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“Arte também deve incluir
deficientes”
Rodrigo
Zavala
Uma
pergunta invariável quando se vê o surpreendente trabalho
de Egven Bavcar é, sem dúvida, como consegue fazê-lo.
Cego após dois acidentes durante sua infância na Eslovênia
(ex Iugoslávia), é um dos mais celebrados fotógrafos
na Europa, além de ser uma figura que impressiona pela erudição
e simplicidade. Com doutorado em história e filosofia, trabalhando
também com cinema, ainda possui fluência em esloveno,
servo-croata, alemão, inglês e francês.
Com obras em
exposição no Centro Cultural Banco de Brasil, no Rio
de Janeiro, Bavcar acha interessante quando o público estranha
o fato do trabalho ser feito por um deficiente visual. “O
visível e o visual são bem diferentes, não
há razão para os cegos não produzam imagens,
fotográficas ou não”, acredita.
Segundo o autor,
os institutos para cegos podem e devem promover a prática
da fotografia, motivados pelas possibilidades educativas, artísticas
e terapêuticas. Mais do que isso, por uma questão estratégica:
“a criação de imagens torna os cegos mais “visíveis”
para os videntes. Minhas fotos traduzem as imagens que cria em minha
mente, um olhar interior, meu terceiro olho.”
Todo o seu trabalho
tem como base perverter o método de percepção
estabelecido entre as pessoas que vêem e as que não.
Luz e trevas, o visível e o invisível são os
eixos de obras que demonstram um desejo interior de fazer imagens.
“Minhas fotos são um desejo interior de repetir o impossível.
De um longo adeus à luz.”
Assim, como
a imaginação e a memória são suficientes
para compor uma imagem, não há motivos para segregar
pessoas deficientes de mais um espaço. “E isso não
ocorre apenas na fotografia, mas nas artes em geral. Não
podemos ver mais casos de artistas deficientes como exceções.
A arte deve incluir a todos”, critica.
As escolas de
fotografia, de cinema, de artes plásticas e desenho, nesse
sentido, não apenas deveriam acolher candidatos cegos, mas
pedir sua colaboração para tornar o campo visual “mas
inteligível para aqueles que vêem”. É
um antídoto natural para a cegueira criada pelo mundo visual.
“Em lugar
de viver por nosso corpo, somos obrigados a existir por meio da
percepção ocular, como se a própria realidade
não bastasse mais. É um lógica estruturalmente
idiota em um mundo oculocêntrico. A vida como tal torna-se
um espetáculo, e o espetáculo já é a
vida no círculo vicioso das realidades virtuais”, explica.
Passos importantes
já começam a ser dados, principalmente na França,
país onde vive atualmente. “Alguns cinemas começam
a adaptar os filmes para deficientes visuais. Com fones, eles podem
acompanhar a descrição da cenas”.
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