|
Inclusão de crianças
com deficiência em escolas comuns cria polêmica
Uma cartilha
do Ministério Público Federal, apoiada pelo Ministério
da Educação (MEC), que determina a inclusão
de todas as crianças com deficiência em escolas comuns,
tem provocado polêmica e evidenciado uma briga entre duas
correntes de especialistas do setor. A discussão é
se a escola está preparada para receber alunos especiais.
Leia
mais:
- Cartilha assusta pais de
deficientes e divide especialistas
Cartilha assusta pais de deficientes
e divide especialistas
Uma cartilha
do Ministério Público Federal, apoiada pelo Ministério
da Educação (MEC), que determina a inclusão
em escolas comuns de todas as crianças com deficiência
tem provocado polêmica e evidenciado uma briga entre duas
correntes de especialistas do setor.
De um lado,
há os que defendem o direito de todo deficiente de estudar
com outras crianças e acreditam que isso levará a
uma abertura da escola à diversidade, mudando a educação
no País. Do outro, estão tradicionais associações
que mantêm escolas especiais e afirmam que certos graus de
deficiência não permitem a inclusão. Para elas,
também não há preparo de professores e estrutura
na rede pública de ensino para receber todos esses novos
alunos.
Alheios à
discussão teórica, os pais se dizem assustados. "Eu
tenho o direito de escolher a escola do meu filho", afirma
a professora aposentada Carmem Luiza Cestari, mãe de Tales,
que tem síndrome de Down e outras complicações
que o impedem de falar. O menino, de 16 anos, está sendo
alfabetizado em escolas da Associação de Pais e Amigos
dos Excepcionais (Apae) em Batatais, interior do Estado, onde há
cerca de 15 alunos por sala. "Não quero que ele seja
apenas um número na escola, quero que ele progrida",
diz a mãe.
As Apaes e outras
entidades oferecem ensino até a 4.ª série e depois
disso organizam aulas profissionalizantes, além do atendimento
com psicólogos, fonoaudiólogos e outros profissionais
da área de saúde.
Karen Cristina,
de 16 anos, pediu e a mãe a tirou da escola regular e a levou
de volta à Apae. "A professora chegou a dizer que ela
não tinha condições de estudar lá",
diz a mãe, Maria Aparecida dos Santos. A menina tem dificuldade
para se locomover e a escola exigia que uma irmã ficasse
ao lado dela para ajudá-la. "Ela deixava de comer a
merenda porque não tinha quem a levasse."
A procuradora
da República Engênia Fávero, autora da cartilha
do Ministério Público Federal, diz que casos como
esses devem ser denunciados. O que causou maior polêmica,
no entanto, foi o trecho do texto que fala que os pais estão
cometendo "crime de abandono intelectual" ao não
matricular os filhos com deficiência na rede pública
de ensino. "Não é que vamos sair mandando prender
os pais, cada caso será analisado pelos promotores. Quem
teve seu filho rejeitado na escola não será penalizado."
Cerca de 60
mil cartilhas foram distribuídas para escolas do País.
A intenção, segundo Eugênia, foi a de mostrar
a legislação já existente sobre o assunto.
"Nada é novo lá, o direito de todas as crianças
à educação está na Constituição."
A secretária
de Educação Especial do MEC, Claudia Dutra, diz que
a inclusão é debatida há décadas e as
escolas têm se preparado. Entre 1998 e 2004, cresceu de 13%
para 34% o porcentual de crianças com deficiências
atendidas em classes comuns. São 195 mil dos 566 mil que
estudam no País.
Ela cita ainda
55 mil professores capacitados entre 2003 e 2004 com esse propósito
e um programa do ministério que está formando dirigentes
de 106 cidades. "O projeto de inclusão não pode
mais ser adiado por entender que as escolas não estão
preparadas. A formação não é apenas
o treinamento prévio, é preciso matricular a criança,
estabelecer a relação professor-aluno e então
perceber o que é necessário para que ela aprenda",
diz.
A rede pública
de ensino brasileira, porém, convive com salas superlotadas,
baixos salários, má formação dos professores,
projetos pedagógicos ultrapassados e estrutura insuficiente.
"Como você vai dar atenção a um aluno especial
numa sala com 50 crianças?", questiona o presidente
do sindicato dos professores de São Paulo (Apeoesp), Carlos
Ramiro.
Os defensores
da inclusão total acreditam que a chegada dessas crianças
vai pressionar a escola a entender que a educação
moderna respeita o ritmo de aprendizagem de cada aluno, seja ele
deficiente ou não.
A inclusão
é um conceito defendido por educadores do mundo todo. Difícil
encontrar quem se oponha à convivência de crianças
com algum tipo de deficiência com outras de sua idade, tanto
para o desenvolvimento social e educacional como para diminuir o
preconceito. O presidente da Federação Nacional das
Apaes, Luiz Alberto Silva, também não discorda. Diz
que a instituição que preside encaminha cerca de 10
mil crianças por ano para escolas regulares, mas a inclusão
não é para todos.
"Há
casos graves de deficiência mental em que não se consegue
saber qual é o nível de compreensão da criança",
diz. "Ao forçar a barra e com uma recepção
inadequada na escola, muitas deixarão de estudar", completa
a vice-presidente da Associação de Assistência
à Criança Deficiente (AACD), Ika Fleury.
Para a secretária,
é preciso saber diferenciar a educação curricular,
oferecida nas escolas comuns, da educação especializada.
Dessa última fazem parte o ensino do braile, da língua
brasileira de sinais ou mesmo o desenvolvimento cognitivo para deficientes
mentais, o que deve continuar sendo oferecido pelas entidades, segundo
ela.
Silva acusa
o governo e o MPF de tentar acabar com as escolas especiais, que,
segundo ele, prestam serviços essenciais para essa população.
"Em municípios onde não estamos, há ainda
deficientes amarrados ao pé da cama." As instituições
sem fins lucrativos e ONGs se mantêm também com dinheiro
do governo. Só o MEC repassou, em 2004, R$ 51 milhões
em ajuda de transporte escolar, merenda e livros didáticos,
entre outros.
"A escola
regular é o lugar onde as gerações se encontram
e se relacionam, os que têm alguma deficiência também
têm esse direito", diz Claudia Werneck, fundadora da
ONG Escola de Gente, que organiza projetos para jovens, empresas
e outros grupos para difundir a inclusão. "Gerações
e gerações de brasileiros são criadas para
discriminar as pessoas em razão de suas diferenças.
Isso tem de mudar."
(O Estado
de S. Paulo – 30/05/05)
|