Pessoas com deficiência contam com cursos de mergulho especializados

O contato com a água sempre foi a grande paixão de Jefferson Maia, de 41 anos. Carioca, ele começou a mergulhar aos 21 anos e logo passou a trabalhar com mergulho de profundidade em plataformas de petróleo. Dois anos e meio depois, no entanto, ele teve de largar a profissão. Durante um assalto, foi baleado na altura do pescoço e ficou tetraplégico.

Somente cinco anos após o incidente Jefferson voltaria a ver o fundo do mar, com a ajuda da Sociedade Brasileira de Mergulho Adaptado (SBMA). A entidade, com sede no Rio, ministra cursos para portadores de deficiências variadas. Os alunos recebem o certificado da HSA, órgão americano voltado ao mergulho adaptado.

A SBMA funciona desde 1991. Inicialmente, a proposta era apenas oferecer cursos, mas, há sete anos, a entidade também forma instrutores especializados para atender esse público. "Queremos passar o conhecimento para outros instrutores", afirma Lúcia Sodré, presidente da associação.

Professora de Educação Física Adaptada e instrutora de mergulho, ela achou que poderia unir os dois conhecimentos. "Procurei a HSA e fiz o curso para me tornar instrutora. Mais tarde, me especializei para também poder formar outros instrutores", conta.

Até o batismo no mar - realizado, na maioria das vezes, em Arraial do Cabo, na Região dos Lagos -, os alunos passam, em média, oito dias tendo aulas na piscina.

No mar, cada tipo de deficiência conta um acompanhamento diferenciado. No caso de pessoas com pouca ou nenhuma mobilidade, como paraplégicos e tetraplégicos, dois instrutores as acompanham. "Normalmente, o mergulhador desce com um companheiro. Para garantir a segurança, descemos com dois", explica Lúcia.

Os cegos, por sua vez, precisam de um instrutor especializado, para garantir um mergulho seguro e prazeroso. "O professor precisa saber mostrar o fundo do mar com o tato", afirma Lúcia.

Sem enxergar há 13 anos por causa de um acidente de carro, Rogério Roberto da Silva, de 33 anos, só decidiu mergulhar por causa da insistência de um amigo deficiente visual e auditivo. "Eu pensava: o que vou fazer debaixo d'água sem enxergar?", relata. Ele encarou o desafio e não se arrependeu. "Redescobri o fundo do mar. Ver é uma coisa, mas tatear é outra. Me senti no nirvana."

Para fazer o curso, Lúcia recomenda que o deficiente tenha espírito de aventura. "As embarcações não são projetadas para receber cadeiras de rodas e nem sempre temos lugares com banheiros adaptados", explica.

Ainda assim, quem experimenta, aprova. "Quando voltei a mergulhar, a sensação foi bem parecida com a da primeira vez", diz Jefferson Maia. Hoje, entre outras atividades, ele atua como mergulhador auxiliar na SBMA.

(O Estado de S.Paulo – 23/08/05)

   
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