Um novo panorama para as pessoas com deficiência

Empresas de Turismo começam a ver um novo consumidor em pessoas com deficiência. Além disso, o Ministério do Turismo firmou um convênio com a ONG Aventura Especial para iniciar um trabalho de identificação desse público e das necessidades de adaptação na indústria do turismo.

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Um novo panorama para os PPDs

Eles correspondem a 14,5% da população brasileira, totalizando quase 25 milhões de pessoas, segundo o último censo (de 2001) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Apesar disso, as pessoas portadoras de deficiências (PPDs) ainda encontram poucas instalações adaptadas, como semáforos para cegos ou calçadas rebaixadas. No turismo não é diferente: não há muitos hotéis preparados para receber esse público e os banheiros apertados dos aviões são um desafio para quem se locomove em cadeiras de rodas.

Aos poucos, no entanto, esse cenário começa a mudar. Enquanto tramita no Congresso Nacional e no Senado dois estatutos sobre os direitos dos PPDs, algumas empresas começam a prestar atenção nesse nicho de mercado. O Ministério do Turismo firmou um convênio com a ONG Aventura Especial para iniciar um trabalho de identificação desse público e das necessidades de adaptação na indústria do turismo. "Muitos lugares que se dizem adaptados na verdade não são. Por isso, essa necessidade de mapeamento", diz Dadá Moreira, presidente da entidade.

Dadá começou a sentir os sintomas da ataxia, doença neurológica degenerativa que compromete a coordenação motora, aos 30 anos. Nove anos depois, ele não pára: pratica rafting, escalada - possui até uma parede em casa - e adora saltar de pára-quedas. "A ONG nasceu de uma necessidade pessoal. Sempre gostei de esportes de aventura e queria informações sobre como eu poderia praticar, mas não havia nada", relata. "Imaginei que outras pessoas também estariam na mesma situação e passei a pesquisar e a visitar lugares por minha conta."

Segundo ele, os PPDs constituem um nicho de mercado que precisa ser trabalhado. "Não é uma caridade; é um público consumidor", diz. Pensando nisso, a operadora de turismo FreeWay criou um departamento de roteiros exclusivos há dois anos.

"As pessoas nos procuravam e achei que deveria criar um serviço especializado", explica Sônia Werblowsky, proprietária da empresa. Atualmente, a FreeWay oferece pacotes para oito destinos, quase todos de ecoturismo, com o acompanhamento de monitores treinados e acomodação em hotéis com acessibilidade.

PARA OS RADICAIS

A agência Eco Ação, de Brotas, adaptou-se para receber esse público há cinco anos. Em sua sede, há rampas, vestiários e banheiros adaptados. "Tenho um tio amputado de uma perna. Quando abri a agência, achei que não faria sentido ter um espaço que não fosse acessível", conta Rafael Barbieri, um dos sócios da empresa.

No início, Barbieri usou os conhecimentos da faculdade de Educação Física e contou com a ajuda de seus professores para capacitar os monitores. "Atualmente, fazemos cursos de reciclagem", diz. Segundo ele, o deficiente pode fazer qualquer atividade disponível, como rafting, bóia-cross ou cascading - desde que seja liberado por seu médico. "Estamos preparados para atendê-los em todas as modalidades", observa.

Os mais radicais também têm vez no clube-escola de pára-quedismo Sky Dive Thru, em Boituva, que realiza saltos duplos com portadores de deficiências variadas há três anos. "Estamos sempre aprendendo", admite Alexandre Chacon, presidente do clube. "Acho gratificante trabalhar com esse público porque a sensação de superação deles é maior."

Chacon apenas aconselha os interessados a pedir o aval do médico antes de saltar. "Alguns tipos de lesão podem ser agravados por causa do salto, mas outros não têm qualquer restrição", explica.

LEGISLAÇÃO

Na semana passada, uma comissão de deputados iria tentar reunir-se - se as CPIs permitissem - para discutir os rumos do Estatuto do Portador de Necessidades Especiais. Há dois projetos em tramitação: um, no Senado, e outro, no Congresso. "Vamos fazer algumas modificações no que for votado primeiro. E é isso que temos de discutir com os senadores", explica o deputado federal Leonardo Mattos (PV-MG), integrante da comissão.

Há 27 anos, Mattos sofreu um acidente automobilístico que o deixou numa cadeira de rodas. Para ele, o estatuto só será eficiente com a previsão de penalidades para as empresas que não se adequarem. "Ele terá de ser aplicado verdadeiramente", diz. O projeto que tramita hoje no Congresso não fala de turismo detalhadamente, mas, segundo Mattos, devem haver modificações no texto. A grande preocupação do deputado, porém, é em relação ao transporte, que "deverá sofrer uma severa adaptação."

Para ele, o Brasil não é o único com problemas de acessibilidade. "A Inglaterra tem deficiências graves nesse sentido", exemplifica. "É um tema complexo, com necessidades específicas. O importante é que o Brasil entre nisso com vontade."

(O Estado de S.Paulo – 23/08/05)

   
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