência. No caso de deficientes físicos
e visuais, a dificuldade de locomoção é a primeira
barreira. "Já o deficiente auditivo tem uma formação
demorada. A alfabetização é lenta, e o livro
entra mais tarde na vida", explica Maria Layze Graziano, professora
da Derdic, escola de ensino fundamental para surdos.
(Folha de
S. Paulo - 17/04)
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