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Idosos do novo mundo
Enquanto a população
geral mundial cresce anualmente a uma taxa de 1,7%, a população
acima de 65 anos aumenta a uma taxa de 2,5% ao ano. Considerando-se
a idade de 60 anos, em todo o mundo, espera-se um aumento de 605
milhões, em 2000, para 1,2 bilhões, no ano de 2025.
O envelhecimento
populacional deveria representar um triunfo do desenvolvimento social
e da saúde pública. Nos países desenvolvidos,
na verdade, o desenvolvimento socioeconômico tem ocorrido
junto com o envelhecimento populacional, enquanto naqueles em desenvolvimento
o surgimento de novas tecnologias médicas, preventivas, diagnósticas
e curativas, com novos recursos terapêuticos, fornece meios
para prevenir as mortes causadas pelas doenças na meia-idade
e nos indivíduos que começam a envelhecer. Assim sendo,
profundas diferenças sociais ficam estabelecidas entre esses
dois universos diferentes. O cenário dos países em
desenvolvimento é sombrio, mostrando a incerteza de uma maior
expectativa de vida face a face com a privação econômica
e sem um suporte social adequado. Por certo, dessa forma, o triunfo
cede lugar à crise e ao desafio do envelhecer.
Entretanto,
diante das perspectivas demográficas, com o envelhecimento
populacional ocorrendo ao longo de décadas e não em
rápidos anos, as sociedades e os governos têm tido
suficiente tempo para criar uma política assistencial para
o idoso. Contudo, a saúde do idoso depende de um complexo
conjunto de fatores, entre eles do seu comportamento ao longo de
toda a vida.
O processo de
envelhecimento populacional iniciado nos países em desenvolvimento
com um interregno de cerca de cem anos em relação
à Europa, mostrará rápidas mudanças
nessas nações, projetando um crescimento na população
idosa entre 200% e 400% nos próximos 20 anos. Nos países
desenvolvidos, esse crescimento será, aproximadamente, entre
30% e 140%. Esse fenômeno, porém, apresenta outra particularidade
- o contingente de idosos está se tornando mais velho, aumentando
o número dos muitos velhos, constituindo, já na década
de 90, 12% dos idosos dos países em desenvolvimento e 20%
nos desenvolvidos.
Outrossim, o
envelhecimento caminha lado a lado com a incapacidade e a dependência,
criando uma expectativa trágica para essa fase tardia da
vida, embora o fato de envelhecer não deva necessariamente
ser acompanhado por carga mórbida.
A Organização
Mundial de Saúde (OMS) enfatiza: "É necessário
o reconhecimento de que o aumento da longevidade sem qualidade de
vida é um prêmio vazio. A expectativa de saúde
é mais importante do que a expectativa de vida".
A palavra de
ordem, então, foi dada ao aspecto básico da prevenção
da incapacidade, prevenindo e\ou diagnosticando de forma precoce
as condições crônicas dos idosos. Entre nós,
o problema se agiganta quando, em 2025, teremos um contingente de
32 milhões de idosos.
Em 1900, às
portas do século XX, o brasileiro nascia com uma expectativa
de vida de 33 anos e 7 meses. Gradativamente, resultando da mudança
de hábitos de vida e da introdução de avanços
tecnológicos à assistência à saúde,
como novas drogas e o diagnóstico precoce das doenças,
foi aumentando a expectativa de vida entre nós para, a partir,
principalmente, da década de 60, experimentar uma firme mudança
do perfil demográfico brasileiro. Hoje, no Brasil, o segmento
populacional que, porcentualmente, mais cresce é o de idade
igual ou superior a 60 anos.
Apesar da inexorabilidade
do natural fenômeno do envelhecimento, com o aparecimento
das rugas, queda e embranquecimento dos cabelos, do surgimento de
certas doenças crônico-degenerativas, etc., paulatinamente
o ser humano logra alcançar idades mais avançadas.
As mudanças de estilo de vida, novos tratamentos e, principalmente
nos países desenvolvidos, a melhora das condições
de vida projetam a expectativa de vida para níveis mais elevados,
com perspectivas para este século de superar os cem anos.
Os dados do
IBGE nos apontam para um contingente que não pára
de crescer. Hoje, no Brasil, temos cerca de 0,74% da população
com idade igual ou superior a 80 anos. A projeção,
para 2020, para essa faixa, é de 1,17%.
Indiscutivelmente,
a maior longevidade é uma conquista do século XX,
tornando-se, agora, no século 21, possível alcançar
idades nunca imaginadas por ninguém. As pesquisas no campo
da genética projetam aplicações inimagináveis,
acenando com a possibilidade de cura e de prevenção
de doenças por meio da engenharia genética.
O Brasil, atualmente,
de acordo com os dados do IBGE relativos ao Censo 2000, apresenta
24. 576 pessoas com idade de 100 anos ou mais - 10.423 homens e
14.153 mulheres.
Envelhecemos,
todavia envelhecer não é uma tarefa fácil.
Nesse caminhar, encontramos inúmeras dificuldades. As inevitáveis
limitações inerentes ao envelhecimento físico,
trazendo em seu cerne as restrições para o desempenho
das atividades de vida diária e, o que é pior, a esses
obstáculos somam-se outros peculiares ao ser humano, ainda
tão cheio de preconceitos, que estigmatiza o idoso.
Entretanto,
as barbáries e as iniqüidades têm atingido a humanidade
num todo, desnudando os humanos e revelando a sua face tantas vezes
primitiva e, por outro lado, o homem inteligente e pródigo
que decodifica o genoma e torna previsível um século
de grandes revoluções no campo da genética.
Envelhecemos
com o respaldo de uma elite sólida que sintetiza a velhice
a partir do respeito e da dignidade, erguendo bem alto a bandeira
que antes, tímida, pouco se mostrava, mas que agora cresce
e reivindica os olhos do mundo, eclodindo, consciente do fenômeno
que representa em nível mundial, na força de uma expectativa
além dos 100 anos.
Elizabete Viana
de Freitas é professora de medicina da Universidade Estadual
do Rio de Janeiro (Uerj) e presidente da Sociedade Brasileira de
Geriatria e Gerontologia
(Valor -
17/05/02)
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