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Empresas valorizam cada vez mais a
terceira idade
Foi difícil encontrar alguém na Pizza Hut que apostasse
no pique daquele pessoal mais velho, que acabava de ser contratado.
A rede, afinal, é conhecida pelas oportunidades que oferece
aos mais jovens,
articularmente
àqueles cheios de energia em busca do primeiro emprego. Depois
de um ano, a experiência com o pessoal de mais idade surpreendeu,
segundo Reynaldo Zani, diretor de comunicação da rede
na Grande São Paulo. "A convivência dos muito
jovens com os mais velhos deixou o clima leve, descontraído,
mais amistoso", diz. "A clientela também aprovou,
tanto que acaba voltando e demonstra uma clara preferência
pelas pessoas de mais idade".
Dora Tavares, 77, e Zulma Gonçalves, 70, adoram ouvir essa
história. Elas integram o Programa Atividade, da Pizza Hut,
que emprega 16 funcionários com mais de 60 anos entre os
450 colaboradores da rede - e pretende chegar a 35 até o
final de fevereiro. Para Zulma, além da conquista do primeiro
emprego com carteira assinada, a inesperada atividade veio com uma
descoberta: "Esse negócio de resmunguice, de rabugice,
é coisa de velho que fica em casa sem fazer nada". Dora
concorda e recomenda uma ocupação produtiva às
pessoas de mais idade: "O trabalho melhora a qualidade de vida".
Douglas Pomini, o jovem gerente da loja onde Dora e Zulma trabalham,
um daqueles que duvidavam que os mais velhos agüentariam o
rojão nos horários de pico, hoje reconsidera: "Elas
têm mais gás que muitos de nós". Embora
seja impossível mensurar os resultados na produção
com a chegada desses funcionários, Zani garante que o saldo
é muito positivo. "Em loja de comida rápida,
onde as pessoas estão sempre com pressa e o estresse paira
no ar, o pessoal de mais idade aparece com uma abordagem que descontrai
o ambiente e reforça o afeto".
Apostar no pessoal mais velho como linha de frente na geração
de renda de uma comunidade inteira foi a opção da
Bosch, em Curitiba. A princípio isolada, a iniciativa acabou
envolvendo grande parte das quase 500 empresas da cidade industrial
da capital do Paraná. Entre os cerca de 15 mil habitantes
de Vila Verde, comunidade carente encravada no centro das indústrias,
85% estão entre 50 e 70 anos. "Todos muito produtivos",
segundo Mário Massagardi, diretor da Bosch, que acompanha
de perto a evolução da CooperCostura, cooperativa
que desenvolve produtos de grande aceitação entre
as empresas da região.
A oficina produz jalecos e pequenas embalagens que garantem uma
renda mínima às mulheres cooperadas. A infra-estrutura
da cooperativa, assistência administrativa, financeira e contábil
são garantidas pelos voluntários da Bosch. A grande
arrancada, marcada pela compra das máquinas, aconteceu em
2001, com uma doação da Bosch alemã, de R$
30 mil. Com a organização da produção
as costureiras chegam hoje a uma renda de cerca de R$ 150. Mas os
ventos estão começando a alterar os rumos para os
lados de Vila Verde.
Uma recente parceria com o Senac, que oferece capacitação
para as cooperadas, além da administração garantida
pela Fundação das Entidades Assistenciais de Campinas
(Feac), deu um caráter mais profissional à organização.
"As empresas da localidade também passaram a cooperar",
diz Massagardi. "Estão fazendo suas encomendas de jalecos
e embalagens diretamente à cooperativa".
Embora os idosos ainda estejam distantes da preferência das
empresas quando elegem seus projetos sociais, essa população
vem crescendo e se impondo, segundo dados do Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística (IBGE). São 14,5 milhões,
cerca de 8,6% da população brasileira, conforme o
Censo 2000. Em 1991 o pessoal com mais de 60 anos correspondia a
7,3%.
É um contingente poderoso. Segundo o Censo IBGE, 62,4% dos
idosos e 37,6% das idosas são arrimo de família. Juntos,
somam uma população de 8,9 milhões, dos quais
54,5% garantem o sustento dos filhos e até dos netos. Graças
às aposentadorias, esses velhos são responsáveis
por mais de 90% do total de rendimento mensal do domicílio,
conforme a pesquisa Indicadores Sociais Municipais do IBGE.
Nas pequenas localidades rurais, é comum o dia do pagamento
dos aposentados ser o único do mês em que a economia
da cidade se movimenta. Depois que a Constituição
de 1988 garantiu o acesso à aposentadoria a todos os trabalhadores
do campo, as estatísticas da pobreza sofreram alterações.
O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) demonstra
que desde o advento da aposentadoria rural a pobreza entre a população
desceu de 45% para 32%. A pesquisa levou em conta a remuneração
mensal per capita.
Apesar da falta de atenção dos projetos sociais, a
secretária estadual de Assistência e Desenvolvimento
Social, Maria Helena Guimarães, revela que os idosos fazem
parte do segmento mais contemplado pelas políticas públicas.
Em parceria com a prefeitura e a iniciativa privada, São
Paulo conta com o Centro-Dia, espécie de creche para pessoas
de mais idade; e atendimento domiciliar, para idosos com problemas
crônicos de saúde. São nove os Centros-Dia na
região metropolitana de São Paulo, que atendem uma
média de 35 pessoas por mês e custam R$11.150 aos cofres
públicos.
