Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência
indica mudança de paradigma
Vivian
Lobato
“Estamos passando por um processo de mudança. Já
conquistamos muitas coisas. O Brasil ter ratificado a Convenção
da Organização das Nações Unidas (ONU)
sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (PcDs) foi um
marco, uma conquista histórica, um compromisso da sociedade
brasileira”.
A afirmação é
do professor Carlos Ferrari, deficiente visual, vice-presidente
da Associação para Valorização e Promoção
de Excepcionais (AVAPE), instituição que busca a inclusão
de pessoas com deficiência e integra o Conselho Nacional de
Assistência Social, do Ministério do Desenvolvimento
Social e Assistência Social.
Segundo o professor, a ratificação
marca uma mudança de paradigma nas atitudes e abordagens
em relação à questão. “A sociedade
passa a ter um novo olhar. O Brasil fala para o mundo e entra no
hall dos países que assinaram a convenção”,
explica.
A convenção foi estabelecida
em Nova Iorque em 30 de março de 2007 e a ratificação
brasileira ocorreu no início do mês de julho de 2008.
“Sem dúvida, veio numa boa hora. O debate já
está amadurecido, o assunto foi muito discutido por diversos
setores da sociedade e segmentos de lutas. As pessoas conseguiram
chegar num ponto de maturação sobre a questão
e convergir diferentes visões da sociedade. O Brasil precisava
do debate, pois sem a discussão teríamos ratificado
a convenção, mas ela funcionaria apenas em âmbito
legal, e na prática mesmo poucas coisas mudariam”,
diz Ferrari.
A convenção foi definida
como um documento histórico, porque é o primeiro tratado
internacional com status constitucional da história do Brasil.
O presidente do Senado, Garibaldi Alves Filho (PMDB-RN), promulgou
o decreto legislativo com a ratificação do texto no
dia 9 de julho de 2008. Ele beneficiará 14,5% dos brasileiros,
aproximadamente 25 milhões de pessoas que têm algum
tipo de limitação funcional.
Construída com a participação
de organizações de deficientes de todo o mundo, o
texto da convenção estabelece obrigações
para assegurar igualdade de oportunidades e adaptações
necessárias ao livre acesso a bens, serviços e direitos,
conferindo reconhecimento universal à dignidade das pessoas
com deficiência.
Situação
das pessoas com deficiência
Segundo Ferrari, o Brasil vem evoluindo
no sentido de respeitar os direitos das pessoas com deficiência.
“A lei de cotas nas empresas, por exemplo, foi um grande avanço.
Os estabelecimentos comerciais evoluíram, colocando sinalização
e rampas de acesso. As calçadas apropriadas nas ruas e nos
metrôs também já fazem parte da cidade. As próprias
empresas estão mais conscientizadas e mais preparadas para
receber as pessoas com deficiência”.
Neste contexto, o trabalho do Terceiro
Setor é de grande importância. “O Terceiro Setor
vem fazendo um ótimo trabalho, se manifestando com muita
propriedade, mobilizando a sociedade civil e chamando atenção
para o assunto. As pessoas estão se conscientizando. Não
queremos ser vistos como pessoas que precisam de proteção
social, mas como cidadãos com direitos e plena capacidade
para exigi-los e tomar suas próprias decisões como
membros ativos da sociedade”.
Ferrari também explica que para
a inclusão obter sucesso é necessário realizar
um trabalho de sensibilização junto às empresas.
“Não basta você contratar pessoas com deficiência
para apenas cumprir cotas estipuladas pelo governo. A empresa tem
que ter consciência que está contratando alguém
que tem capacidade e total competência para exercer aquela
função”, ressalta.
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