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Setor privado quer mudar lei sobre cotas
Pressionadas pelas autoridades para cumprir as cotas
para pessoas portadoras de deficiência (PPD), mas com dificuldades
para encontrar profissionais capacitados e para se adequar à
presença deles, as empresas estão discutindo formas
para flexibilizar a legislação ou os prazos para sua
aplicação.
Conforme Eliane Pinheiro Belfort Mattos, coordenadora
do Comitê de Responsabilidade Social (Cores) da Fiesp, as
idéias estão em formatação e chegando
aos gabinetes de deputados em Brasília.
"As cotas são importantes, ninguém
discute. Mas elas não bastam para incluir o deficiente, pois
as pessoas precisam de educação, capacitação,
transporte, infra-estrutura para circular e atendimento médico
especializado", diz ela. "E a inclusão não
é uma tarefa só da iniciativa privada. É também
da sociedade e do governo."
Uma das idéias é manter o benefício
pago pelo governo a portadores de necessidades especiais mesmo que
eles consigam trabalho. Afinal, defende a executiva, ao sair para
o mercado de trabalho, as pessoas precisam gastar com roupas, transportes
e alimentação.
"Imagine a família de um deficiente
que está acostumada a protegê-lo em casa. Se ele pensa
em trabalhar, será desestimulado, pois perderá o benefício
para sempre. Quem disse que, se sair do primeiro emprego, a pessoa
conseguirá outro?"
Mario Sergio Vasconcelos, diretor de relações
institucionais da Febraban (Federação Brasileira dos
Bancos), entende que o benefício poderia ser retomado caso
a pessoa perca o emprego. A entidade, diz, não defende a
mudança da lei, mas o dilatamento do prazo para seu atendimento.
Para ele, há descompasso entre o "espírito
da lei" e a realidade do país, já que portadores
de deficiências começaram a receber atenção
há poucos anos. "Há cerca de 1,5 milhão
de jovens com deficiência entrando no mercado. Só que
eles têm menos de oito anos de estudo." Em contraste,
os bancos brasileiros possuem 96% do seu quadro de colaboradores
composto por trabalhadores com o terceiro grau completo ou que cursam
a universidade. "O único jeito é oferecer treinamento
a esse pessoal, dar um complemento para o ensino fundamental, em
muitos casos", explica Vasconcelos.
Contratada pela Novartis para trabalhar no programa
de inclusão da companhia, Tereza Cristina da Silva, portadora
de nanismo, acredita que uma boa estratégia para contornar
essas dificuldades é contratar deficientes para trabalhar
nos programas de diversidade e recrutamento de deficientes. "Quem
vive o problema sabe onde buscar profissionais e as dificuldades
que serão encontradas."
Segundo ela, eventualmente é preciso "flexibilizar
as exigências". Se a vaga demanda um profissional com
inglês fluente, exemplifica, poderia aceitar um deficiente
com inglês intermediário que esteja empenhado em melhorar.
Sem redução de exigências, diz, as empresas
dificilmente conseguirão cumprir suas cotas imediatamente.
Estudo da Febraban apresentado no ano passado indica
que metade do 1 milhão de vagas criadas com a lei permanece
desocupada por falta de candidatos qualificados.
Outra proposta da Fiesp permitiria que a empresa
remanejasse a cifra que despenderia na folha de pagamento "da
cota" para custear cursos ou para suprir outras necessidades,
como transporte, atenção médica ou estímulos
culturais.
Essa opção seria como "pagar
para discriminar", avalia a procuradora Adélia Augusto
Domingues, da Procuradoria do Trabalho. Se a empresa não
encontra profissionais aptos, deve criar cursos de preparação,
diz. O Ministério Público do Trabalho tem cerca de
200 investigações em andamento só na capital
paulista.
(Folha de S. Paulo)
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