Há também os 188 centros de convivência distribuídos
pelo Estado de São Paulo, que recebem cerca de 11 mil idosos
por mês. Para os muito pobres e sem família, 228 abrigos
no Estado asseguram atendimento especial e cinco refeições
diárias. Além disso, o programa Benefício de
Privação Continuada garante um salário mínimo
mensal até a morte - benefício do qual se valem cerca
de 165 mil idosos em São Paulo.
A grande vitrina dos programas de idosos, segundo Maria Helena,
é o Condomínio República da Melhor Idade, inaugurado
no final de 2003 e que segue o conceito das repúblicas de
estudantes. São 66 apartamentos numa construção
da CDHU que atende as necessidades das pessoas de mais idade: barras,
pisos antiderrapantes, batentes amplos. Cada morador paga R$ 39
por mês. "Até 2006, o governo pretende entregar
mais cinco condomínios iguais", diz Maria Helena.
Enquanto as grandes cidades procuram garantir programas em larga
escala, os municípios menores podem fazer um trabalho mais
personalizado. Timóteo (MG), onde a Acesita se instalou há
60 anos, entre os 75 mil habitantes há 12 mil aposentados
- a maioria ex-funcionários da Acesita. Desse contingente
cinco mil são membros da Associação dos Aposentados
de Timóteo, onde a empresa atua com suporte financeiro e
administrativo.
"A empresa não doa recursos, mas ajuda a promover o
desenvolvimento da instituição", diz Anfilófio
Salles, presidente da Fundação Acesita. Entre as ações
desenvolvidas pela associação, que inclui lazer e
promoção de eventos, há seminários de
saúde - comprovadamente responsáveis pela melhoria
da qualidade de vida de 85% dos membros, que inclusive reduziram
o consumo de medicamentos, segundo pesquisa da associação.
O grande orgulho da Acesita é o Instituto do Inox, organização
social que há seis anos treina o pessoal para trabalhar e
confeccionar utilitários com aço. Entre os alunos
70% são aposentados e responsáveis diretos pelo aumento
das fábricas de objetos de aço: de uma única
em 1999, hoje já são 32 que geram cerca de 400 empregos
diretos. Essa disposição para uma nova atividade,
segundo Salles, se deve ao programa da Acesita de preparação
para a aposentadoria.
"O programa expõe a nova realidade que as pessoas vão
enfrentar a partir da aposentadoria, mas mostra também que
é possível começar uma nova vida", explica
Salles. A possibilidade de reinventar a carreira, contudo, não
fica apenas no discurso ou nas palestras do pessoal que tem alguma
história de sucesso para contar. A Fundação
Acesita oferece um suporte para quem quiser montar o próprio
negócio depois da aposentadoria. Esse suporte é a
Agência de Desenvolvimento de Timóteo (ADT) que, além
da Acesita tem parceiros como o Sebrae e a prefeitura de Timóteo.
"A ADT fomenta a criação de pequenos negócios",
afirma Salles. "Aposentado que quiser trabalhar por conta própria
recebe todas as orientações necessárias, recebe
incentivo fiscal, financeiro e até conta com a doação
de terreno para instalar a fábrica ou a oficina".
A garimpagem de uma nova função remunerada, ou que
pelo menos resulte em benefícios financeiros, nem sempre
é objetivo de todos que chegam à aposentadoria. Desengavetar
um sonho antigo, dedicação a um projeto social, cantar,
utilizar o tempo para escrever prosa ou poesia também são
formas de manter uma atividade produtiva. "Cora Coralina começou
a publicar seus escritos aos 70 anos", diz, entusiasmado, Araken
Vaz Galvão, 69, um dos vencedores do concurso Talentos da
Maturidade, patrocinado pelo Banco Real.
Se Cora Coralina servir como parâmetro, Galvão acredita
estar próximo o dia de ver seus contos editados. "Tenho
cinco livros prontos", diz. De Valença (BA), onde mora,
Galvão sobrevive com a aposentadoria de capitão do
Exército e sonha com a possibilidade de ser descoberto por
alguma editora. Tal como Galvão, Marlete de Carvalho também
levou o prêmio Talentos da Maturidade na categoria música
vocal.
O segredo, segundo os consultores que orientam empresas a encaminhar
a aposentadoria de seus funcionários, é não
se acomodar e empreender. As saídas podem ser buscar clientes
em lugar de procurar emprego; prestar serviço em lugar de
esperar pedidos. Foi exatamente o que fez Paulina Lerner: levou
sua experiência como professora de marketing para o departamento
de voluntárias do Hospital Albert Einstein. A primeira experiência
foi no Banco de Sangue, onde ajudava no esforço de convencer
doadores a doar espontaneamente - ainda era o tempo em que doações
de sangue eram remuneradas.
Aos 71, Paulina continua no Einstein, agora como vice-presidente
do departamento de voluntárias. "É um trabalho
fantástico, porque sempre aprendo mais do que dou",
diz. O tempo em que está no cargo permite a ela acompanhar
o trabalho das voluntárias na favela de Paraisópolis,
no entorno do hospital, em São Paulo. "O trabalho da
equipe das voluntárias provocou uma mudança comportamental
nas crianças, nas mães e em todas as pessoas da favela",
afirma. "É um trabalho de fôlego, constante e
prazeroso. Não tem remuneração, mas nada paga
assistir a melhoria da qualidade de vida das pessoas".
(Valor – 24/02/05)
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