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Pais de autistas lutam contra descaso
A Associação
Mão Amiga, que reúne parentes de portadores de autismo
no Rio de Janeiro, está recorrendo à Defensoria Pública
do Rio na esperança de que o Estado construa unidades para
o tratamento da síndrome em crianças de família
de baixa renda.
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Depois de meses
de peregrinação entre diferentes médicos e
especialistas, o servidor federal Ulisses Batista finalmente ouviu
o diagnóstico: seu filho Rafael, então com 2 anos
e 8 meses, era autista. A revelação que pôs
um ponto final nas dúvidas sobre as causas dos transtornos
apresentados pelo menino trouxe outras interrogações
para ele e sua mulher, a enfermeira Rosângela Batista. Como
a maior parte dos brasileiros, eles não sabiam o que era
o autismo, que se caracteriza pelo comprometimento das capacidades
socioemocionais e comunicativas provocado por disfunções
do cérebro. O casal também não sabia o que
fazer para tratar a síndrome, que acompanhará Rafael
por toda a vida. A primeira coisa que ouviram dos médicos
foi: é um tratamento caro, disponível somente em instituições
particulares.
A advertência
é ouvida por quase todos os pais que, após passar
por muitos consultórios, descobrem o autismo dos filhos.
A partir daí, começa a nova peregrinação:
onde encontrar tratamento? Essa é uma tarefa árdua,
em especial para famílias de baixa renda. Não há
unidades especializadas para o tratamento nas redes públicas
de saúde e educação.
"O problema
gravíssimo que enfrento é: quando chego ao diagnóstico,
não tenho para onde mandar a criança", lamenta
o médico Adaílton Pontes, neurologista do Instituto
Fernandes Figueira (IFF), unidade da Fundação Oswaldo
Cruz (Fiocruz), no Rio.
Centenas de
crianças autistas passaram pelo seu consultório nos
últimos anos. Algumas fizeram parte de sua pesquisa, que
tenta achar um método específico para o diagnóstico
da síndrome, ainda inexistente. Uma ferramenta que não
terá valia sem o tratamento dos portadores. "Para o
médico e para a família, é muito frustrante.
Encaminhamos as mães ao serviço social, mas elas iniciam
uma peregrinação sem fim. Só as que se dizem
com muita sorte conseguem. A maioria delas termina na porta da Justiça",
conta.
A Defensoria
Pública do Estado do Rio foi a última porta na qual
a Associação Mão Amiga, que reúne parentes
de portadores do autismo no Rio, bateu. A pedido do grupo, a defensora
pública Daniela Considera elaborou uma ação
civil pública contra o governo estadual.
A ação
pede a condenação do Estado à obrigação
de construir unidades especializadas próprias que ofereçam
atendimento gratuito e integral para os autistas. Enquanto isso
não ocorre, o grupo espera com ansiedade que o juiz aprecie
o pedido liminar de tutela antecipada.
A Defensoria
quer que a Justiça, antes mesmo do julgamento, obrigue o
Estado a pagar o tratamento dos pacientes em unidades particulares.
"O tratamento
é muito importante para o desenvolvimento da pessoa autista,
mas só acessível aos abonados financeiramente, o que
é lamentável. As famílias que não têm
condições acabam, muitas vezes, deixando o autista
preso em casa para poder exercer suas funções cotidianas",
justifica a advogada, que esperava uma decisão sobre a antecipação
de tutela na semana passada, mas o governo do Estado pediu prorrogação
do prazo para contestar a ação e justificar a falta
da estrutura. "Quanto mais o tempo passa, mais prejudicado
fica o desenvolvimento deles. Recebemos com muita freqüência
pedidos de ações individuais e por isso queremos uma
solução para todos."
Por trás
da falta de programas voltados para o autismo está a desinformação,
até mesmo de autoridades e profissionais de saúde
e educação, sobre uma síndrome que não
é tão rara.
Apesar da falta
de números oficiais no Brasil, estima-se que a prevalência
do autismo seja de 1 para cada mil nascidos, sendo quatro vezes
mais comum no sexo masculino. Como o autismo ainda não pode
ser ser detectado por um exame específico, o diagnóstico
é puramente clínico, feito pelos médicos a
partir de critérios determinados.
Até 1
ano e 2 meses, Rafael parecia desenvolver-se como qualquer criança
da sua idade: ensaiava as primeiras palavras. Com o nascimento da
irmã, vieram os primeiros comportamentos estranhos. Ele recebeu
a nova integrante da família com indiferença. Aos
2 anos, parou totalmente de falar. Aos 3, nem respondia ao ouvir
o próprio nome. Apesar de afetuoso, alternava comportamentos
de agitação extrema e isolamento total combinados
com reações como o movimento repetido das mãos
e o hábito de andar nas pontas dos pés.
"Estávamos
perdidos, sem saber o que fazer, e o pediatra que o acompanhava
desde bebê não sabia nem por onde começar. Dizia
que logo tudo ia passar, que algumas crianças se desenvolvem
mais tarde. Decidimos então procurar outros especialistas,
mas ninguém descobria", conta o pai. "Durante quatro
meses, meu filho fez exames diários. Até que chegamos
a uma psiquiatra infantil que fez o diagnóstico. Os pediatras
não são preparados para reconhecer a doença."
