Bolsa de Valores tem grupo de investidores com mais de 70 anos

Pequena, curvada, cabelos completamente brancos, aparência frágil e roupas simples: aos olhos de seus vizinhos do bairro de Copacabana , dona Zuleika Fonseca parece apenas mais uma simpática vovó. Fosse feita uma enquete, provavelmente nenhum deles adivinharia que, aos 82 anos, a verdadeira vocação que corre em suas veias é outra: a de investidora apaixonada pelo mercado de ações: " Não tive filhos, sou solteirona e sempre gostei de lidar com dinheiro. Descobri a bolsa de valores na década de 60 e nunca mais parei " .

No momento em que começa a falar, dona Zuleika surpreende pela objetividade, lucidez e nível de informação. Detesta computador, mas é leitora ávida de jornais, revistas e relatórios. Sempre fez questão de escolher pessoalmente as ações que compõem sua carteira e de desenhar toda sua estratégia no mercado. Investidora agressiva, gosta de operar no mercado de opções.

Mas parou porque admite que, aos 82 anos, esse grau de risco seria demais para ela. O resultado de tudo isso? Três apartamentos comprados na zona sul carioca e uma carteira de papéis com um valor de mercado interessante e diversão diária garantida. "Escuto algumas dicas do pessoal da corretora e de outros investidores, mas sempre acabo indo pela minha cabeça", conta ela, que administra também o patrimônio da família. "Ela é a nossa ministra da economia", brinca a irmã e companheira inseparável, Zildete Fonseca.

Para quem pensa que dona Zuleika é um caso isolado no mercado acionário, a corretora carioca Égide, por onde ela opera, prova o contrário. Na última quinta-feira a corretora reuniu apenas uma pequena parte de seu grupo de investidores com mais de 75 anos na tradicionalíssima confeitaria Colombo para que eles contassem um pouco de suas histórias de paixão pelo mercado de capitais. Paixão que, aliás, não é gratuita. Investir na bolsa para eles significou poder realizar sonhos que seriam impossíveis sem a alta significativa dos bem escolhidos papéis que compuseram suas carteiras nas últimas quase quatro décadas.

Foi graças a isso que dona Cléa Silva, 76 anos, professora aposentada da Tijuca, zona norte do Rio, pôde viajar e conhecer o mundo inteiro. É também com o ganho das ações que a aposentada Edith Arruda, 82 anos, pode manter hoje o padrão de vida que sempre teve, mesmo após a morte de seu marido, cuja pensão não lhe rende nem R$ 1 mil por mês. Também é graças ao ganho que teve e continua tendo com os papéis que o ex-comerciário Ermelindo Tozzato, 82 anos, conseguiu montar hoje uma carteira diversificada de investimentos que inclui fundos e imóveis, além de suas ações, das quais não abre mão.

Todos garantem que sempre ganharam na bolsa e que as perdas ocorreram, sim, mas foram largamente superadas pelos ganhos e minimizadas pela diversificação. Os maiores ganhos de quase todos foram obtidos com escolhas aparentemente simples: Companhia Vale do Rio Doce, Banco do Brasil, Souza Cruz e Petrobras são respostas unânimes à pergunta "com que papéis você ganhou mais dinheiro?".

Um ou outro tem alguma história de aposta particular bem-sucedida, mas na base dos ganhos sempre estão as empresas mais sólidas. É por conta disso que nem a maior sumidade em planejamento financeiro do mundo seria capaz de convencê-los a zerar sua parcela em renda variável, como rezaria a cartilha de avaliação de risco de várias instituições financeiras para as pessoas nessa faixa de idade.

"Meus filhos estão criados, não tenho netos e a vida é para aproveitar. Tenho algum dinheiro investido na renda fixa, mas é pouco. Sei que dizem que isso é errado, mas nenhum outro investimento teria me permitido tudo o que eu consegui com as minhas ações", diz Cléa Silva.

Ela começou a comprar papéis por acaso, na virada da década de 60 para a de 70 por indicação de um amigo que gostava de investir em ações. "Era o boom do mercado acionário, eu não tinha muito dinheiro para aplicar, mas comecei com pouco mesmo, sempre fui cautelosa, escolhia empresas sólidas e o investimento foi dando certo. Com os ganhos, conheci o mundo todo, Oriente, Estados Unidos, fui para a Europa já três vezes. Com meu salário de professora jamais daria para fazer isso", comemora Cléa, que vive tendo que explicar para as amigas qual o 'milagre' que faz para conseguir multiplicar o seu dinheiro.

Ex-diretor de uma empresa que negociava tecidos por atacado, Ermelindo Tozzato lembra com saudade dos tempos áureos da Bolsa do Rio de Janeiro, quando ainda era possível comprar papéis das empresas da região. "As primeiras ações que comprei, na década de 60, foram Nova América, América Fabril e Fábrica de Tecidos São Pedro de Alcântara, era um setor que eu conhecia bem", diz, lembrando de um tempo em que o termo IPO (Initial Public Offerings) não existia, mas abertura de capital de companhias não faltava como hoje.

"Naquele tempo, guardar dinheiro era só na Caixa Econômica Federal, ou comprando letras de câmbio, isso se usava muito. Comecei a operar na bolsa pela Corretora Alexandre Dale, que era do avô do meu atual consultor, Júlio Dale. Nunca perdi muito porque não sou especulador, não faço 'day trade' (compra e venda de ações no mesmo dia)", conta ele, antenadíssimo com as novas nomenclaturas do mercado.

Blue chip no tempo de Tozzato significava White Martins, Brahma, Souza Cruz, Belgo Mineira. Ganhou algum dinheiro com algumas delas, mas a ação que habita há mais tempo sua carteira é a de um banco que lhe pareceu muito promissor anos atrás. "O Bradesco não era essa potência toda que é hoje. Eles precisavam captar clientes e davam mil facilidades. A menina que atendia no balcão me ofereceu as ações quando fui abrir a conta", lembra Tozzato.

Até hoje ele tem tanto a conta corrente no Bradesco quanto os papéis e já perdeu a conta de quanto ganhou com a variação e os dividendos. "Mantenho o papel na carteira porque continuo achando interessante", avalia ele. "Hoje já diversifiquei minha carteira. Com o dinheiro que ganhei na bolsa comprei imóveis e aplico em fundos de renda fixa. Mas continuo com minha carteira de papéis", garante.

Belíssima e elegante aos 82 anos, dona Edith Arruda sempre teve uma queda pelo mercado de ações e só não investiu mais porque não encontrava adeptos na família. "Meu marido ficava nervosíssimo com isso. Mas ainda bem que eu insisti em manter sempre meus papéis. Além de ser cautelosa e diversificar, acho que tive sorte também, aproveitei as grandes altas e realizei uma boa quantia antes da última baixa", conta ela, que consegue manter seu ótimo padrão de vida graças ao tino que sempre demonstrou para investir.

"Em 1971, vendi um apartamento e apliquei tudo na bolsa. Logo depois foi aquela maravilha. Meu marido ficava louco, me implorava para sair. Ele dizia: não é possível, você ganha dez mil todo dia, uma hora isso acabar mal. De tanto ele falar resolvemos comprar outro imóvel, vendi as ações bem na hora, antes da queda", lembra.

Hoje dona Edith mantém uma carteira de ações bem menor, mas não consegue ficar longe da bolsa. "Aplico em empresas mais sólidas, como Souza Cruz, que eu comecei a comprar quando custava R$ 10. Outra coisa é que eu sou sempre compradora, não gosto de vender as ações", orgulha-se. Hoje as ações da empresa já valem R$ 25.

(Valor Econômico – 01/10/03)