Balé para cegos leva à consciência corporal

Julia Dietrich

Tato e toque substituem a visão que até então era considerada instrumento vital para dançarinos. Hoje, 10 anos depois, a Associação de Balé para Cegos Fernanda Bianchini (ABCFB) prova que os olhos não são mais instrumentos necessários na formação e profissionalização de bailarinos e bailarinas.

A escola que atende gratuitamente 45 alunos, de três a 60 anos, oferece real oportunidade para deficientes visuais que já não acreditavam mais na possibilidade de calçar sapatilhas e rodopiar pelos tablados. “Sinto que recebi uma oportunidade única. Foram intensos nove anos que me prepararam para chegar onde estou e passar meu conhecimento a outras meninas e meninos que não imaginavam poderem dançar”, conta Geyza Kelly Pereira da Silva, bailarina, professora da ABCFB e aluna da primeira turma que participou da experiência.

Há três anos independente, a metodologia da ABCFB começou no Instituto de Cegos Padre Chico como um desafio proposto à bailarina e fisioterapeuta Fernanda Bianchini que, mesmo insegura, buscou uma forma de ensinar os passos e movimentos da dança sem que o instrumento da visão fosse necessário.

Pouco a pouco, a tentativa se construiu como experiência e posteriormente como método patenteado. “Eu os toco e eles me tocam, sentindo o movimento e reproduzindo. Depois, quando necessário, eu os corrijo. A estrutura do método obviamente foi se desenvolvendo, mas a essência permanece a mesma. É tudo guiado pelo toque e percepção corporal”, conta Bianchini.

Como as aulas no Padre Chico só atendiam jovens ligados à instituição, a criadora, em parceria com pais, colegas e admiradores do trabalho, montou a associação que oferece também aulas de sapateado, dança flamenca, dança de salão, dança do ventre, violão, artes plásticas e até tai-chi chuan, esporte chinês que trabalha o equilíbrio e consciência de movimentação espacial.

André De Martini, que ministra as aulas de tai-chi, percebe uma notável a melhora do equilíbrio e condição postural, mesmo com o curso tendo começado há pouco tempo. “É uma experiência nova para mim também e uma oportunidade de pesquisa. Como trabalho com investigação do corpo na psicologia, é muito interessante observar essas técnicas de trabalho com pessoas sem referências visuais”, observa.

Bianchini pontua que o ensino da dança e das atividades artísticas possibilitam, além dos inúmeros benefícios físicos, a promoção da auto-confiança e auto-estima. “Com a realização dessas atividades, os alunos levam consigo valores e ensinamentos morais que os acompanharão pela vida toda”, explica.

A ex-aluna e professora Geyza da Silva comemora, além do sucesso da associação e do mérito de ter superado os desafios que lhe foram impostos, a certeza da continuação do projeto e de ser uma das peças responsáveis por isso. “Hoje esse é meu trabalho. Minha turma inicial se apresenta em empresas, festivais e eventos e disso ganhamos um extra, além do nosso salário como professoras”, conta.

Para Bianchini, a associação é fruto de anos de trabalho voluntário e sua realização de maior apreço. “Além de ver muitos deles atuando profissionalmente e se sustentando com o balé clássico, tenho muito orgulho de como sempre fomos recebidos e de ter persistido com a idéia. Brinco que passei a enxergar pelos olhos desses alunos”, conta.

A ABCFB insiste na interação entre alunos e na promoção da nova visão que a fundadora brinca ter ganho. “Rompemos com todas as barreiras. Hoje fazemos a verdadeira inclusão social, pois oferecemos aulas ministradas por professoras deficientes visuais para meninas que enxergam”, conta Bianchini.

   


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