Segundo o neurologista
Adaílton Pontes, o distúrbio causado pelo autismo
tem, provavelmente, causas genéticas combinadas com fatores
ambientais e começa a se desenvolver já dentro da
barriga da mãe.
Os autistas
apresentam uma disfunção principalmente no hemisfério
direito do cérebro, responsável pelas emoções
e o convívio social. "Eles vêem as pessoas fazendo
as coisas, mas os gestos e a linguagem não fazem sentido.
A subjetividade da entonação de um frase, por exemplo,
que para nós parece simples, eles não são capazes
de reconhecer", explica.
Como o cérebro
das crianças tem mais facilidade de se recuperar, o diagnóstico
precoce seguido pelo tratamento pode fazer que elas conquistem elementos
para seguir uma vida próxima do normal. Daí vêm
os exemplos recorrentes de autistas que são, por sua objetividade,
experts em ciências exatas, como a matemática, e conseguem
até chegar à universidade. Infelizmente, esse é
um grupo muito pequeno.
Diferentemente
dos portadores da síndrome de Down, os autistas são
freqüentemente confundidos com portadores de outros transtornos,
como a esquizofrenia. A maioria das escolas, até as particulares,
recusa a matrícula, contrariando um direito constitucional.
Nas escolas públicas do Rio, as turmas especiais oferecem
apenas 50 minutos diários de atividades.
"Depois
de chorar, fui me informar", lembra Barbosa, que empreendeu
uma luta contra o tempo. Ele mergulhou na internet em busca de informações,
tomou parte de listas de discussão, freqüentou as palestras
e seminários de especialistas. Chegou a empenhar 80% do próprio
salário para pagar a mensalidade de R$ 1.200 de um dos poucos
centros de reabilitação para autistas do Rio, na Barra
da Tijuca, onde Rafael ficou por dois anos e começou a falar.
Hoje, o menino
de 9 anos freqüenta a terceira série de um colégio
particular com o acompanhamento quinzenal de um psicólogo
e consome 50% do orçamento da família.
Para compensar
a falta de instituições com um programa integrado,
o pai ocupa o tempo de Rafael com atividades que buscou perto de
casa, em Campo Grande (zona oeste), que estimulem seu desenvolvimento.
Além
das sessões de fonoaudiologia, responsáveis pela dicção
afinada do menino, e psicopedagogia, Rafael exercita a habilidade
para matemática com aulas regulares de um método japonês
de ensino (Kumon) e pratica natação. Para estimular
a concentração, tem aulas de piano na casa de uma
professora aposentada.
Em casa, exercita
a memória fora do comum em jogos de computador. É
capaz de descrever, quase sem respirar, todas as etapas que levam
à vitória num dos seus games preferidos.
"É
um investimento muito grande, eu e minha mulher abrimos mão
de muita coisa. Como um pai vai fazer isso com um salário
mínimo?", pergunta Barbosa. Foi trocando experiências
com outros pais de autistas e conhecendo a realidade de quem não
achou as mesmas saídas que ele resolveu procurar a Defensoria
Pública e liderar o pedido da ação judicial.
"Quando
ele nos propôs procurar a Justiça, ficamos temerosos.
Mas estamos cansados de esperar. Poucas pessoas reconhecem o autismo.
Ninguém dá importância", queixa-se Iranice
Pinto, dona de casa que preside a Associação Mão
Amiga. Numa sala cedida por uma igreja, o grupo atende 22 crianças
autistas duas vezes por semana e paga os profissionais com o dinheiro
de doações. "A gente tenta amenizar, mas não
é o suficiente para desenvolver nossos filhos", diz
Iranice, mãe do autista Paulo Igor, de 12 anos.
Quando conheceu
o filho de Barbosa, a ex-escriturária Verônica de Souza
Lorenzetti chorou. Ela viu nele a chance que seu filho, Iago, também
de 9 anos, não teve. O diagnóstico do autismo associado
ao retardo mental só veio quando ele tinha 5 anos. "Fico
como num jogo de pingue-pongue, de um lado para o outro em busca
de tratamento. Só surgem pequenas coisas, que não
dão resposta, só fazem de conta e me deixam ainda
mais angustiada".
Iago até
hoje não fala. Desenvolveu comportamentos obsessivos e humor
instável. Há pouco tempo, Verônica conseguiu
um tratamento do outro lado da cidade, na zona norte, mas teve de
abandoná-lo por causa da distância. "Eu não
sei por que só existe política para criança
especial com Down ou paralisia cerebral. Eu já desisti de
ir a palestras. A gente vê tantas coisas que existem que poderiam
melhorar a vida deles, mas não tem acesso a elas", queixa-se.
"Eu só tenho esperança na Justiça agora.
Ainda estou correndo contra o tempo. Meu filho tem 9 anos, mas ainda
há muitas coisas que ele pode aprender."
(O Estado
de S. Paulo – 26/06/05)
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